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Ciclones Índicos – Parte II
Revista Oeste

Ciclones Índicos – Parte II

Na primeira parte desta matéria , apresentamos a distribuição geográfica dos ciclones tropicais pelo mundo, realizando uma comparação entre as bacias do Atlântico, do Pacífico e do Índico. Também iniciamos um detalhamento maior sobre esses fenômenos no Oceano Índico, demonstrando que, embora possam ocorrer durante todo o período do ano, a regionalização e o adensamento dos casos tornam-se mais particulares conforme a estação sazonal. Durante o verão do Hemisfério Norte, os ciclones do Índico concentram-se na área do corredor ao Norte da Austrália, mas principalmente em sua região marítima Nordeste, defronte às áreas de Bangladesh e Mianmar, por exemplo. Como vimos, o escoamento de ventos em superfície sobre o Oceano Índico é um dos fatores cruciais para o desenvolvimento e posicionamento dos ciclones. Também observamos que, durante o verão do Hemisfério Norte, os ventos alísios praticamente desaparecem. Contudo, quando passamos para o verão do Hemisfério Sul, eles voltam com intensidade, soprando de Leste e cobrindo todo o oceano na faixa equatorial. Ao Norte da linha do Equador, a circulação predominante sopra de Nordeste para Sudoeste em quase toda a região oceânica por causa, novamente, da circulação secundária de monção, que se apresenta em sua fase inversa (seca ou antimonção). Nessa configuração, o sistema escoa o ar continental mais frio e seco oriundo da região indiana sobre um oceano tropical aquecido. Isso reforça a circulação dos alísios no setor e fomenta uma intensa transferência de massa (vapor) e energia (calor latente e sensível) do mar para o ar. O processo permite a formação de grandes células convectivas, que podem ajudar no desenvolvimento de ciclones. Assim, essa circulação praticamente inibe a formação dos ciclones índicos na Região Nordeste do oceano, como descrevemos anteriormente, deixando de atingir os países ali localizados. Já ao Sul da linha do Equador, durante o verão do Hemisfério Sul, os alísios recebem um reforço de Sudeste para Noroeste, da Austrália até a Região Central do Índico, concentrando o escoamento atmosférico de superfície até a costa Leste africana. É nesse período que há a maior contribuição da entrada de umidade no continente africano proveniente do Índico, podendo os ventos alísios alcançar espantosas latitudes distantes dos trópicos, chegando até 30°S. A migração dos ciclones no Índico Sul Este máximo latitudinal geralmente ocorre entre janeiro e fevereiro. Nesse período, começamos a observar a redução — ou quase ausência — dos ciclones tropicais do Índico na área Nordeste do oceano. Os sistemas passam então a surgir em outra localização, entre o Sudeste e o Sudoeste do Índico. A maior concentração ocorre neste último setor entre dezembro e abril, justamente onde estão importantes regiões habitadas da costa Sudeste africana, como Moçambique e Tanzânia, além de ilhas como Madagascar e Comores. Na literatura oceanográfica mais antiga, os ciclones tropicais dessa região marítima eram chamados de ciclones de Mauritius, em referência às ilhas Maurício (ou Maurícias), localizadas também no Sudoeste do Índico, a cerca de 900 km a Leste de Madagascar, em linha reta até o ponto mais próximo. O arquipélago abriga a República de Maurício e é composto de duas ilhas maiores — Maurício e Rodrigues —, além de outras ilhotas. Com apenas 2.040 km² de área total, o país insular preocupa-se bastante com a passagem de ciclones, especialmente por causa da elevação do nível do mar provocada nessas ocasiões, quando os sistemas forçam as águas sobre a costa. Trata-se de um processo natural, sem relação com “aquecimento global”, argumento frequentemente explorado em discursos alarmistas. Todavia, a região costeira do