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Guerra no Irã projeta sombras na relação entre China e EUA e dá vantagem a Xi Jinping durante encontro com Trump | Collector
Guerra no Irã projeta sombras na relação entre China e EUA e dá vantagem a Xi Jinping durante encontro com Trump
Jornal O Globo

Guerra no Irã projeta sombras na relação entre China e EUA e dá vantagem a Xi Jinping durante encontro com Trump

Na primeira visita presidencial americana à China em nove anos, Donald Trump tem prioridades bem diferentes das que constavam no seu plano original. O impasse na guerra contra o Irã criou sombras sobre uma agenda que parecia dominada por disputas econômicas e tecnológicas quando a viagem começou a ser planejada, no fim do ano passado. Agora, as dificuldades para encerrar o conflito sem uma imagem de derrota tem desviado a atenção do presidente americano, o que dá uma vantagem para a China. Análise: Trump chega a China, que vê cada vez mais os Estados Unidos como um império em declínio Comércio, Irã, IA e Taiwan: Em visita à China, Trump leva pautas espinhosas para discussões com Xi Em outubro, na última vez que Trump se reuniu com o presidente chinês, Xi Jinping, foi estabelecida uma trégua na guerra comercial iniciada pelo tarifaço disparado pela Casa Branca. Naquele encontro, na Coreia do Sul, o presidente americano saiu cantando vitória, mas ficou a sensação de que foi a China que saiu ganhando, após usar uma de suas cartadas mais poderosas, a ameaça de restringir a exportação de minerais críticos. A guerra no Irã entregou de bandeja a Pequim mais um trunfo estratégico. O governo americano espera que os chineses usem a boa relação que mantêm com o Irã para pressionar a República Islâmica a evitar o bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde passa um quinto do suprimento mundial de petróleo. Trump chegou a Pequim na noite desta quarta (manhã no horário brasileiro) tentando dar a impressão de que o foco principal da viagem é econômico. A seu convite, fazem parte da visita 17 presidentes de empresas americanas. A lista inclui pesos-pesados como Elon Musk, da Tesla, Jensen Huang, da Nvidia, e Tim Cook, da Apple. No embarque para a China, Trump tentou minimizar o tamanho do Irã na viagem, afirmando que não precisa da ajuda de Xi. Mas há sinais de sobra de que o assunto estará no topo da agenda americana. Na véspera da viagem, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, disse que, ao comprar 90% do petróleo produzido pelo Irã, a China está financiando “o maior patrocinador de terrorismo de Estado” e exortou o país a ajudar a manter o estreito aberto. Musk acompanha Trump de perto durante desembarque do presidente americano em Pequim Brendan Smialowski/AFP Guga Chacra: Como o Irã impacta o encontro entre Trump e Xi Para analistas chineses, a influência de Pequim sobre Teerã é menor do que se pensa no Ocidente. De todo modo, poucos acreditam que o governo chinês faria algum dos gestos desejados por Washington, como reduzir a compra de petróleo, cortar o fornecimento de equipamentos que servem para fins militares ou participar de uma força naval para manter aberto o Estreito de Ormuz. Para o coronel da reserva Zhou Bo, um dos mais conhecidos analistas militares da China, é mais realista esperar que Pequim assuma o papel de facilitador, como canal diplomático confiável entre americanos e iranianos. — Acho que depois da visita de Trump a China passará a ter um papel mais ativo na mediação — prevê Zhou. Sob sanção de Pequim: Secretário de Estado americano visita a China pela primeira vez graças a artifício linguístico; entenda Enquanto o impasse na guerra do Irã tem projetado uma imagem fracassada de Trump nos EUA e em muitos países, na China há alguma hesitação em considerar que ele chega enfraquecido para o encontro com Xi. Afinal, os EUA ainda têm muitas cartas fortes na negociação, como tecnologia de ponta, semicondutores e seu poder financeiro, diz Xie Tao, professor da Universidade de Estudos Estrangeiros de Pequim. Ainda assim, é difícil negar que o desgaste americano na guerra traz vantagens para a China na disputa bilateral. Primeiro, fortalece a credibilidade de Pequim, diz Hua Han, cofundadora do centro de estudos Beijing Club. Tem também o aspecto militar. Por um lado, os ataques no Irã demonstraram uma capacidade bélica dos EUA cuja potência e sofisticação nenhum outro país tem. Mas a guerra também cria o risco de que o esgotamento de recursos militares enfraqueça a posição americana na Ásia, deixando mais espaço na região para a China. Ficaram expostas várias vulnerabilidades americanas, diz Hua, como estoques de munições no limite, custos fiscais em alta, divisões em Washington e pressão crescente sobre os compromissos militares globais dos EUA. — Informes sugerem que o conflito consumiu uma quantidade significativa de mísseis e interceptadores de defesa aérea, o