Jornal O Globo
O grito veio pouco antes da meia-noite. Em disparada pela Estrada Virgolândia, em Jacarepaguá, na Zona Sudoeste do Rio, jovens armados anunciavam a mudança de poder como quem marca território: “Agora é o Comando!”. Os tiros para o alto ultrapassavam os muros das casas enquanto famílias se preparavam para o réveillon de 2026. Desde então, relatos de moradores obtidos pelo GLOBO revelam que bastou pouco mais de um mês para o Comando Vermelho (CV) consolidar sua presença num trecho de aproximadamente 55 mil metros quadrados naquela área, entre a Estrada Santa Maura e a Rua Abadiana, região historicamente dominada pela milícia, próxima à comunidade Asa Branca, controlada há mais tempo pelos traficantes. Febre de estúdios: Barra Olímpica teve mais unidades compactas lançadas do que Centro, Porto e Zona Sul do Rio O preço da imprudência: alto número de acidentes com motos atrasa cirurgias eletivas e afeta estoques de sangue Mais do que uma simples troca de domínio, o que se viu ali, em tempo real, foi o surgimento de uma célula da segunda maior facção do país, que nos últimos anos trava guerras para expandir territórios não só no Rio, mas também em outros estados. Sem barricadas e sem uma estrutura ostensivamente estabelecida, a ocupação avançou de forma improvisada, mas suficiente para alterar a rotina, espalhar uma nova lógica de medo, sufocar o comércio local e levar trabalhadores a abandonar negócios construídos ao longo de décadas. Área dominada pelos criminosos Editoria de Arte — Eu fechei tudo porque fiquei com muito medo. Eles deram muitos tiros para o alto, gritavam. Nunca tinha visto nada parecido com isso aqui. Foi assustador — relata uma moradora. ‘Meninos’ da vizinhança Os homens que percorriam as ruas naquela noite não eram desconhecidos. Segundo relatos de moradores (que pediram para não serem identificados por medo de represálias) e informações da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), muitos cresceram na região. São filhos de vizinhos, jovens que conviveram durante anos com a população do lugar antes de assumirem funções ligadas ao CV. Os nomes de infância foram substituídos por apelidos, e a intimidade virou instrumento de poder. — Ficou pior a partir do fim do ano de 2025. A maioria é adolescente. Eles começaram a andar armados pelas ruas e, depois, a cobrar da gente muito dinheiro para mantermos nossos negócios abertos — disse um comerciante. Os números do próprio 31º BPM (Recreio dos Bandeirantes) ajudam a dimensionar a pressão do crime na região. Só em janeiro deste ano, o quartel apreendeu 22 armas de fogo — o maior volume para o mês desde 2003. Já as apreensões de menores infratores chegaram a 75 no primeiro trimestre, sendo 36 apenas na região do Recreio, aumento superior a 20 ocorrências em relação ao mesmo período de 2025. Em uma das aparições recentes, os criminosos chegaram num Volkswagen Gol vermelho, de onde desembarcaram ao menos sete homens armados. Logo atrás, motocicletas faziam a escolta do grupo. Relatos apontam que o bando já extorquiu dinheiro de ao menos oito estabelecimentos somente nas ruas Pintibu e Abadiana e nas estradas Virgolândia e Santa Maura. Segundo comerciantes, a prática não ocorria da mesma maneira sob o domínio anterior da milícia. No primeiro dia de cobrança, homens armados conhecidos da vizinhança apareceram exigindo dinheiro sem sequer estipular um valor fixo. — Ele falou que tinha que ter o dinheiro e que, se não tivesse, iria fechar a loja. Ficamos com muito medo, nos mostraram a arma. Foi de um dia para o outro, de repente — conta uma comerciante. Uma vendedora decidiu abandonar o ponto onde trabalhava há anos após concluir que seria impossível sustentar o negócio e pagar aos criminosos. Outro comerciante, há décadas na região, também desistiu após sofrer ameaças diárias. Segundo ele, os homens exigiam