Sudeste da África, incluindo a Ilha de Madagascar e o canal de Moçambique — faixa marítima que separa a ilha do continente em aproximadamente 425 km no trecho mais estreito —, apresenta peculiaridades geográficas capazes de impulsionar o surgimento de ciclones (ciclogênese) ou simplesmente destruí-los (ciclólise). Entre os fatores envolvidos estão o ar seco continental, as águas quentes do verão austral, o relevo abrupto de Madagascar, os gradientes térmicos e o hibridismo entre transformações tropicais e extratropicais. A combinação desses elementos aumenta a complexidade dos casos e dificulta as análises meteorológicas. Diferentemente das ilhas Maurício, Madagascar possui 587.295 km² de área própria — 591.896 km² considerando as ilhotas do arquipélago, cerca de 290 vezes a área das Maurícias — e é a quarta maior ilha do planeta. O território não se destaca apenas pelo enorme contraste entre a massa continental e os mares adjacentes, mas também por seu relevo acentuado, que provoca significativas interferências na interação entre atmosfera e oceano. Essas características tornam Madagascar um dos ambientes mais fascinantes para o estudo da meteorologia tropical. No corredor das tempestades Madagascar tem uma largura máxima de aproximadamente 570 km e 1.000 km de comprimento. A ilha pode ser dividida em três zonas praticamente longitudinais, na direção Norte-Sul, fatiando o relevo de forma bem nítida. Do lado Leste, temos uma estreita faixa linear do litoral defronte ao oceano Índico, comportando uma floresta tropical, pois recebe toda a umidade do oceano pela circulação de ventos de Leste. Indo em sentido ao Oeste, a topografia sobe abruptamente para o planalto central, cuja área cobre cerca de 60% do país, com altitudes entre 800 metros e 1.400 metros, mas também apresentando elevações montanhosas bem acima disso. Nessa região central de formações vulcânicas (Terras Altas) é que se encontra a capital, Antananarivo, além de lagos. Saindo da região alta central e descendo para o Oeste, o relevo é marcado por uma descida mais suave, determinando planícies largas, com clima mais seco, pois a maior carga de umidade proveniente da circulação de ventos principal fica retida no setor Leste da ilha, a barlavento da região escarpada íngreme. Ao Norte, área plenamente montanhosa, úmida e florestal, localiza-se o ponto mais alto da ilha, o pico Maromokotro, com 2.876 metros de altitude, no maciço Tsaratanana. Já ao Sul, há predomínio de áreas mais baixas, secas e de vegetação espinhosa, demarcando uma situação de clima mais semiárido (Fig.1). Mapa topográfico da região do Sudeste Africano incluindo a ilha de Madagascar e adjacências oceânicas (Fonte: Open Maps, 2026) Todas essas características gerais mostram os predomínios climáticos regionais demarcados pela circulação de grande escala sobre o território, bem como a influência dos quadros meteorológicos e a interferência da topografia sobre eles. Em outras palavras, as condições atmosféricas e oceânicas determinarão a formação de fenômenos de grande escala, mas algumas características regionais de porte, como o acentuado relevo da ilha, poderão causar efeitos secundários aos quadros superiores estabelecidos, tanto acentuando fenômenos quanto amortecendo-os. A geografia que interfere nos ciclones Foi o caso recente verificado entre o fim de janeiro e meados de fevereiro de 2026 na região de Madagascar. O quadro meteorológico inicial, em 27 de janeiro, já demonstrava diversos distúrbios tropicais ocasionados por um sistema frontal bem longo, que originou um ciclone extratropical cujo centro estava muito distante, na área Centro-Sul do Índico (Fig.2). Pouco mais de 24 horas depois, os distúrbios tropicais combinados avolumaram-se, criando uma circulação ciclônica de ventos ao largo da costa Norte de Moçambique, sobre o canal