Jornal O Globo
Assinar três folhas de papel A4 em branco. Deixar três cheques também assinados. Colocar tudo em um envelope, à vista, na mesa da sala. Não esquecer as transferências do carro e da moto. É preciso facilitar a vida da família. Leia também: Ainda uso mochila Veja mais: Por onde anda a civilidade? Bom dia, por favor e obrigado Horas antes, eu tinha deixado um consultório. Estava lá, no laudo da tomografia: “nódulo ovalado, medindo 1,6 cm”. Tomografia. Nódulo. Chegou o dia de descobrir, na prática, o que essas duas palavras juntas significam. “É câncer, doutora?” Ela examina a minha expressão, pensa e responde: provavelmente não, mas precisamos de mais exames. Todo hipocondríaco espera por este dia. Todo ansioso tem um protocolo para o resultado. Sou hipocondríaco e ansioso. De tão antigo, o meu protocolo do fim estava defasado. Foi criado nos anos noventa, quando um médico viu um ponto estranho no meu exame de raios X. Naquela época deixar cheques em branco fazia todo sentido. Como fazer em abril de 2026? Melhor colocar todas as senhas no envelope. Marcar exames pelo plano de saúde é sempre um suplício: as atendentes respondem à minha ansiedade citando Chico Buarque: “não se afobe não, que nada é pra já...”. Teria ao menos três semanas de aflição até saber se o nódulo é benigno ou maligno. Esqueçam a escala 6x1 e a não-monogamia: esta sim é a grande questão da meia-idade. Sigo o manual do homem do século passado: “não conte nada a ninguém, se vire sozinho, em silêncio”. O nosso exemplar está na família há muito, muito tempo. Tempos modernos: O ghosting pode ser uma bênção O segredo dura cinco minutos na frente da minha mãe: ela adivinha na hora. Acho que as mulheres fazem curso de telepatia na gravidez. Ela também examina a minha expressão, pensa e responde que provavelmente não é nada grave. Deve estar mancomunada com a médica, concluo. Para ocupar a cabeça, continuo com os protocolos do fim: devolver os livros emprestados. Pedir uma pizza giga de calabresa e comer tudo sozinho. Preencher o Imposto de Renda do ano, deixar os boletos pagos, separar uma verba para o funeral. Almoçar sorvete de chocolate belga. Faltar ao treino sem nem procurar uma desculpa. Dizer umas verdades para algumas pessoas. Pedir desculpas para muitas outras. Jantar uma caixa de bombons, comer bacon de sobremesa. No dia seguinte, Chicabon no café da manhã. Acho que vou precisar de um caixão XXXL, penso. Se for cremado, vai faltar gás na cidade. O humor é uma doença incurável, constato. Guerra por aqui, guerra acolá: Com a nossa polícia, não haveria guerra no Oriente Médio Tento posar de inteligente para o meu filho. Começo a usar umas frases de efeito, faço citações eruditas, olho para o horizonte com ar profundo. Quem sabe assim ele vai lembrar do pai como um sábio? Ele estranha a ausência das bobagens e das piadas toscas. Pai, está tudo bem com você? Consulto outra vez o manual e respondo que sim, claro, é só um problema no trabalho. São três longas semanas. A médica olha a minha expressão fúnebre e acha graça. É benigno, avisa. Penso até em comemorar, mas agora tenho que correr várias maratonas para queimar os sorvetes, as pizzas e o bacon destas três semanas. Talvez seja melhor abandonar o manual, aposentar os protocolos. Taí algo sábio para passar ao meu filho. Conto — finalmente —o que me aconteceu. Ele ouve com atenção e, do nada, com brilho nos olhos, me pergunta se os bancos ainda aceitam cheques. Peraí: cadê o envelope? Initial plugin text
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