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Em delação, mafioso revela que PCC financiava 50% do envio de cocaína para a Europa | Collector
Em delação, mafioso revela que PCC financiava 50% do envio de cocaína para a Europa
Revista Oeste

Em delação, mafioso revela que PCC financiava 50% do envio de cocaína para a Europa

O italiano Vincenzo Pasquino, preso na Penitenciária Federal de Brasília , prestou o primeiro de uma série de depoimentos a procuradores antimáfia da Itália em 28 de novembro de 2023. A colaboração, iniciada ainda no Brasil, se tornou uma das mais relevantes delações já produzidas sobre a parceria entre o Primeiro Comando da Capital (PCC) e a máfia da Calábria, ’Ndrangheta , no tráfico de drogas internacional. As declarações de Pasquino serviram de base para a Operação Samba, deflagrada simultaneamente no Brasil e na Itália em dezembro de 2024, contra um consórcio criminoso acusado de enviar toneladas de cocaína da América do Sul para a Europa. + Leia mais notícias do Mundo em Oeste Segundo investigadores italianos, foi a primeira vez que um integrante da máfia descreveu em detalhes a estrutura operacional construída pelo PCC para atuar no tráfico globalizado. “Decidi tomar esse caminho da colaboração com a Justiça porque as pessoas nas quais eu confiava me abandonaram”, afirmou Pasquino aos procuradores italianos. As informações foram divulgadas pelo jornal O Estado de S. Paulo . Criminosos do PCC tentaram enviar 815 quilos de cocaína pelo Porto de Santos, em fevereiro de 2025, ocultando a droga em uma carga de café que foi interceptada | Foto: Divulgação/Receita Federal Os depoimentos ocorreram ao longo de meses, inclusive depois da extradição do mafioso para a Itália, em março de 2024. Um dos relatos mais recentes foi prestado à 16.ª Vara Criminal Federal de João Pessoa (PB), no âmbito da Operação Conexão Paraíba, braço brasileiro da ofensiva antimáfia. Ao analisar o conteúdo das declarações, a juíza italiana Francesca Rosseti afirmou que “subsistem em seu relato a confiabilidade intrínseca e a credibilidade subjetiva do declarante”. Diante da colaboração, Pasquino foi condenado a dez anos de prisão — uma das penas mais baixas entre os investigados da Operação Samba. Segundo o mafioso, o elo entre PCC e ’Ndrangheta começou a ser consolidado em 2018, quando integrantes da família Nirta, da cidade calabresa de San Luca, decidiram ampliar suas operações na América do Sul. Os mafiosos Sebastiano Giampaolo, Ivano Piperissa e Giuseppe Vitale foram enviados ao Brasil para negociar diretamente com o PCC. Operação Conexão Paraíba investigou as ligações entre o PCC e a máfia italiana; Vincenzo Pasquino prestou depoimento no inquérito |Foto: Divulgação/PF Pasquino afirmou ter sido o responsável por organizar a reunião em São Paulo que selou o acordo entre as organizações criminosas. “Integrantes de várias famílias me pediam para trabalhar com eles. Era eu quem mantinha contato com o PCC”, declarou. O pacto previa que PCC e ’Ndrangheta dividiriam igualmente os custos de cada carregamento de cocaína destinado à Itália. Cabia a Pasquino transportar os recursos financeiros da Europa para o Brasil. De acordo com o delator, o PCC vendia a cocaína aos italianos por € 5 mil o quilo. Com despesas logísticas e propinas nos portos, o valor subia para € 7,5 mil antes da distribuição na Europa. “A parte do PCC na venda na Itália tinha o preço mínimo acordado de € 23 mil a € 25 mil”, relatou. Mafiosos Rocco Morabito e Vincenzo Pasquino foram presos em condomínio em João Pessoa, na Paraíba | Foto: Reprodução/PF A droga era desembarcada principalmente no porto de Gioia Tauro, na Calábria, considerado o maior terminal de contêineres do Mediterrâneo e historicamente dominado pela ’Ndrangheta. A partir dali, os carregamentos eram distribuídos para Sicília e norte da Itália. Pasquino descreveu ainda a participação do mafioso Rocco Morabito — preso com ele na Paraíba em 2021 — e a colaboração entre diferentes clãs da ’Ndrangheta para recuperar a cocaína escondida em navios cargueiros. Máfia italiana manteve contato com o Comando Vermelho Os relatos também atingiram o Rio de Janeiro e o Comando Vermelho (CV). Segundo Pasquino, a máfia italiana chegou a manter contatos com integrantes da facção carioca, mas não formalizou parceria semelhante à estabelecida com o PCC. Comando Vermelho (CV) utilizou drones com bombas para atingir a polícia durante operação no