que levanta questões sobre a prontidão dos EUA para uma outra grande contingência na Ásia. Initial plugin text Um dos pontos mais sensíveis para a China na relação bilateral é a venda de armas dos EUA para Taiwan, a ilha governada de forma autônoma com o apoio de Washington, e que Pequim considera parte de seu território. Antes de embarcar, Trump deixou no ar se atenderá ao apelo de Xi para suspender as vendas, dizendo que o assunto estará na mesa. A própria admissão de que o tema pode ser parte da negociação sugere uma mudança de tom. A tradicional posição dos EUA, conhecida como “ambiguidade estratégica”, é de manter viva a possibilidade de defender Taiwan em caso de ataque. Para a China, o que vale é que os EUA parem de armar Taiwan, palavras importam menos, segundo Zhou Bo. Pode ser. Mas uma eventual promessa de Trump de não apoiar a independência da ilha teria um enorme peso para a China, para turbinar o nacionalismo doméstico e a legitimidade do Partido Comunista. Mesmo que em Pequim haja uma compreensão, depois das reviravoltas em Washington na última década, de que tudo pode mudar na próxima eleição presidencial americana. Apesar da sombra das diferenças geopolíticas, ninguém esquece que os temas econômicos e tecnológicos estão no coração da competição entre os países. Provas disso são a presença dos CEOs de grandes empresas de tecnologia americanas e as negociações conduzidas até o último momento por Scott Bessent na Coreia do Sul com o vice-premiê chinês, He Lifeng. A China quer uma extensão da trégua na guerra comercial e a flexibilização das restrições dos EUA à venda de semicondutores. Viagem à China: participação de Musk na comitiva de Trump indica reaproximação com a Casa Branca após ruptura Para os americanos, uma das prioridades é garantir que os chineses não cumpram a ameaça de retomar o controle de exportações de minerais críticos, essenciais para tecnologias de ponta, civis e militares. No melhor estilo de uma tradição diplomática pautada pela cautela, no lado chinês, a expectativa de resultados significativos é cercada de reservas. A China encara a visita de Trump “não como um momento de virada, mas como a oportunidade de estabilizar uma relação frágil e garantir espaço de manobra”, diz Hua Han. Estabilidade é a palavra mais repetida nas análises chinesas sobre a meta principal do país na visita. Se possível, estabelecer mecanismos de diálogo permanente, que sirvam como um amortecedor para eventuais solavancos na relação, diz Da Wei, diretor do Centro para Segurança e Estratégia Nacional, em Pequim. Algo nessa linha também está nos planos do governo americano, que ventila a ideia de criar um Conselho de Comércio para facilitar o fluxo de bens entre os dois países. No lado comercial, as prioridades de Trump são fechar um acordo de venda de aviões da Boeing — cujo CEO, Robert Ortberg, veio na comitiva presidencial e expandir as exportações de soja, o que teria impacto negativo para o Brasil, atualmente o principal fornecedor do grão para a China. Soja é o único produto em que há uma competição direta entre o Brasil e os EUA, diz o economista americano Fred Gale, autor do blog Dim Sums, que é uma referência no setor do agro chinês. Qualquer movimento terá repercussão para o Brasil, acrescenta. É natural, já que 70% da soja importada pela China é do Brasil. — Até agora as exportações de soja do Brasil para a China estão no mesmo ritmo do ano passado. É difícil imaginar como as compras de soja americana poderiam aumentar sem reduzir as do Brasil — diz Gale. Negociações à parte, o lado simbólico numa visita desse porte tem especial relevância, em cada detalhe. A pauta de temas que envolve as duas maiores economias do mundo é extensa demais para caber nas menos de 48 horas em que Trump ficará na capital chinesa. Em 2017, última vez de um presidente americano em Pequim, a Cidade Proibida, antigo palácio imperial, foi fechada para receber Trump. Desta vez o programa prevê na quinta um passeio com Xi no Templo do Céu, um dos marcos da capital chinesa. O simbolismo é de mão dupla. Do lado chinês, o roteiro é um mix de tradição e poder. Localizado num dos mais belos parques de Pequim, o Templo do Céu foi construído no século 15 e serviu às duas últimas dinastias da era imperial, Ming e Qing, para ritualizar o mandato celestial concedido a elas para governar a China. Para Trump, o simbolismo é mais recente: o Templo do Céu era o local favorito do ex-secretário de Estado americano Henry Kissinger, que abriu caminho para o estabelecimento das relações dos EUA com a China. Em sua última visita a Pequim, em 2023, Kissinger já tinha 100 anos e não teve energia para subir as escadas do Templo do Céu. Mas achou tempo para encontrar o então ministro da Defesa da China, Li Shangfu, o mesmo que, na semana passada, foi condenado à morte por corrupção.

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