marítimo, ficando totalmente independentes do sistema frontal (Fig.3). A evolução dos distúrbios (setor laranja pontilhado) permitiram formar um centro de baixa pressão atmosférica em superfície de maior proporção (escala sinóptica). Conforme o centro cresce, surgem os efeitos inerciais sobre o sistema, criando o giro ciclônico no sentido horário, para o hemisfério Sul. Cada célula desta pode ser composta por uma ou mais nuvens Cumulonimbus, em 29/01/2026, às 01h00Z (28/01/2026, 22h00P), (Fonte: Eumesat, 2026) Distúrbios tropicais iniciais que fomentaram o surgimento do ciclone Fytia sobre o canal de Moçambique, seguindo o fluxo para a ilha de Madagascar (setor laranja pontilhado), em 27/01/2026, às 23h00Z (20h00 Brasília, ou P), (Fonte: Eumesat, 2026) No mesmo dia, supercélulas de trovoadas organizadas já definiam uma tempestade tropical, ainda mantendo sua posição geográfica sobre o canal, mas criando diversos distúrbios periféricos que já alcançavam a costa Noroeste de Madagascar (Fig.4). A partir dali, o sistema passou horas em fases de transição, tentando estabelecer o “ciclone” índico (com status de furacão), que, como descrevemos anteriormente, apresenta uma morfologia um pouco diferente dos outros sistemas presentes nos demais oceanos, às vezes sendo muito mais alongado, às vezes com secções entre as bandas nebulosas, com nuvens de trovoadas independentes. A maturação do ciclone aumentou conforme ele se desloca em sentido ao Norte da ilha de Madagascar (setor laranja pontilhado), em 29/01/2026, às 22h00Z (19h00P), (Fonte: Eumesat, 2026) Vale lembrar que os ciclones tropicais no Hemisfério Sul apresentam giro no sentido horário ao redor do centro de baixa pressão em superfície, ou o “olho”, quando bem destacado, como foi o raro caso do Furacão Catarina, no Atlântico Sul, em 2004. Esse giro é contrário ao que estamos habituados a ver nos noticiários que fazem referência aos furacões (outros ciclones tropicais) do Atlântico no Hemisfério Norte. O relevo de Madagascar De qualquer forma, mesmo apresentando uma morfologia “esgarçada”, em 30 de janeiro de 2026 o ciclone já havia sido denominado Fytia, com seu centro de baixa pressão em superfície passando a dominar a circulação de ventos em um raio de 1.000 km ao seu redor (Fig.5). Entre outras características, além de um longo tempo de permanência que se estendeu por vários dias, foi possível observar o “olho” do ciclone índico demarcado por um anel perfeito de nuvens Cumulonimbus, que persistiram não somente durante a existência desse ciclone, mas também no seu sucessor, o Gezani. As primeiras bandas de nebulosidade organizada do ciclone Fytia (setor laranja pontilhado). Notemos que a morfologia de um ciclone índico é ligeiramente diferente de outros ciclones tropicais, neste caso, mais alterada ainda pela interferência do relevo da ilha de Madagascar, em 30/01/2026, às 12h00Z (09h00P), (Fonte: Eumesat, 2026) Uma imagem que demonstrou parte dos efeitos secundários pode ser vista no dia 31 de janeiro, às 03h00 local (00Z, em 30 de janeiro, às 21h00 de Brasília, ou 21h00P). Fytia apresentou seu centro rente à costa Noroeste de Madagascar. A circulação de ventos determinou o escoamento superficial no sentido horário ao redor do centro. Assim, pudemos observar duas situações muito interessantes. Ao Norte do fenômeno, o ar mais úmido proveniente do mar foi forçado pela orografia da ilha a subir, formando diversas células de trovoadas por ascensão, muitas delas bem maiores que a própria região central do ciclone. Por outro lado, ao Sul do centro do ciclone, a circulação foi forçada a descer da região elevada das Terras Altas da ilha para a costa, aquecendo-se adiabaticamente. Nesse trecho, a nebulosidade foi mínima, mas, quando passou sobre o mar, o ar seco absorveu umidade, iniciando novos processos convectivos que