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Estrategistas militares da China tiram lições de guerra entre EUA e Irã e recalculam planos para eventual conflito
Jornal O Globo

Estrategistas militares da China tiram lições de guerra entre EUA e Irã e recalculam planos para eventual conflito

A guerra entre EUA e Irã no Oriente Médio está sendo observada de perto por estrategistas militares da China, que buscam aprender lições úteis no Oriente Médio para um eventual conflito na região do Indo-Pacífico, incluindo um hipotético embate com Washington. Analistas apontam que Pequim segue com atenção o desempenho militar americano e as estratégias de resistência iranianas, captando valiosas informações para seus cálculos estratégicos e mesurando possíveis repercussões em cenários vistos como prioritários, como o controle de Taiwan. Guerra no Oriente Médio: Porta-voz iraniano classifica proposta para o fim da guerra como 'razoável e generosa' após Trump chamá-la de 'inaceitável' Em entrevista: Netanyahu diz que guerra contra Irã não acabou pois ainda há material nuclear no país O governo chinês tem investido bilhões de dólares na modernização de seu arsenal, aumentando o poder de fogo e a tecnologia disponível para o Exército de Libertação Popular. Entre as inovações, há desde drones de baixo custo, capazes de cumprir ataques de "enxame" — tática recorrente desde o início da guerra na Ucrânia, mas também utilizada por Teerã —, até caças de quinta geração, mísseis hipersônicos e bombardeiros furtivos. Apesar disso, o conflito atual tem mostrado na prática que nem mesmo os meios militares mais modernos não garantem a vitória de antemão, com o lado mais fraco tendo capacidade de resistir e infligir danos. Initial plugin text — Vitórias táticas não equivalem a resultados políticos. A pressão militar não se traduziu de forma inequívoca em um acordo político duradouro — afirmou o pesquisador sênior da Fundação para a Defesa das Democracias (FDD), Craig Singleton, em entrevista à rede americana CNN. — Para a China, isso reforça uma lição fundamental: o sucesso no campo de batalha não produz automaticamente o resultado desejado. Prioridades e custos Uma primeira lição ensinada pelo conflito no Oriente Médio, apontaram especialistas, foi sobre o alto custo de estar envolvido em uma guerra de alta intensidade. Mesmo com a destruição provocada no Irã por meio de ataques massivos, os EUA ficaram pressionados pelo alto consumo de munições de bateria antiaérea para evitar a retaliação iraniana — em grande parte lançada com drones e projéteis relativamente baratos. O Comando Central dos EUA precisou deslocar modernas baterias do sistema de defesa THAAD que estavam na Coreia do Sul para garantir a defesa de bases militares de aliados regionais. O descompasso entre a demanda por itens específicos no front e a capacidade de produção e envio já tinha sido evidenciado na Ucrânia. O caso iraniano, porém, revelou que o gargalo não ocorre apenas no caso do enfrentamento de uma potência militar — e que o duelo de custos altera escolhas no campo de batalha. Sistema de defesa aérea THAAD dos EUA Chang W. Lee/The New York Times A Marinha americana, por exemplo, evitou trafegar com navios de guerra pelo Estreito de Ormuz, a fim de mantê-los fora do alcance dos projéteis iranianos. Um afundamento representaria um prejuízo comparativo inestimável. O cenário apresenta também uma segunda dimensão. Embora custoso, manter um sistema de defesa antiaéreo mostrou ser tão importante quanto deter capacidades ofensivas superiores. Fontes chinesas ouvidas pela mídia ocidental afirmam que o investimento em capacidades militares não foi equilibrado em se tratando de questões defensivas. Portos, infraestruturas essenciais e mesmo instalações industriais, disseram as fontes, estariam expostas em caso de um confronto com um adversário de peso como Washington. — Precisamos dedicar esforços significativos para identificar as fragilidades em nossa defesa, a fim de garantir nossa invencibilidade em futuras