Jornal O Globo
David Attenborough nasceu em 1926, numa Inglaterra em plena industrialização, quando o mundo natural permanecia em grande medida intocado. Cresceu numa época em que florestas imensas e misteriosas cobriam continentes inteiros, em que os oceanos eram pouco conhecidos e tão cheios de vida que pareciam inesgotáveis, em que o conceito de extinção em massa causada por humanos ainda soava como ficção. Ele chegou ao mundo no momento certo — talvez o último — em que ainda era possível contemplar o planeta em algo próximo de sua plenitude. Sua carreira de documentarista na BBC começou nos anos 1950, e desde então ele dedicou a vida a uma tarefa ao mesmo tempo simples e extraordinária: mostrar à humanidade onde ela mora. Com uma voz que combina reverência e precisão científica, Attenborough levou para as salas de estar do mundo inteiro imagens que a maioria dos seres humanos jamais veria de outra forma — o cortejo de um pássaro-do-paraíso, a interação dos gorilas, a migração dos gnus, o silêncio abissal e multicolorido das profundezas marinhas. Com um efeito comparável à primeira fotografia da Terra feita do espaço, ele nos apresentou a diversidade e magnificência do mundo natural em seus muitos biomas. O paradoxo doloroso de sua vida é que ela coincidiu não só com o esplendor do planeta, mas com o início sistemático de sua degradação. Attenborough viu com os próprios olhos o que poucos seres humanos na história puderam ver: o antes e o depois. Ele filmou recifes de coral que depois branquearam. Observou a redução drástica das florestas tropicais, substituídas por monoculturas. Nos últimos anos, passou a falar abertamente e com senso de urgência sobre o que testemunhou. "Eu tenho mais passado do que futuro", disse certa vez. E é exatamente por isso que sua voz importa tanto. Sua obra recente, como o documentário "A Vida no Nosso Planeta" , deixou de ser apenas contemplativa para se tornar um testamento. Ele reconhece que sua geração foi a que mais extraiu e a que viu a biodiversidade despencar em uma velocidade sem precedentes na história humana. Mas Attenborough nunca cedeu ao desespero como postura definitiva. Aos 100 anos, recebendo inúmeras homenagens no Reino Unido e no mundo, ele continua a afirmar a esperança: a natureza é resiliente, que a recuperação é possível, que a humanidade ainda pode escolher um caminho diferente. Sua palavra tem muito valor pois é a conclusão de alguém que passou décadas observando a vida encontrar saídas onde parecia não haver nenhuma. Sua voz é especialmente importante para muitas de nossas crianças e adolescentes, que olham o futuro com ansiedade e desesperança. É justamente nelas que reside a esperança de Attenborough – mas para isso é necessário que elas acreditem que é possível. Essa é a mensagem desse grande homem.
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