R$ 200 por dia e chegaram a ameaçar diretamente sua família. Em mais um caso, uma cobrança ultrapassou mil reais de uma única vez. — Eles conhecem todos ali. Sabem onde os comerciantes moram, quem são seus parentes. Cresceram observando a gente — disse uma moradora. A transformação da região atingiu até uma pequena banca improvisada onde uma idosa vendia ervas e miudezas para sobreviver. O ponto, localizado na Estrada Santa Maura com a Rua Pintibu, num logradouro de chão batido diante de um matagal, passou a interessar ao grupo para a instalação de um ponto de venda de drogas. A mulher acabou expulsa do local e perdeu as mercadorias. Fuga pela mata Em 11 de fevereiro deste ano, equipes do 18° BPM (Jacarepaguá) prenderam um homem de 25 anos e apreenderam dois adolescentes. Com eles, foram encontrados um revólver calibre 38, R$ 100, dois celulares e drogas. A ocorrência foi apresentada na 32ª DP (Taquara). Um dos integrantes, que seria conhecido por moradores como Mais Alto, apontado como chefe do grupo, conseguiu fugir pela mata. A DRE também reconhece a atuação de jovens recrutados localmente, e diz que eles atuam sob a proteção do CV: — Esses criminosos que praticam crimes na região são também locais, mas reforçados por traficantes de outras regiões e até de outros estados. A liderança fica homiziada no Complexo da Penha. Eles são atraídos pela narcocultura e pela promessa de dinheiro fácil — afirma o delegado Moysés Santana. Segundo moradores, a área de mata pela qual um dos envolvidos escapou virou rota de fuga e circulação dos criminosos. O trecho conecta a região à Avenida Salvador Allende, uma das principais da Zona Sudoeste do Rio, e passou a ser utilizado em assaltos a pedestres, motoristas e passageiros do BRT. Reforço no policiamento A percepção dos moradores encontra eco em documentos da PM. Uma ordem operacional do 31º BPM obtida pelo GLOBO reconhece aumento de roubos de veículos e assaltos a pedestres na área do batalhão e determina reforço do policiamento justamente em acessos estratégicos da Avenida Salvador Allende. Apesar disso, a PM afirmou, em nota, que “não há registros, confirmações ou evidências operacionais que indiquem expansão territorial de facções criminosas, em especial do Comando Vermelho, nas áreas de Vargem Grande, Vargem Pequena ou Recreio dos Bandeirantes”. A corporação sustenta que “há mais de dois anos não se verifica qualquer avanço territorial dessas organizações” nas regiões e destaca reduções em indicadores como roubo de rua, roubo de veículos e letalidade violenta. Para a socióloga e especialista em segurança pública Carolina Grillo, o que ocorre nesse perímetro se encaixa num modelo que o Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (Geni-UFF) passou a classificar como “território sob influência”: — Muitas vezes, essa influência antecede o controle. É uma forma de colonização do território. Primeiro surgem extorsões, circulação armada intermitente, imposição de ordens. Depois, se isso não é interrompido, o lugar passa efetivamente para o controle do grupo armado. Segundo ela, esse modelo se tornou cada vez mais comum nas áreas de expansão urbana das Zonas Oeste e Sudoeste, especialmente em bairros de “asfalto”, onde a maior parte dos territórios sob influência da milícia está em áreas urbanizadas. — Não são territórios com barricadas, a polícia consegue entrar nesses locais. O que acontece agora é que o CV também passou a atuar dessa forma em determinadas regiões — afirma ela. — Daí a importância de a polícia levar a sério essas denúncias de moradores sobre extorsão e agir enquanto ainda existe possibilidade de patrulhamento e circulação da polícia, antes que se estabeleçam pontos fixos de venda de drogas e homens armados permanentemente controlando o território. Initial plugin text
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