Jornal O Globo
Prestes a receber quase R$ 5 bilhões para investir nas campanhas, partidos políticos registraram mais gastos do que arrecadaram nos últimos anos eleitorais, quando tiveram seus caixas abastecidos com valores próximos. Levantamento do GLOBO nos balanços das legendas mostra que, em 2024, 19 das 29 siglas que participaram das disputas municipais fecharam o ano com saldo negativo entre despesas e receitas. Leia também: Flávio Bolsonaro busca se distanciar de Ciro Nogueira tenta colar Master no PT Ação e reação: Após Moraes suspender lei da dosimetria, oposição mira resposta no Congresso e base de Lula comemora Em 2022, quando houve eleições gerais como as de outubro próximo, o número foi ainda maior, com 24 delas desembolsando mais do que receberam no período. Dirigentes partidários afirmam que acumulam recursos em anos sem eleição justamente para arcar com os custos para eleger os candidatos. Na prática, a estratégia é juntar a verba recebida quando não há a corrida nas urnas para poder gastar além do que o partido recebe na divisão do Fundo Eleitoral, verba destinada aos gastos de campanha. A tática não representa uma irregularidade em si, mas as contas são avaliadas anualmente pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que verifica se todas as despesas foram justificadas. Morte de JK: Novo relatório contradiz versão de acidente e diz que ex-presidente foi assassinado O PL, por exemplo, declarou à Corte ter fechado 2022, quando tentou reeleger Jair Bolsonaro à Presidência, com R$ 78,7 milhões de déficit no ano, o maior entre todas as legendas. No ano seguinte, em 2023, quando não houve eleição, a sigla compensou parte das perdas, e informou um superávit de R$ 54,6 milhões. Em seguida, contudo, voltou a ter saldo negativo em 2024, de R$ 22,6 milhões. A prestação de contas do ano passado ainda não foi entregue. O prazo vence em junho. Procurado, o partido não comentou os valores. Gastos de campanha O mesmo ocorreu com o PSDB, que gastou R$ 12,6 milhões a mais do que arrecadou em 2024, e R$ 1,6 milhão em 2022. No meio disso, o partido fechou 2023 com saldo positivo, mas de apenas R$ 26 mil. A legenda também foi procurada, mas não se manifestou. Já no caso do PT, a sigla do presidente Luiz Inácio Lula da Silva também registrou mais despesas do que receitas em 2022 (R$ 5,1 milhões) e 2024 (R$ 2,1 milhões), mas teve um superávit superior, de R$ 10,3 milhões, em 2023, quando não houve eleição. Em nota, a legenda afirma que “não houve prejuízo no sentido financeiro” e que o saldo negativo nestes anos “são variações contábeis ligadas ao Fundo Eleitoral”. O Fundo Eleitoral, ou Fundão, é dividido entre os partidos a cada dois anos e deve ser destinado exclusivamente a gastos com campanha. Tanto em 2022 quanto em 2024, o valor distribuído foi de R$ 4,9 bilhões, o mesmo previsto para este ano. Além disso, as siglas recebem anualmente o Fundo Partidário, usado para a manutenção das atividades, como estrutura administrativa e funcionamento cotidiano. Em 2025, as transferências bateram recorde, com R$ 1,1 bilhão. Balanços apresentados por partidos ao TSE mostram prejuízo em ano eleitoral Editoria de Arte Diretora-executiva da ONG Transparência Brasil, que monitora os gastos públicos, Juliana Sakai aponta que o problema não está no resultado negativo das contas, mas na ausência de limites claros para os gastos eleitorais. Ela critica os valores altos despendidos para financiar as candidaturas: — O que preocupa é que esses custos vêm aumentando ano a ano, sem um limite claro. Se não houver um teto para isso, permitindo que cada um dos partidos vá conseguindo garantir mais verbas, é algo que não tem fim. Para a cientista política Marcela Machado, professora do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), as regras de divisão do fundo, que privilegiam os partidos com melhor desempenho eleitoral, estão por trás da lógica de dirigentes partidários de pouparem para gastar na ida às urnas. — Em muitos casos, o déficit funciona como uma espécie de investimento, voltado a ampliar bancadas e melhorar o desempenho eleitoral, o que pode garantir mais recursos no futuro — explica. Presidente do Solidariedade, o deputado Paulinho da Força (SP) afirma que partidos seguem uma lógica diferente de empresas, e que os gastos a mais nos anos eleitorais não significam, obrigatoriamente, um desequilíbrio financeiro. — Para que serve o dinheiro do fundo eleitoral? Para fazer campanha. Não é para ficar rico — justifica.
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