alimentaram o sistema como um todo por sua retaguarda (Fig.6). Ciclone índico Fytia maturado, atingindo a ilha de Madagascar pela costa do lado do canal (Oeste). Os efeitos do relevo da ilha podem ser observados na estrutura de suas bandas nebulosas. Ao Norte do centro do ciclone (olho observável) o ar mais úmido, proveniente do mar foi forçado a subir a orografia da ilha, formando células de trovoadas até maiores que a área central do ciclone (setas azuis), enquanto que ao Sul do olho, a circulação forçou o ar a descer da região elevada da ilha para a costa, aquecendo-se adiabaticamente, dificultando a formação de nuvens no trecho (setas marrons), em 31/01/2026, às 00h00Z (30/01/2026, 21h00P), (Fonte: Eumesat, 2026) Quando a orografia altera a tempestade Madagascar é um dos poucos lugares na Terra em que o relevo acentuado pode não destruir ciclones tropicais, interferindo na dinâmica das torres convectivas verticais que atuam ao redor do sistema. Atribui-se a isso a formação de processos convectivos secundários forçados, originados pela própria orografia, como descrito anteriormente, e pela proximidade do oceano. Ademais, a largura da ilha está aproximadamente dentro da escala métrica desses sistemas. Isso pode amainar um ciclone, deixando-o desestruturado morfologicamente, como comentamos, mas não o levando ao decaimento completo (Fig.7). Momento em que o ciclone Fytia atravessou a ilha de Madagascar. Embora o relevo tenha desestabilizado o sistema, a pequena largura da ilha pode não ser suficiente para causar o decaimento completo do fenômeno. A circulação ao redor do ciclone permaneceu fomentando distúrbios secundários, como do caso anterior. Note o início de uma supercélula de trovoada na costa Leste da ilha (seta vermelha), em 31/01/2026, às 15h00Z (12h00P), (Fonte: Eumesat, 2026) Notadamente, quando se acompanha toda a trajetória de Fytia, observa-se a máquina termodinâmica do fenômeno aproveitando-se de todos esses efeitos. Em vários momentos, houve a formação de supercélulas de desenvolvimento paralelo, como os Complexos Convectivos de Mesoescala (CCM), dentro das bandas de nebulosidade. Alguns deles desestruturaram o sistema principal e passaram a dominar o ciclone, “assumindo” o controle de um novo centro de baixa pressão em superfície recém-formado (Fig.8). O ciclone Fytia praticamente se extinguiu, mas o efeito inercial de sua circulação permaneceu. Note o estágio maduro da supercélula identificada anteriormente, agora como um Complexo Convectivo de Mesoescala – CCM (seta vermelha). Seu desenvolvimento ocorreu em apenas seis horas e alcançou um tamanho análogo ao centro do ciclone quando ainda estava maduro, em 31/01/2026, às 21h00Z (18h00P), (Fonte: Eumesat, 2026) A orla externa do sistema atingiu a ilha em 29/1/2026, transpôs seu acentuado relevo e abandonou totalmente a área insular em 2/2/2026. Contudo, ainda permaneceu ativo por muitos dias, já na condição de tempestade tropical e, posteriormente, como depressão tropical, ambos estágios gerais de menor intensidade dos ciclones tropicais. A própria intensidade da circulação ainda causou novas evoluções no centro do sistema, como o observado já no dia 2/2/2026, quando uma imensa supercélula emergiu no centro dissipado do fenômeno, análoga ao cogumelo de uma tremenda explosão nuclear (Fig.9). Isso não aconteceu apenas uma vez, mas quatro, até a dissolução total do sistema no Centro-Sul do Índico. Os efeitos da circulação do ciclone Fytia ainda permaneceram por dois dias, embora ele esteja praticamente decaído. Nesta imagem, uma densa supercélula de trovoada evoluiu em poucas horas sobre o oceano como efeito secundário (seta vermelha), em 02/02/2026, às 16h00Z (13h00P), (Fonte: Eumesat, 2026) O nascimento de Fytia Entrementes, durante todo o período, diversos distúrbios tropicais evoluíam e Madagascar