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O novo luxo não é novo | Collector
O novo luxo não é novo
Vogue Brasil

O novo luxo não é novo

Durante anos, o luxo na moda foi construído sobre a ideia de exclusividade. O acesso restrito, os materiais raros, os desfiles monumentais e a lógica do desejo constante criaram uma indústria baseada na novidade permanente. O luxo era aquilo que poucos podiam comprar — e que rapidamente precisava ser substituído pelo próximo objeto de desejo. Mas algo mudou. No centro das conversas do último Global Fashion Summit, em Copenhague, do qual participei, a palavra que mais apareceu não foi inovação, tampouco tecnologia. Foi permanência. Saiba mais Em um momento em que o consumidor começa a questionar excesso, desperdício e obsolescência, o verdadeiro símbolo de status talvez não seja mais possuir algo novo, mas possuir algo que sobreviva ao tempo. Um objeto capaz de atravessar décadas, acumular histórias, ser restaurado, revendido, herdado e desejado novamente. O novo luxo deixa de ser sobre substituição. Passa a ser sobre continuidade. Essa transformação altera profundamente a lógica da moda contemporânea. O valor não está apenas no produto, mas em sua capacidade de permanecer relevante — estética, cultural e materialmente. “Luxury is what you can repair.” A frase, repetida em diferentes painéis do summit, sintetiza uma mudança importante no imaginário do setor. O luxo contemporâneo começa a migrar da ideia de consumo aspiracional para a ideia de patrimônio cultural. Entre os exemplos mais emblemáticos dessa nova direção está a Mulberry, uma das poucas marcas de luxo certificadas como B Corp. Durante sua participação no evento, o CEO Andrea Baldo explicou como sustentabilidade deixou de ser um departamento isolado para se tornar parte central do modelo de negócios da empresa. Mais do que discurso, a Mulberry transformou circularidade em operação concreta através de programas de buy-back e re-commerce; venda de produtos pre-loved; serviços permanentes de reparo nas lojas próprias; rastreabilidade da cadeia produtiva e investimento em couro regenerativo. Nesse contexto, a origem do material passa a importar tanto quanto o design final. Revistas Newsletter A próxima grande disputa do luxo talvez não aconteça apenas no território da estética, mas da procedência. Em um mercado saturado por excesso, saber de onde vem uma fibra, quem produziu um couro ou quais comunidades existem por trás de uma peça começa a redefinir valor cultural. O conceito de “pre-loved” — antes associado somente ao mercado de segunda mão — também ganha novo status simbólico. Hoje, revenda, aluguel e restauração deixaram de ser apenas alternativas sustentáveis. Tornaram-se sinais de sofisticação cultural. A Sotheby’s, principal casa de leilões do mundo, já trata bolsas de luxo como ativos comparáveis a obras de arte. Craftsmanship, provenance, raridade e significado cultural passaram a ser critérios centrais de valuation. A venda da primeira Birkin da Hermès pertencente a Jane Birkin por aproximadamente US$ 10 milhões simboliza essa virada. O objeto não vale apenas pelo couro ou pela marca. Vale pela história acumulada. Na nova lógica do luxo, tempo deixa de depreciar valor — e passa a ampliá-lo. A Reformation é outra empresa que tenta reorganizar essa equação. Seu “Circularity Report” propõe uma redefinição interessante do que significa luxo contemporâneo. O conceito de “Happy Endings”, talvez o mais interessante dentro da estratégia da empresa, sugere que a relação entre consumidor e roupa não termina na venda. A peça continua circulando dentro do ecossistema da marca através de reparos, recompra e revenda. A roupa deixa de ter “fim de vida”. O valor não está mais apenas na aquisição — mas na permanência. Essa ideia de circularidade aparece também em marcas voltadas para esportes e atividades outdoor de alta performance, como a Arc'teryx. Por meio do programa ReBird, a empresa incentiva o reparo, o trade-in e o reaproveitamento de peças como jaquetas impermeáveis, mochilas e roupas técnicas, prolongando a vida útil dos produtos e reduzindo o desperdício. Cresce também a percepção de que o maior problema da moda talvez não seja reciclar menos — mas produzir em excesso. E isso exige uma transformação estrutural, ou melhor, cultural. Na minha visão, esse é um dos maiores desafios da moda atual: transformar sustentabilidade em cultura aspiracional e não apenas em obrigação moral. Nesse cenário, poucos exemplos parecem tão coerentes quanto Brunello Cucinelli. A marca italiana construiu sua filosofia em torno do conceito de “Humanistic Capitalism”, um modelo que prioriza dignidade humana, crescimento sustentável e visão de longo prazo. Em Solomeo, o vilarejo medieval restaurado pela família na Úmbria, a ideia de luxo ganha uma dimensão quase filosófica. A marca investe não apenas em produtos, mas na preservação de um ecossistema humano e cultural: restaura construções históricas, financia escolas de artesanato, protege técnicas tradicionais italianas e cria uma cultura corporativa que valoriza tempo, dignidade e equilíbrio entre vida pessoal e trabalho. Além disso, mantém serviços permanentes de reparo e restauração de peças, independentemente da idade da roupa — uma maneira silenciosa de afirmar que qualidade verdadeira deve atravessar gerações. Mais do que sustentabilidade ambiental, Cucinelli fala sobre “human sustainability”. A discussão deixa de ser apenas sobre carbono ou impacto climático e passa a incluir algo mais profundo: a preservação das pessoas, do conhecimento e das relações que sustentam a cadeia da moda. Afinal, sem artesãos, sem transmissão de saber manual e sem comunidades economicamente viáveis ao longo da cadeia produtiva, não existe indústria regenerativa possível. O luxo sempre soube criar desejo. Mas, talvez, pela primeira vez, esteja aprendendo a criar permanência. Em vez da obsessão pelo novo, cresce o fascínio por peças que carregam tempo, memória e continuidade — roupas que podem ser reparadas, herdadas, restauradas e ainda assim continuar relevantes décadas depois. Porque, no fim, as marcas mais importantes talvez não sejam as que venderam mais — mas as que conseguiram permanecer com significado. Em uma indústria construída sobre velocidade e substituição, o novo luxo começa a surgir justamente daquilo que resiste — ideia que atravessou o Global Fashion Summit deste ano sob um conceito central: Building Resilience Futures. E como Rita Lee bem escreveu, antes de qualquer relatório de tendências tentar definir o futuro do luxo: “Não quero luxo, nem lixo, meu sonho é ser imortal, meu amor.”

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