Complexo do Alemão em outubro | Foto: Reprodução/Internet “Ele conhecia muitos milicianos e homens do CV, de Fernandinho Beira-Mar. Eu estive em uma reunião em uma favela, mas jamais trabalhei diretamente com o CV porque eles não me agradavam”, disse, referindo-se a um intermediário chamado Emanuel. O italiano afirmou ter se impressionado com o cenário encontrado nas favelas cariocas. “Me espantou muito que, logo depois que entramos na favela, havia muitas pessoas com fuzis e com tornozeleiras eletrônicas saídas da cadeia, tudo isso debaixo dos olhos da polícia que olhava de longe, mas não podia ultrapassar o limite da favela.” Nos depoimentos, Pasquino detalhou dezenas de carregamentos de cocaína enviados à Europa. Um dos primeiros casos mencionados envolveu 440 quilos da droga transportados de Itajaí (SC) para Málaga, na Espanha, e posteriormente apreendidos em Livorno, na Itália. Porto de Itajaí, Santa Catarina | Foto: Reprodução/UnB/Wikimedia Commons Segundo ele, o carregamento pertencia ao PCC e seria retirado no porto espanhol pelo brasileiro Nicholas Charles Evangelista Lopes, conhecido como Loko, apontado como integrante da facção paulista. O grupo, porém, desistiu da operação por medo da polícia espanhola. Pasquino afirmou que Nicholas atuava em nome de Demétrio Batista de Oliveira, conhecido como Pateta ou Fantasma, acusado de ser um dos principais narcotraficantes da América do Sul ligados ao PCC. “A droga não era nossa. Ela era do PCC”, afirmou o mafioso. Segundo ele, criminosos que controlavam os portos recebiam uma porcentagem sobre os carregamentos. “Nós devíamos pagar 20%, mas eu pedi aos brasileiros 30%, de tal modo que 10% permanecessem com a gente.” O italiano disse acreditar ter sido traído por um parceiro conhecido como Il Professore, que teria vendido parte da carga a uma família rival da ’Ndrangheta. Apenas metade dos 440 quilos foi apreendida pela polícia italiana. Vincenzo Pasquino admitiu seu envolvimento com a ‘Ndrangheta, inclusive no Brasil | Foto: Divulgação/Polícia Civil/Reprodução/Estadão PCC convocou mafioso para "tribunal do crime" O episódio provocou reação do PCC. Conforme o depoimento, Pasquino foi convocado para prestar esclarecimentos ao chamado “tribunal do crime” da facção. Recebeu um prazo para quitar a dívida referente ao carregamento desaparecido e, caso não o fizesse, seria executado. “Foi informado de que deveria responder pelo carregamento”, registraram os investigadores italianos. Pasquino contou ainda que ingressou oficialmente na ’Ndrangheta em 2011 e que, anos depois, passou a atuar diretamente na estrutura internacional de tráfico. Em 2017, foi enviado ao Brasil para organizar uma nova rota marítima de drogas, utilizando veleiros que saíam da Europa com ecstasy e retornavam carregados de cocaína. Segundo ele, a primeira remessa organizada a partir do porto de Santos transportava 50 quilos da droga escondidos em compartimentos externos de um navio por mergulhadores brasileiros. “Eles usaram bolsas de cor fosforescente e, por isso, foram percebidos pela polícia, que os prendeu”, relatou. Em 2006, o PCC aterrorizou São Paulo com ataques coordenados. Hoje, seu “Tribunal do Crime” age como uma Suprema Corte paralela | Foto: Reprodução Pasquino afirmou ainda ter comprado criptofones para integrantes do PCC ao custo de US$ 20 mil e revelou que a facção paulista exigia negociar apenas com mafiosos oficialmente vinculados à ’Ndrangheta. “A facção só tratava com criminosos que pertenciam à ‘família’”, disse. Em outro trecho do depoimento, o italiano declarou ter sido pioneiro na técnica de esconder cocaína sob a quilha de navios com auxílio de mergulhadores colombianos. “Fui o primeiro a usar a técnica de esconder cocaína embaixo da quilha dos navios”, afirmou. Segundo ele, os carregamentos começaram com 17 quilos e depois cresceram para 110 quilos destinados a Gênova e 140 quilos enviados a Gioia Tauro. O mafioso utilizava o codinome Cristiano Ronaldo — referência ao jogador português, de quem se disse admirador. Ao longo dos interrogatórios, descreveu a construção gradual da parceria com criminosos brasileiros. “Nós partimos praticamente do zero, no sentido de que não tínhamos os contatos, mas pouco a pouco fomos criando”, declarou. O post Em delação, mafioso revela que PCC financiava 50% do envio de cocaína para a Europa apareceu primeiro em Revista Oeste .

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