seria palco, mais uma vez, de outro ciclone índico. A circulação de decaimento de Fytia causou um fluxo de ar mais frio, oriundo das latitudes ao redor de 45°S, que provocou uma fraca frente fria (anafrente). Isso causou um gradiente térmico, produzindo mais uma série de distúrbios, dos quais alguns, quando aglomerados, originaram outra depressão tropical, candidata a evoluir (Fig.10). Um dos efeitos de Fytia foi provocar mais distúrbios tropicais. Alguns destes aglomeraram-se, formando uma nova depressão tropical, que evoluiu para a formação do segundo ciclone índico a passar por Madagascar seguidamente. Efeitos tropicais e extratropicais foram identificados no processo, apresentando uma formação inicial híbrida (setor laranja pontilhado), em 07/02/2026, às 18h00 (15h00P), (Fonte: Eumesat, 2026) Foi a partir daí que tivemos o estopim para a formação do ciclone Gezani, pois, enquanto Fytia fez um percurso mais raro, de Oeste para Leste, aproveitando-se dos gradientes entre o ar seco proporcionado pela região Sul-Africana e a umidade da água aquecida do canal de Moçambique, o ciclone Gezani seguiu o padrão convencional, nascendo na área oceânica do Índico Sul e seguindo para Oeste enquanto se desenvolvia. Com o passar das horas, do dia 7 ao dia 9 de fevereiro, o distúrbio apresentava duas partes distintas: uma quente, ao Norte do seu centro, e uma fria, ao Sul, observável pela extensa espiral de nuvens muito baixas, registradas em cinza bem escuro nas imagens de satélite (Fig.11). O sistema, já nomeado Gezani no dia 8, tomou sua forma mais robusta como ciclone índico a 700 km da costa de Madagascar, mas suas bandas de nebulosidade baixa já atingiam a ilha às 16h00 local (10h00P) do dia 9/2/2026 (Fig.12). O ciclone índico Gezani avança em sentido à ilha de Madagascar pelo Leste. Suas primeiras bandas de nebulosidade mais baixa já atingiram a ilha, em 09/02/2026, às 13h00Z (10h00P); (Fonte: Eumesat, 2026) Surgimento do novo ciclone índico denominado Gezani que seguiu o escoamento normal de Leste para Oeste, diferentemente do raro deslocamento apresentado por Fytia. Neste momento de seu estágio inicial, pode-se observar um desenvolvimento híbrido, onde ao Norte, Nordeste e Leste, mais afastado do centro do sistema, temos ar mais quente, úmido e maior desenvolvimento de nuvens convectivas (mais altas, mais brancas, setas vermelhas), enquanto que diametralmente oposto, ao Sul, Sudoeste e Oeste, está mais frio e menos úmido, com nuvens estratiformes mais baixas ocupando uma vasta área (mais cinzas, setas azuis), em 08/02/2026, às 17h00 (14h00P), (Fonte: Eumesat, 2026) Os efeitos secundários do relevo Ainda no mar e intensificando-se, Gezani formou a parede de nuvens do “olho” bem antes de alcançar a ilha, na manhã do dia 10/2/2026 (Fig.13), com o núcleo alcançando a costa Leste escarpada às 19h00 local (13h00P) do mesmo dia (Fig.14), enfraquecendo-se drasticamente devido ao relevo. Contudo, mais uma vez, as características geográficas de Madagascar mostraram seus efeitos secundários, pois a circulação ciclônica horária de Gezani forçou novamente um rápido escoamento de Oeste para Leste, partindo do mar do canal de Moçambique, subindo para o planalto e encontrando a orografia da ilha. Observou-se o rápido surgimento de um fenomenal CCM, maior e mais compacto do que o próprio enfraquecido ciclone Gezani, que se deparou com a mesma orografia. Fase madura do ciclone Gezani, com olho bem estruturado por uma parede de nuvens convectivas. A primeira banda espiral de nuvens de grande desenvolvimento vertical atingiram a face escarpada da ilha de Madagascar, em 10/02/2026, às 03h00Z (00h00P), (Fonte: Eumesat, 2026) Momento em que o olho do ciclone Gezani, muito bem estruturado, atingiu a costa Leste da ilha de Madagascar. Os efeitos secundários, oriundos tanto do relevo, quanto