Jornal O Globo
A decisão do ex-governador Romeu Zema (Novo) de subir o tom nos últimos dez dias contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o senador Ciro Nogueira (PP-PI) aumentou o isolamento de seu aliado e sucessor no estado, o governador Mateus Simões (PSD). À medida que a popularidade de Zema sobe nas redes, Simões vê se deteriorarem simultaneamente as pontes com o bolsonarismo e com setores do PP. Segundo interlocutores ouvidos pelo GLOBO, a ofensiva pública de Zema aprofundou o afastamento com o PL e abriu uma nova frente de tensão entre aliados de Simões e a cúpula nacional do PP. O desgaste com o bolsonarismo ganhou velocidade após a crise envolvendo Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro. Integrantes do PL afirmam que o episódio consolidou de vez a decisão do partido de abandonar qualquer tentativa de composição com o grupo de Zema em Minas. Por outro lado, o partido de Flávio reforça os laços da parceria com o Republicanos. A aproximação entre as duas siglas já havia sido celebrada na terça-feira, um dia antes da divulgação de conversas entre Flávio e Vorcaro. Em reunião em Brasília, o filho de Jair Bolsonaro, o senador Rogério Marinho (PL-RN), o presidente estadual do PL, Zé Vitor, e o empresário Flávio Roscoe consolidaram fecharam acordo sobre o projeto conjunto para 2026. Antes do encontro, o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG) também participou de conversas com integrantes da cúpula partidária. Na prática, o PL já havia decidido esfriar as tratativas com Mateus Simões diante da provável candidatura presidencial de Zema. A avaliação predominante era de que não fazia sentido manter uma aliança estadual com um grupo que apoiaria outro presidenciável no primeiro turno. Poucas horas após a publicação da reportagem do Intercept Brasil, Zema decidiu endurecer publicamente o discurso contra Flávio e passou a explorar politicamente o episódio. Em vídeo divulgado nas redes sociais, afirmou ser “imperdoável” ouvir o senador pedindo dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. — É um tapa na cara dos brasileiros de bem. Não adianta nada criticar as práticas de Lula e do PT e fazer as mesmas coisas — afirmou o ex-governador. Nos bastidores do PL, a reação provocou forte irritação no núcleo mais próximo da família Bolsonaro. O ex-deputado Eduardo Bolsonaro e o ex-vereador Carlos Bolsonaro passaram a tratar a postura de Zema como oportunista e reagiram publicamente nas redes sociais. A avaliação dentro do partido é que o ex-governador decidiu aproveitar o desgaste de Flávio para fortalecer seu próprio projeto presidencial — ainda que isso custasse a relação política construída até aqui com Mateus Simões. Aliados de Zema admitem reservadamente que a estratégia agora é explorar o caso politicamente. A avaliação no entorno do ex-governador é que, caso Flávio perca força eleitoral, pode surgir espaço para o mineiro crescer nacionalmente. O próprio Mateus Simões decidiu acompanhar o movimento e reforçou publicamente o apoio ao padrinho político. — Sigo firme na campanha: Zema presidente — afirmou ao GLOBO. Dentro do PL, porém, o resultado foi o aprofundamento da aproximação com Cleitinho. Interlocutores afirmam que a crise enfraqueceu o plano de impulsionar Flávio Roscoe ao governo estadual e fortaleceu ainda mais o senador do Republicanos como nome eleitoralmente mais seguro da direita mineira. O plano inicial era vincular Roscoe a Flávio Bolsonaro, estratégia que não faz sentido se houver o prolongamento do desgaste. Na última pesquisa Quaest, Cleitinho apareceu liderando a disputa estadual com 30% das intenções de voto. Mesmo assim, parte do bolsonarismo ainda resiste a uma aliança completa com o senador. Integrantes do grupo defendem reservadamente que o nome ideal para disputar o governo seria o deputado federal Nikolas Ferreira (PL), embora reconheçam que ele não demonstra disposição para entrar na corrida estadual neste momento. PP ameaça romper Ao mesmo tempo, a postura de Zema também começou a gerar ruídos importantes com o PP de Ciro Nogueira. As críticas do ex-governador ao senador, investigado pela PF sob suspeita de favorecimento ao Banco Master, provocaram desconforto dentro da direção nacional do partido e colocaram em xeque as conversas que vinham sendo mantidas com a equipe de Mateus Simões. Até então, Ciro havia declarado apoio público ao governador mineiro e indicado o secretário licenciado de Governo de Minas, Marcelo Aro (PP), para uma das vagas ao Senado na chapa encabeçada por Simões. O acordo havia sido fechado ainda em agosto do ano passado. Nos bastidores, porém, integrantes do PP afirmam que a relação começou a azedar nos últimos dias. Interlocutores relatam que reuniões previstas para esta semana acabaram canceladas e que Ciro passou a tratar a aliança com Simões como prioridade secundária. O incômodo aumentou porque Simões seguiu defendendo publicamente a candidatura presidencial de Zema justamente no momento em que o ex-governador intensificava ataques a Ciro e ao bolsonarismo.
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