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Bienal de Veneza 2026: mais sobre a exposição central e os pavilhões em destaque | Collector
Bienal de Veneza 2026: mais sobre a exposição central e os pavilhões em destaque
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Bienal de Veneza 2026: mais sobre a exposição central e os pavilhões em destaque

Veneza, maio. Artistas, colecionadores e nomes do circuito circulam pelas ruas de pedra. Param para abraçar amigos, acenam para conhecidos. Os cafés estão lotados; as pontes, repletas de gente. Nesta época do ano, a cidade vira ponto de encontro para algumas das principais figuras do universo contemporâneo. Todas em torno da Bienal de Veneza. Entre as mais influentes exposições de arte do mundo, a Bienal de Veneza se consolidou como espaço de linguagens que tensionam formas, narrativas e sistemas de representação. Este ano, no entanto, a disrupção não está apenas nas obras, mas em sua própria estrutura. A decisão de manter integralmente a curadoria da camaronense Koyo Kouoh, que morreu em 2025, desloca a noção de autoria e reafirma a continuidade da curadoria no tempo. Intitulada In Minor Keys, a exposição central reúne 111 artistas, duplas e coletivos e se espalha pelos dois principais polos da mostra: os Giardini (parque histórico que abriga os pavilhões nacionais) e o Arsenale (antigo complexo naval convertido em espaço expositivo), além de ocupar outros pontos da cidade. Em sua 61ª edição, o evento abandona a lógica tradicional de núcleos temáticos e se organiza por “motivos”. Não há categorias engessadas. Noções de santuário, procissão, escola e descanso orientam a experiência. Tributo à afro-americana Beverly Buchanan (1940–2015) e ao senegalês Issa Samb (1945– 2017), artistas que entenderam a arte como algo que vai além da condição de objeto e escapa às formas convencionais de preservação, Santuários aponta para um sentido de presença contínua. Inspirada por coreografias carnavalescas e encontros afroatlânticos, Procissão expressa uma linguagem espacial dinâmica, incorporando o público ao fluxo da mostra. Em Escolas, práticas de aprendizado e troca fora das estruturas institucionais tradicionais aproximam arte de pedagogia e vida cotidiana. Por fim, Descanso traz à tona temas como plantação, assentamento colonial, desastre ambiental e memória geológica, ao mesmo tempo que sugere ao visitante abrir espaço à contemplação e se integrar às obras em vez de consumi-las em sequência. A escolha reverbera também na maneira como a exposição se apresenta espacialmente. Durante o trajeto, surgem áreas de respiro, ambientes imersivos e instalações que pedem permanência. A presença de tecidos, luz filtrada, some elementos naturais reforça a ideia de experiência sensorial ampliada. Ganham espaço ainda práticas que ativam memória, espiritualidade e relação coma terra, conectando artistas de geografias diversas por afinidades pouco prováveis — de Salvador a Dakar, passando por San Juan, Beirute, Paris e Nashville. O prédio da Bienal Andrea Avezzù e Francesco Galli/La Biennale di Venezia/Divulgação As performances colocam o corpo como lugar de conhecimento, memória e ação política. Exemplo disso é a procissão inspirada no projeto Poetry Caravan, viagem realizada por Koyo com nove poetas africanos, em 1999, em um gesto coletivo de criação. A edição 2026 reforça uma tendência recente de menos ênfase na representação clássica e mais projetos que desafiam o sistema. O conceito surge em abordagens que colocam em crise as próprias narrativas identitárias, propondo leituras mais complexas sobre pertencimento, território e circulação de ideias. Em paralelo à exposição principal, os pavilhões seguem como uma das estruturas mais características da Bienal. Com exposições próprias e curadoria independente, mais de 90 países transformam a visita em um passeio por um atlas fragmentado do mundo contemporâneo. Além do brasileiro – este ano com Comigo Ninguém Pode, concebido por Diane Lima em torno das trajetórias de Rosana Paulino e Adriana Varejão –, alguns destaques chamam a atenção. A Alemanha, que tem por hábito investir em projetos de forte carga política e espacial, aborda a arquitetura do poder com os cenários teatrais mobiliados de Henrike Naumann. Do mesmo time, Sung Tieu apresenta murais e instalações nascidos de uma investigação sobre hostilidade, violência e a paranoia presentes em espaços supostamente neutros. Acostumado a dialogar com questões sociais e culturais urgentes, o Reino Unido traz Lubaina Himid para o centro da cena. Pioneira do Movimento de Arte Negra Britânica, a criadora desafia as narrativas eurocêntricas dominantes, explorando temas como raça, memória cultural e identidade com pintura, some instalação escultural. No espaço dinamarquês, Chus Martínez assina a curadoria com a artista multidisciplinar Maja Malou Lyse. A parceria, que reflete tanto a abordagem de Martínez, baseada em cuidado, escuta e diálogo, quanto a prática de Lyse, centrada na relação entre imagem, corpo e poder, reflete como diferentes sistemas de imagem, da ciência à pornografia, moldam visões de futuro. A dupla leva sensualidade à mostra. Revistas Newsletter Outro destaque vem do Equador. À frente de Antimundo, Oscar Santillán mergulha nas relações entre saberes andinos e tecnologias emergentes. No mesmo espaço, artistas e ativistas indígenas do Coletivo Tawna, da Amazônia equatoriana, desenvolvempráticas coletivas que envolvem cinema, fotografia e ações ligadas ao território. A articulação conjunta revela duas abordagens distintas, conectadas pelo conhecimento, a coexistência e os vínculos com o mundo andino-amazônico. Em Untitled 2026 (A Gathering of Notable People), o Catar mistura nomes como os da escritora Sophia Al-Maria, do músico Tarek Atoui, da artista visual Alia Farid e do chef Fadi Kattan. Concebida como uma estrutura semelhante a uma tenda para troca cultural, a obra tem tudo para movimentar a jornada. Longe de oferecer respostas ou tentar organizar o planeta em um discurso único, a Bienal deste ano, que vai até 22 de novembro, cria condições para percebê-lo em camadas, por aproximação, escuta e convivência. Em poucas horas, é possível entrar em contato com diferentes visões de mundo, muitas vezes contraditórias, e construir uma leitura profunda do presente.

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