das adjacências marítimas começam a surgir. Entre eles, notou-se o desenvolvimento de uma supercélula, procedente da circulação atmosférica periférica do sistema forçar o ar a subir pela orografia da ilha, na face Oeste (seta vermelha), em 10/02/2026, às 16h00Z (13h00P), (Fonte: Eumesat, 2026) A combinação dos dois fenômenos tornou o fim da noite do dia 10 e o início da madrugada do dia 11 um enorme tormento para os moradores (Fig.15). Segundo relatos, os ventos na costa Leste chegaram a 185 km/h (~100 kt), com rajadas de 250 km/h (135 kt), permitindo classificá-lo como “Ciclone Tropical Intenso”, equivalente à categoria 3 na Escala de Ventos de Furacões Saffir-Simpson. Enquanto o ciclone Gezani perdia sua força, quase se extinguindo devido ao seu embate com a face escarpada Leste da orografia principal da ilha (seta marrom), a supercélula formada ao lado oposto do relevo maturou em um CCM tão intenso e perigoso quanto o próprio ciclone, bem no meio da noite, às 23h00 local, ou C (seta vermelha), em 10/02/2026, às 20h00Z (17h00P), (Fonte: Eumesat, 2026) Como era esperado, o acentuado relevo do lado Leste da ilha cobrou o seu preço e o sistema decaiu para tempestade tropical, mas reestruturou-se conforme outras células de trovoadas surgiam dentro do seu raio de ação, aproveitando os mesmos mecanismos de contrastes térmicos e aceleração de processos convectivos por forçamento do escoamento pela orografia. Essa é a dualidade que Madagascar causa nos sistemas que ali passam (Fig.16). Tecnicamente, Gezani alcançou a ilha por volta das 20h00 local do dia 9 e saiu às 09h00 do dia 12. Nesse meio-tempo, diversos distúrbios menores “assumiram” o núcleo de baixa pressão enquanto estavam sobre a ilha. O ciclone índico Gezani tecnicamente estava decaído sobre Madagascar, porém, diversas supercélulas produzidas pelos efeitos secundários que a ilha oferece, maturavam e decaiam, “assumindo” o controle do centro de baixa pressão remanescente do ciclone, agora classificado como uma depressão tropical. Embora o raio de ação seja grande (setor laranja pontilhado), seu centro está disforme, onde no momento, uma supercélula assumiu o controle (nuvem extremamente brilhante, seta vermelha), em 11/02/2026, às 11h00Z (08h00P), (Fonte: Eumesat, 2026) Supercélulas e reorganização atmosférica Gezani não se dissipou, pois, ao voltar para o oceano, agora sobre o canal de Moçambique, mesmo que aos trancos, várias supercélulas de trovoadas surgiram em seu interior disforme, permitindo uma maturação secundária e voltando a se desenvolver na típica morfologia dos ciclones índicos. Mesmo passando por processos de hibridismo, com ventos oriundos do setor Sul, o sistema alcançou novamente força análoga à de um furacão categoria 3. O “olho” já estava formado às 11h00 local (05h00P) do dia 12 e permaneceu assim, com pouca alteração, até atingir a costa Leste de Moçambique, às 08h00 local (02h00P) do dia 13 (Fig.17). Mesmo disforme, as várias supercélulas secundárias em ciclos de vida diferentes mantiveram a base de baixa pressão atmosférica do ciclone Gezani, permitindo um intenso desenvolvimento secundário ao alcançar as águas quentes do canal de Moçambique. O sistema manteve-se no curso de Leste por mais três dias, com nova formação de olho e nuvens convectivas muito desenvolvidas, em 13/02/2026, às 05h00Z (02h00P), (Fonte: Eumesat, 2026) Embora a parte periférica do sistema tenha adentrado a área continental do país africano, as bandas de nebulosidade rapidamente se dissiparam. Contudo, o “olho” manteve-se coeso, verificável por um fino anel de nuvens Cumulonimbus perfeitamente distribuídas, permanecendo assim, à beira da costa, por 24 horas (Fig.18). Após esse período, Gezani começou a migrar para Leste, seguindo o escoamento das latitudes mais altas. O sistema alternava-se entre tempestade tropical e “ciclone”, voltando a afligir o Sul de Madagascar às 15h00 local (09h00P) do dia 15, inicialmente em uma configuração bastante híbrida entre ciclone tropical e extratropical (Fig.19), mas redefinindo-se como tropical algumas horas depois (Fig.20). Sua nebulosidade periférica atingiu o Sul da ilha até as 09h00 local do dia 17. Contudo, seu fim chegou de outra forma, pois, em menos de 24 horas, ele passou por nova metamorfose, tornando-se um ciclone extratropical (CET) de dimensões significativas, migrando para o corredor antártico pela rota Sudeste, não oferecendo mais perigo — mas essa é outra história (Fig.21). Embora a parte periférica do ciclone Gezani tenha adentrado a área continental pela costa Leste de Moçambique, suas bandas de nebulosidade rapidamente se dissiparam. Contudo, pode-se observar que o olho manteve-se bem coeso, indicando que as nuvens Cumulonimbus que formavam o anel estavam muito intensas. O sistema permaneceu à beira da costa do país africano ainda por 24 horas, em 13/02/2026, às 17h00Z (14h00P), (Fonte: Eumesat, 2026) No decorrer do período, o ciclone índico Gezani alcançou latitudes mais altas, onde o escoamento de Oeste é mais predominante. Assim, seguiu para o Leste, com suas bandas de nebulosidade externa passando bem ao Sul da ilha de Madagascar, enquanto o núcleo sobre o oceano alternava-se entre tempestade tropical e ciclone índico, em 15/02/2026, às 12h00Z (09h00P), (Fonte: Eumesat, 2026) Um dos últimos quadros de maior intensidade do ciclone Gezani enquanto seguia para o Leste, passando próximo da costa Sul da ilha de Madagascar, em 15/02/2026, às 17h00Z (14h00P). Poucas horas depois, decairia, tornando-se o precursor de um ciclone extratropical após passar por processo de metamorfose (Fonte: Eumesat, 2026) Mapa pictórico da trajetória e estágios evolutivos do ciclone índico Gezani temporalizados (Fonte: Meteofrance, 2026) A formação de Gezani Estima-se que Fytia tenha causado 14 óbitos e Gezani outros 59, com 15 pessoas desaparecidas no cômputo fechado em 17 de fevereiro de 2026. A maior parte das mortes foi ocasionada pelo desabamento de casas sobre os moradores, quando Gezani já se encontrava como categoria 1. Os estragos nas cidades foram consideráveis, especialmente pelos ventos, que derrubaram árvores e destruíram aproximadamente 25 mil casas. As fortes chuvas precipitadas sobre as regiões mais íngremes da ilha causaram inundações, e 27 mil casas foram atingidas. O principal porto da ilha, Toamasina, na costa Leste, sofreu grande destruição no dia 10 de fevereiro. Infelizmente, no caso de Madagascar, o país recebeu dois ciclones índicos em dez dias. Embora Fytia tenha sido menos severo, a situação calamitosa já estava instaurada por sua passagem pela Região Centro-Norte da ilha. Quando Gezani chegou, cortou o país ao meio novamente. Todos os atributos geográficos da ilha que descrevemos amenizaram a questão da intensidade do segundo fenômeno, porém potencializaram quadros secundários, como a formação de grandes células de trovoadas orográficas, oriundas da circulação atmosférica forçada a subir em direção às elevadas áreas centrais, justamente uma das regiões mais habitadas da ilha. Esta análise, embora extensa, ainda foi relativamente singela. A cada hora observada, o ciclone índico Gezani apresentava novas interações entre atmosfera e oceano, além de desenvolvimentos secundários provocados pelo relevo da ilha e outras particularidades dignas de registro. Para quem deseja se aprofundar no tema, o sistema certamente servirá de base para muitos estudos. Toda a evolução dos dois ciclones índicos está disponível no nosso carrossel de imagens de satélite (Filme01). + Entenda as notícias de Mundo em Oeste O post Ciclones Índicos – Parte II apareceu primeiro em Revista Oeste .

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