Jornal O Globo
Taís Araujo abre a tampa de uma panela sobre o fogão da cozinha de sua casa e espia. A atriz está descalça e veste um pijama branco de seda. É o meio da tarde de uma quinta-feira. Ela acordou às 6h, levou filhos na escola, fez musculação, spinning, sessões de massagem e fonoaudiologia. Taís Araujo. 'O amor sempre foi uma questão para a mulher preta' Bella Campos. 'Se me botarem na geladeira, vou construir um universo inteiro dentro dessa geladeira' Também estudou cada trecho do texto de “Mudando de pele”, peça com que está em cartaz até o dia 24, sob direção de Yara de Novaes, no Teatro Sesc Ginástico, Centro do Rio. Agora, enquanto os cachorros Batata e Aurora circulam por ali, ela escolhe o almoço. Vai de salada, seguida de arroz, feijão e ovo frito, “com geminha meio mole, sabe?”, como havia pedido, com dengo, à funcionária Célia. Ao iniciar a temporada, a atriz decidiu que os dias em que encenaria a peça seriam assim: dedicados exclusivamente à sua preparação para subir ao palco — além da logística dos filhos, João Vicente e Maria Antonia, que faz questão de pouco delegar. Entendeu que precisava focar e impor limites para outras demandas profissionais como as dezenas de campanhas publicitárias que estrela. — O teatro é o projeto mais importante da minha vida esse ano. E tem que ser tratado como tal. Todos à minha volta têm que entender isso. Por que quando é uma novela ou um filme, todo mundo trabalha de acordo. Quando é teatro, a tendência é falar “ah...” — diz Taís. — A gente ensaiou com muito compromisso. Por que não vou lidar com um projeto meu com o mesmo rigor que lido quando trabalho vem de fora? Foi antes mesmo de “Vale tudo” estrear que ela bateu o martelo: faria teatro assim que a novela terminasse. O desejo de intercalar audiovisual com ribalta é perene, mas nem sempre é possível. Tanto que ficou longe dos palcos por cinco anos — desde o “Topo da montanha” (2016), com que lotou teatros por outros cinco anos sob direção do marido, Lázaro Ramos. A busca pelo equilíbrio segue constante porque é no teatro que Taís encontra respostas diante de crises. Luana Piovani. Sou evangélica macumbeira' — Sempre que tenho alguma questão, volto para o teatro, onde só aprendo. Quando acabou “Viver a vida” (2009), por exemplo, ela estava “super mexida”. Havia enfrentado críticas cruéis por conta de sua Helena, protagonista da trama. Um período que define como “complicado, em que não sabia nem se queria continuar sendo atriz”. Passado os anos, ela o reconhece como o mais importante de sua vida e diz que viveria tudo de novo, se pudesse. Mas o desejo à época era sair da frente das câmeras o mais rápido possível rumo às coxias. No meio do caminho, no entanto, tinha um filho. — Engravidei, e filho também melhora a gente, né? — afirma. — O teatro me leva a lugares melhores. Saio melhor atriz, pessoa, cidadã. E é de uma liberdade artística gigantesca. Na Rede Globo, tenho poder de escolha de fazer ou não. Mas o teatro me permite falar o que quero, do jeito que quero, com quem eu quero. Não tem a demanda de outra pessoa. Isso é poderoso! Taís Araújo Divulgação Quando terminou “Cheias de charme”, ela se jogou em “Caixa de areia” (2013), espetáculo de Jô Bilac. A novela tinha sido um sucesso retumbante, mas, como explica a atriz, “não me respondia”. — Aí, entro nesse projeto pequenininho, com todo mundo criando junto e sinto: “É isso! Me reencontrei com a minha vocação, quero continuar” — recorda ela, que soma 13 peças no currículo. No caso do pós-“Vale tudo, o que se apresentou foi a consciência da prosperidade de sua carreira e do vasto horizonte que tem pela frente. — Pensei: “Conquistei tantas coisas e só tenho 47 anos”. Hoje, a gente é muito dona da nossa carreira. Antigamente, dependia de escalação. Cheguei num lugar de muitas opções, e a sensação é a de um roteiro em branco por escrever. É um contexto libertador, mas que também mete medo. — Posso fazer tudo, inclusive, nada. Podia não querer mais trabalhar, ficar viajando, estudando. Mas sou inquieta. E essa carreira não tem limite