guerras — disse Fu Qianshao, ex-coronel da Força Aérea da China, à CNN. — Precisamos nos aprofundar para proteger eficazmente nossos principais instalações, aeroportos e portos contra ataques e incursões. Guga Chacra: A 'marmota' das negociações entre Trump e o Irã Adaptabilidade Outro ponto notado pelas autoridades chinesas é a necessidade de adotar táticas flexíveis, adaptáveis ao cotidiano dinâmico do campo de batalha. Entender como uma força militar reage sob fogo inimigo, é algo que os chineses possuem apenas conhecimento teórico, dada a falta de engajamento direto em conflito nas últimas décadas. Pequim viu como as forças americanas reforçaram as defesas após ataques iranianos provocarem baixas entre as tropas estacionadas do outro lado do Golfo Pérsico. Também perceberam como os planejadores não desviaram os planos mais amplos, enquanto alguns recursos valiosos foram destruídos. Além da falta de experiência em campo, alguns analistas apontam que o expurgo promovido pelo líder chinês, Xi Jinping, contra comandantes militares — em uma campanha que o governo trata como uma iniciativa de combate a corrupção — pode afetar a prontidão das tropas, com uma fragilização da hierarquia à sombra de uma perseguição interna. Membros do Exército de Libertação Popular (PLA) durante a parada militar que marca os 80 anos da derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial, em Pequim, China, em 3 de setembro de 2025 Qilai Shen / Bloomberg Entre estreitos A dinâmica que parece chamar mais atenção dos estrategistas chineses é a disputa pelo controle do Estreito de Ormuz — em uma aparente projeção do que seria uma disputa pelo Estreito de Taiwan. As características geográficas das duas rotas são distintas, mas ambas possuem peso geopolítico e para a economia mundial. A China reivindica a ilha como parte de seu território, algo rejeitado por Taipé. Em caso de uma guerra deflagrada, seria Pequim a tentar ocupar o país insular, com um estreito entre ambos a ser superado — com a liderança taiwanesa investindo em estratégias para interpor dificuldades à uma invasão chinesa. China já conduziu exercícios militares ao redor de Taiwan, simulando um possível bloqueio naval COMANDO ORIENTAL DO EXÉRCITO DE LIBERTAÇÃO POPULAR DA CHINA / AFP Na sexta-feira, parlamentares de Taiwan aprovaram um orçamento especial de defesa de US$ 25 bilhões (R$ 122,5 bilhões, no câmbio atual) , superando divisões políticas internas e a pressão chinesa. Grande parte do financiamento deve ser usada para comprar sistemas defensivos americanos, incluindo tecnologia para combater drones e munições de médio alcance. Um grupo bipartidário de senadores americanos pressiona o presidente Donald Trump a avançar com um pacote US$ 14 bilhões em armas para Taiwan, alertando contra a possibilidade do apoio à ilha se tornar uma moeda de troca em negociações econômicas ou diplomáticas mais amplas conduzidas por Trump. Imagem mostra visualização de dados do tráfego marítimo no Golfo Pérsico, Estreito de Ormuz e Golfo de Omã, entre 18 e 20 de abril MARINETRAFFIC.COM/AFP Contudo, a estratégia para Pequim em caso de uma disputa por Taiwan pode não ser uma invasão. Em meio às instabilidades no Oriente Médio, o porto de Kaohsiung, no sul de Taiwan, ficou sem nenhum dos enormes navios-tanque transportando gás natural liquefeito (GNL) do Catar — em uma prévia do que significaria um possível bloqueio chinês. Se Pequim decidisse impedir o fluxo de comercio naval no Estreito de Taiwan, com uma capacidade militar muito superior à do Irã, sufocaria a ilha, que importa cerca de 96% de sua energia e detém uma reserva estratégica capaz de sustentar por apenas 11 dias um corte. — Estamos aprendendo algo com esta guerra —, disse Chen Chung-hsien, vice-diretor-geral da Administração de Energia de Taiwan, em uma entrevista recente, acrescentando que a ilha busca alcançar autossuficiência energética até 2034. — Precisamos da nossa própria energia. (Com Bloomberg e NYT)

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