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Shakira não veio ao Brasil fazer um show. Ela veio pedir licença | Collector
Shakira não veio ao Brasil fazer um show. Ela veio pedir licença
Jornal de Brasília

Shakira não veio ao Brasil fazer um show. Ela veio pedir licença

Estava aqui no Cosme Velho quando o texto da Michelle Xavier chegou no meu celular. Li de uma vez só. Ela é diretora de Marketing & Growth da ClickBus e assina uma das análises mais afiadas que já passaram pela minha coluna sobre o que Shakira realmente fez no Brasil e não foi só cantar. O que o mercado de marketing pode aprender sobre o caso mais sofisticado de integração cultural já executado por um artista estrangeiro no Brasil Quando o show da cantora colombiana Shakira terminou na praia de Copacabana (RJ), a análise que tomou conta das redações e dos feeds seguiu o caminho mais óbvio de compará-la com Madonna ou Lady Gaga. O público — 2 milhões de pessoas, segundo os organizadores — virou o único assunto, mas, ao focar apenas no volume da plateia, o mercado perdeu a oportunidade de refletir sobre o mais valioso: a arquitetura da estratégia por trás daquele palco. Shakira não executou apenas um show no Brasil; ela entregou uma integração cultural em camadas, construída ao longo de anos. Existe uma diferença fundamental entre localizar uma campanha e criar pertencimento. Integração real acontece quando o público sente que a marca entendeu o que ele protege — e pediu licença antes de entrar. A primeira camada dessa construção foi a língua. Shakira cantou em português com Caetano Veloso, Ivete Sangalo e Maria Bethânia, mas não buscou o próprio catálogo; ela escolheu canções que pertencem à memória afetiva brasileira. Isso não é repertório: é arqueologia cultural. É entender que o brasileiro não quer apenas sua língua protocolar, mas quer ver um símbolo estrangeiro que entenda e respeite o motivo daquela língua importar. A estratégia ganhou precisão na camada da representatividade. O show ratificou o dado de que mulheres chefiam mais de 20 milhões de lares no País — segundo fontes do IBGE — como eixo central da narrativa. Não foi um número solto, mas uma intenção declarada. Vale lembrar que, na semana anterior ao evento, a artista assinou uma coluna no jornal O Globo que abordou exatamente esse tema. Foi um trabalho de relações públicas de altíssima execução que soa orgânico justamente por ter sido construído com cuidado real. Houve ainda o fator reverência. Anitta, Ivete e Bethânia dividiram o palco não como atrações secundárias, mas com um tratamento de admiração visível por parte da anfitriã. Shakira se posicionou como quem sabe que está no território delas — e fez questão de que a multidão na areia percebesse isso. Essa distinção entre convidar e reverenciar é o que separa uma ação genuína de um collab oportunista. O impacto financeiro, estimado em R$ 776 milhões para a economia brasileira — segundo fontes da Secretaria de Turismo do Estado do Rio de Janeiro —, ajuda a dimensionar o evento, superando em R$ 170 milhões o saldo deixado por Lady Gaga em Copacabana. No entanto, o capital simbólico acumulado em uma única noite é o que nenhuma ativação de marca conseguiria comprar. Para o mercado, o caso “Lobacabana” serve como um alerta sobre as marcas globais que chegam ao Brasil apenas com “versões” localizadas de seus rostos e banners. É um erro confundir tradução com pertencimento. Shakira não traduziu, mas estudou o terreno antes de atravessar a fronteira. No fim das contas, quem prestou atenção ao método saiu daquela noite com o melhor case de construção de marca dos últimos tempos.

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