Jornal O Globo
Durante anos, a indústria da beleza vendeu a ideia de que envelhecer era algo a ser combatido. Rugas, manchas e linhas de expressão se transformaram em alvos permanentes de rotinas extensas de skincare e procedimentos cada vez mais invasivos. Agora, um novo movimento começa a ganhar força nos consultórios e nas redes sociais ao propor uma mudança de perspectiva: mais do que parecer jovem, o objetivo passa a ser manter a pele saudável ao longo da vida. Por que as celebridades parecem não envelhecer? Especialistas explicam nova era da longevidade 'Gerenciamento do envelhecimento': como mulheres assumem o controle do próprio tempo Chamado de SkinSpan, o conceito surge inspirado no termo Healthspan, usado para definir o tempo de vida vivido com saúde, e reflete uma transformação no modo como o envelhecimento vem sendo encarado. A proposta deixa de lado excessos e resultados artificiais para priorizar equilíbrio, funcionalidade e naturalidade. Em vez de uma corrida contra o tempo, a pele passa a ser vista como um organismo vivo, que responde diretamente ao estilo de vida, aos hábitos diários e à forma como é tratado ao longo dos anos. Na prática, isso significa menos foco em soluções imediatistas e mais atenção à qualidade da pele. Barreira cutânea preservada, inflamação controlada, estímulo gradual de colágeno e manutenção do microbioma entram no centro da conversa, enquanto rotinas excessivas e intervenções exageradas começam a perder espaço. Segundo a dermatologista Marcella Alves, da Onne Clinic, no Rio de Janeiro, essa mudança já vem transformando a dinâmica dos atendimentos. "Na prática, o conceito de SkinSpan muda o foco do tratamento. Em vez de agir apenas sobre sinais visíveis, como rugas ou manchas, passamos a cuidar da pele como um sistema vivo ao longo do tempo. Isso envolve preservar a função da barreira cutânea, reduzir processos inflamatórios crônicos e estimular mecanismos naturais de regeneração, como a produção de colágeno", explica. A especialista afirma que esse novo olhar também influencia a forma como os tratamentos são conduzidos. "No consultório, isso se traduz em rotinas mais estratégicas, com menos excessos, e em tratamentos que priorizam qualidade de pele e prevenção", diz. O excesso entrou na mira dos dermatologistas Se antes o autocuidado era frequentemente associado a rotinas com inúmeros produtos e procedimentos frequentes, agora o excesso passou a ser apontado como um dos principais fatores de desequilíbrio da pele. O uso indiscriminado de ácidos, esfoliantes e ativos potentes sem orientação adequada pode comprometer a barreira cutânea e favorecer processos inflamatórios persistentes. "O principal fator hoje é o excesso. O uso indiscriminado de ativos, especialmente ácidos e esfoliantes, pode comprometer a barreira cutânea e favorecer um estado de inflamação persistente na pele", alerta Marcella. A médica destaca que esse processo, associado a fatores externos, contribui para o chamado inflammaging, termo usado para definir inflamações relacionadas ao envelhecimento. Exposição solar sem proteção, noites mal dormidas, estresse crônico e poluição também aparecem entre os principais fatores que impactam a qualidade da pele no longo prazo. Naturalidade ganha espaço nos consultórios A mudança de comportamento também vem alterando o perfil dos pacientes. Procedimentos excessivos e transformações muito marcadas começam a perder força diante de uma procura maior por resultados sutis e aparência mais natural. Para o dermatologista Alexandre Filippo, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia e professor do setor de laser da Santa Casa do Rio de Janeiro, esse movimento representa uma resposta ao exagero estético dos últimos anos. "Esse conceito atual traz para a nossa rotina pessoas com uma pele saudável, bem cuidada e sem exageros, promovendo uma naturalização facial. São pessoas que já fizeram tratamentos exagerados e cansaram desse estereótipo, além de pacientes que nunca fizeram procedimentos por medo de ficarem diferentes e que agora apostam na naturalidade", detalha. Segundo ele, o alinhamento entre expectativa e realidade se tornou parte importante desse novo momento. "Esse alinhamento se dá fazendo poucos tratamentos, de acordo com o exame físico e a indicação para cada pessoa, esperando os resultados aparecerem e criando um programa de manutenção sem exageros", acrescenta. A pele também reflete o estilo de vida Mais do que produtos e tecnologias, o conceito de SkinSpan reforça a relação entre saúde da pele e hábitos cotidianos. Alimentação equilibrada, sono de qualidade e controle do estresse passam a ser vistos como pilares importantes da longevidade cutânea. "A pele responde diretamente ao estilo de vida. Uma alimentação equilibrada, rica em antioxidantes e nutrientes adequados, ajuda a reduzir o estresse oxidativo e contribui para a integridade da pele", observa Marcella. A dermatologista enfatiza que o sono participa diretamente dos processos de reparo celular e da regulação hormonal, enquanto o estresse crônico favorece inflamação e degradação de colágeno: "Não existe saúde da pele isolada: ela é reflexo do funcionamento do organismo como um todo." Menos fórmulas prontas, mais individualização A ideia de prevenção contínua também faz parte dessa nova abordagem. Para Alexandre, não existe idade certa para começar a cuidar da pele, desde que os tratamentos respeitem as necessidades e características de cada fase da vida. "Quanto mais cedo começar, melhor. Mantemos uma rotina de cuidados sem exageros, respeitando a faixa etária e o estado da pele. Mas nada impede que pessoas que nunca fizeram tratamentos iniciem os cuidados em idade mais avançada", comenta. O dermatologista menciona ainda que novas tecnologias devem tornar os tratamentos cada vez mais personalizados. "Hoje já temos biomarcadores celulares que nos dão uma noção real de como está o estado da pele, como nível de inflamação, hidratação e pigmentação, tudo associado à inteligência artificial", frisa. Enquanto essas ferramentas não se tornam mais acessíveis, ele reforça a importância do equilíbrio. "Bom senso, tanto do profissional quanto do paciente, faz com que esse novo conceito seja levado como prioridade", conclui.
Go to News Site