para melhorar. O que me alimenta? Para onde vou crescer artisticamente? Estava numa encruzilhada e, mais uma vez, o teatro me deu o caminho. Taís Araújo em cena Divulgação / Nana Moraes O caminho se chama “Mudando de pele” , texto da jovem atriz inglesa Amanda Wilkin. Gira em torno de Mayah, uma mulher em busca de sua identidade. Presa num relacionamento falido e num emprego infeliz, ela muda de vida ao conhecer outras mulheres negras. — O texto me pegou porque já tinha me visto nesse lugar muitas vezes. É escrito por uma mulher preta, com o olhar dela, mas é universal. Quem vive hoje está incomodado, querendo ir para outro lugar. Quem não tá, já morreu! Quando você muda de opinião, já está em outro lugar na vida. E a gente muda de opinião o tempo inteiro. Em meio ao fogo que arde, Taís também topou com novas certezas: — Não vou mais fazer porque tenho que fazer ou porque estou sendo pressionada. Se não estiver me sentindo bem fisicamente e emocionalmente, não faço. Vou olhar mais pra mim, me obedecer. Isso é fruto de muitos anos de carreira. Eu sou muito boa funcionária, meio que a funcionária do mês — brinca ela, que renovou contrato com a TV por três anos e disse “não” a uma novela após “Vale tudo”. O ato de se impor é algo que Taís tem visto nas novas gerações. Ela olha para mulheres mais novas como Bella Campos, que viveu sua filha, Maria de Fátima, e tira o chapéu. — Tem algo de muito legítimo em a pessoa poder falar de um incômodo (se refere às queixas de Bella nos bastidores de “Vale tudo”). Quantas vezes a gente se sentiu incomodada e tinha medo de falar? E isso não é uma questão exclusiva da Bella, é geracional - acredita. - Acho bonito quando ela fala que da geladeira (cita a entrevista de Bella Campos ao GLOBO, em que a atriz diz: "Se me botarem na geladeira, vou construir um universo inteiro dentro dessa geladeira"). Foi a fala que mais me impactou, aprendi com ela. Não tem uma coisa só no mundo, sempre vamos construir uma possibilidade dentro do que sobra. A gente acha que várias coisas são o fim da vida, mas a vida só acaba quando termina - analisa. No palco, a riqueza da troca entre gerações é um tema explorado como quando a protagonista diz: “Me sinto inspirada pela Geração Z. Eles são chatos, mas têm uma aura de não aceitar desaforo”. A frase vai de encontro a outra, dita como uma espécie de mantra, quando Mayah tenta se encaixar num trabalho que detesta: “Vou me adaptar, não vou me destacar, vou me adaptar”. O aprendizado com as mais velhas também está em cena quando a protagonista, que passa a morar com uma idosa de 90 anos, evoca experiência ancestral: “A sensação não é que cheguei aqui, mas de que voltei para cá”. O estado emocional da Taís de hoje é de “êxtase absoluto”. Ela define o processo da peça como “o mais amoroso, respeitoso, horizontal e perfeito que já vivi na vida”. — Falo para a Yara: “Deve estar difícil voltar para a vida... Porque tivemos a comprovação: existe a possibilidade de fazer um trabalho amoroso”. Digo que toda a equipe é discípula de bell hooks. Todo mundo leu, praticou, e deu certo. Taís Araújo, Dani Nega e Layla na peça 'Mudando de pele' Divulgação / Nana Moraes A mulherada que cerca Taís na produção é pura aura de amor mesmo. A começar pelas bilheteiras, que vibram ao dar a notícia da casa lotada à atriz assim que ela desponta no hall do teatro. Ou a produtora Valencia Lousada, que avisa com sorriso escancarado que Belo Horizonte pediu sessão extra. Ou ainda as musicistas do elenco, Dani Nega e Layla, que agradecem à graça recebida após o uso do óleo íntimo com que a atriz as presenteou. Por fim, a editora assistente, Ivy Souza, que convoca, meio a brinca, meio a sério, todas ao palco torcendo para que tudo saia bem: “Guerreiras negras, a postos!”. Elas vão. Não sem antes agradecer a São Jorge, dono do dia que marcou a data de estreia da peça. Em roda, elas cantam “Guerreiro é no lombo do meu cavalo/ Bala vem mas eu não caio, armadura é a proteção”, abrindo os caminhos para o público entrar.
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