Revista Oeste
Em uma sala da Universidade Estadual do Norte Fluminense, em Campos dos Goytacazes (RJ), o físico Marcelo de Oliveira Souza passou anos calculando trajetórias de asteroides próximos da Terra e de Marte. O trabalho começou manualmente, em 2015, com contas demoradas e sucessivas simulações orbitais. Mais de uma década depois, os cálculos atravessaram fronteiras: o estudo brasileiro sobre uma rota mais rápida para Marte começou a circular em dezenas de países e chamou atenção de veículos científicos internacionais. A pesquisa propõe reduzir drasticamente o tempo de missões tripuladas ao planeta vermelho. Em vez de viagens que podem durar de dois a três anos, como ocorre nos modelos convencionais, o estudo aponta trajetos entre 153 e 226 dias — cerca de sete meses entre ida e volta, incluindo permanência temporária em Marte. O trabalho foi publicado na revista científica Acta Astronautica , ligada à Academia Internacional de Astronáutica, e ganhou destaque na plataforma Science Direct. Segundo o pesquisador, o estudo já apareceu em publicações de aproximadamente 50 países e em mais de 26 idiomas. A repercussão internacional ocorreu porque a proposta tenta atacar um dos principais obstáculos das missões tripuladas a Marte: o tempo excessivo de exposição dos astronautas ao espaço profundo. Viagens longas aumentam os riscos provocados pela radiação cósmica e pelos efeitos da microgravidade sobre o corpo humano. Reduzir a duração da missão é considerado um dos desafios centrais da corrida espacial. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por J3News Jornal e Tv (@j3news.rj) O caminho para Marte O estudo brasileiro parte da análise de trajetórias de asteroides que cruzam regiões próximas da Terra e de Marte. A partir desses dados orbitais, Marcelo de Oliveira Souza identificou o que chama de “corredores geométricos”, caminhos espaciais que poderiam permitir transferências interplanetárias mais rápidas. O uso de inteligência artificial acelerou a pesquisa. Depois de anos realizando cálculos manualmente, o físico passou a utilizar sistemas de IA para simular cenários orbitais e validar combinações matemáticas que seriam praticamente inviáveis de analisar de forma tradicional. O resultado foi a criação de diferentes modelos de viagem. Um dos cenários simulados, por exemplo, prevê uma missão extremamente rápida, de cerca de 34 dias, mas dependente de tecnologias de propulsão muito superiores às disponíveis atualmente. Outro modelo, considerado mais plausível pelo pesquisador, usa recursos próximos da capacidade tecnológica existente hoje. Nesse cenário, seria possível realizar uma missão de ida, permanência em Marte e retorno à Terra em aproximadamente 226 dias. “Fiz a proposta teórica”, explicou o pesquisador em entrevista à CNN Brasil. “Simulei dois modelos, uma com tecnologia que a gente não tem hoje, com velocidade muito mais rápida, e outra mais viável dentro da tecnologia atual.” Os cálculos também indicam uma janela orbital considerada especialmente favorável em 2031. O uso de inteligência artificial acelerou a pesquisa | Foto: Divulgação/ Oeste Quem é o pesquisador brasileiro Souza não integra agências espaciais como a Nasa ou a Agência Espacial Europeia. Ele é graduado em física, doutor em cosmologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e atua como professor na Universidade Estadual do Norte Fluminense. Parte da repercussão internacional destacou justamente o fato de o estudo ter surgido fora dos grandes centros tradicionais da indústria aeroespacial. O trabalho começou a circular em países como China, Índia, Indonésia, Espanha e Argentina. O próprio pesquisador divulgou publicações estrangeiras comentando o estudo, incluindo canais chineses de notícias e veículos asiáticos especializados em ciência. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Marcelo Souza (@astro.marcelo) Além do trabalho acadêmico, Souza também atua há décadas na divulgação científica. Ele fundou o Clube de Astronomia Louis Cruls, que completou 30 anos recentemente. A organização trouxe ao Brasil o astronauta Buzz Aldrin, o segundo homem a pisar na Lua, para sua primeira palestra no país. O pesquisador também se tornou o primeiro brasileiro a receber prêmio da Dark Sky International, entidade voltada à preservação do céu noturno. O reconhecimento veio depois da certificação do Parque Estadual do Desengano, no Rio de Janeiro, como o primeiro Dark Sky Park da América Latina. Atualmente, o físico coordena ainda o projeto “Jovens Astros do Amanhã”, iniciativa apoiada pelo consulado dos Estados Unidos no Rio de Janeiro. + Leia notícias de Cultura em Oeste O post Pesquisador brasileiro cria modelo de viagem rápida a Marte e chama atenção internacional apareceu primeiro em Revista Oeste .
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