Vogue Brasil
À luz de seus anos de franquia, Kristen Stewart tem feito escolhas bastante interessantes — de uma Princesa Diana que mastiga pérolas a uma personal shopper obcecada com o fantasma do próprio irmão gêmeo. Portanto, em teoria, não deveria surpreender encontrá-la no centro da mais nova comédia negra e surrealista do prolífico cineasta francês Quentin Dupieux: Full Phil, uma montanha-russa de puro absurdo que acaba de estrear no Festival de Cannes. Mas se você achava que seus trabalhos anteriores já eram gloriosamente estranhos, prepare-se: você ainda não viu nada. Tudo começa com uma falsa pista desconcertante — um horror camp em preto e branco no qual uma Emma Mackey aos gritos tenta fugir de uma criatura monstruosa que, imediatamente, a decapita. Mas trata-se apenas de um filme dentro do filme, que nossa heroína, a trinta e poucos anos Madeleine (Stewart), assiste da sua suntuosa suíte em um hotel parisiense. No quarto ao lado está seu irritadiço pai, Phil (Woody Harrelson), beirando os 60 e ansioso para se reconectar com a filha de quem se distanciou — embora, até agora, esteja encontrando bastante dificuldade. Ele os trouxe nessa viagem para passar um tempo de qualidade juntos, mas, explica, também precisa do seu espaço pessoal, que Madeleine já violou ao usar não só seu banheiro, mas entupir seu vaso sanitário. Madeleine, por sua vez, está farta de suas reclamações, preferindo assistir ao filme e devorar todo o cardápio do room service em vez de interagir com ele. A briga dos dois atrai uma preocupada funcionária do hotel, Lucie (Charlotte Le Bon, de The White Lotus), que sugere que Phil talvez tenha um problema com agressividade — comentário que o enfurece ainda mais. Ela insiste em ficar para observá-los, em nome da segurança de Madeleine, e as duas mulheres criam um vínculo. O que se segue é o relato infernal de uma única noite: Phil e Madeleine saem por Paris, uma cidade assolada por distúrbios; jantam num restaurante chique, onde Lucie continua a observá-los aparentemente para proteger Madeleine; e então o trio retorna ao quarto do hotel para uma festa regada a vinho. Durante todo esse tempo, Phil busca uma única coisa: tendo sacrificado muito para criar Madeleine sozinho após a morte da mãe dela quando ela tinha apenas seis anos, ele quer a confirmação de que, apesar do distanciamento mais recente, foi e ainda é um bom pai. E quer saber se ela ainda o ama. O resultado é um coquetel intenso, efervescente e muitas vezes nauseante. Desde o início, os diálogos são intencionalmente exagerados, verborrágicos e artificiais — e os cortes frequentes para o tal filme de horror que Madeleine assiste, que vai se transformando numa versão miniatura de Frankenstein, com o monstro morto e ressuscitado por dois cientistas, são igualmente desconcertantes. Dá para imaginar muitos espectadores desistindo logo de cara, mas quem aguentar Full Phil — especialmente quem tiver estômago para doses generosas de humor bizarro e tortuoso — vai encontrar um verdadeiro presente. A maior atração do filme é Stewart, que passa toda a sua duração — agradavelmente curta, apenas uma hora e dezoito minutos, basicamente um episódio de série — comendo como se não houvesse amanhã. Ela pega um enorme pedaço de quiche e o devora, enfrenta um bife, come tortas inteiras, colhe maionese com as mãos e enfia tudo na boca. Enquanto isso, a barriga de Phil começa a inchar. Mesmo quando ele manda ela parar, ela não para. É um papel que Stewart abraça com prazer total, entregando-se à imaturidade exacerbada de Madeleine — arrotando alto e disparando críticas parentais demolidoras com um sorriso torto. Ela é a combinação perfeita para o desespero frenético de Harrelson, que vai cedendo à frustração raivosa e, eventualmente, ao desespero, enquanto Phil finalmente se confronta com o desapego despreocupado da filha. Há ainda muita comédia nas diversas sequências absurdas: manifestantes furiosos incendeiam o carro dos dois em determinado momento, enquanto o motorista francês simplesmente dá de ombros e diz que não fala inglês, e Madeleine continua a engolir suas guloseimas. Outra cena no quarto do hotel — Phil em colapso, Madeleine em êxtase — me fez desabar de rir. Em meio à loucura, há algum comentário sobre consumismo, ambivalência próspera e a maneira totalmente inconsciente com que certos americanos, e turistas em geral, tratam Paris como se fosse seu playground particular. Mas, no fundo, é Dupieux se divertindo. O desfecho vai dividir opiniões tanto quanto o filme que o precede — mas é difícil resistir a esse pequeno sliver de cinema: econômico, ágil, com elenco reduzido e apenas alguns cenários, e ainda assim capaz de dar um soco certeiro. Claro, o filme dentro do filme talvez seja dispensável, e o conjunto todo é tão sutil quanto levar uma martelada na cabeça (o sobrenome de Phil é, literalmente, "Doom") — mas, da minha parte, eu nunca queria que acabasse. Um filho torto e enjoativo de Emily in Paris e The White Lotus, garantido para proporcionar uma experiência ruidosa e inesquecível no cinema. Revistas Newsletter Canal da Vogue Quer saber as principais novidades sobre moda, beleza, cultura e lifestyle? Siga o novo canal da Vogue no WhatsApp e receba tudo em primeira mão!
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