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Arte brasileira no mundo: como artistas do país conquistam o circuito internacional
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Arte brasileira no mundo: como artistas do país conquistam o circuito internacional

Durante décadas, o Brasil foi associado a um imaginário exótico, que reduzia suas produções a um repertório limitado. Esse enquadramento, porém, vem mudando cada vez mais graças a artistas brasileiros que estão em espaços centrais do circuito internacional e conquistaram reconhecimento pela consistência de suas pesquisas e pela força de suas linguagens. Um dos exemplos mais emblemáticos deste cenário atual é o trabalho de Vivi Rosa. Finalista do 9º Loewe Craft Prize, prêmio em que a marca espanhola reposiciona o artesanato no centro da criação contemporânea, ela parte de uma memória muito concreta. Criada no interior do Paraná, Vivi aprendeu cedo a trabalhar com o que tinha à mão. Em Ressonância, peça que a levou à final do incensado prêmio, mistura vidro, algodão, pigmento e cimento em uma massa formada por materiais descartados. A escultura carrega uma lembrança específica: o som do leite batendo na caneca de alumínio, quando criança acompanhava a mãe na ordenha. “Ressonância surge desse ponto em que experiência íntimas e torna presença concreta no espaço”, diz. Ressonância, de Vivi Rosa Filipe Brandt, Eustáquio Neves, Matthew Avignone, Birgit Kleber / Divulgação Vivi Rosa Filipe Brandt, Eustáquio Neves, Matthew Avignone, Birgit Kleber / Divulgação O fato de seu trabalho não se traduzir por completo no contexto internacional o torna ainda mais valioso. “A arte não existe para fechar sentidos. Quando uma parte permanece aberta, quem encontra a peça pode entrar por caminhos próprios. O que escapa da tradução não reduz o trabalho, ao contrário, amplia sua força e permite que ele continue se renovando a cada encontro.” Para Rosa, referências íntimas, gestos simples e saberes construídos no fazer têm potência para dialogar como mundo quando encontram forma consistente. “Esse reconhecimento confirma que não é preciso abandonar as próprias raízes para chegar longe. É justamente delas que vem a força.” Lucas Arruda Filipe Brandt, Eustáquio Neves, Matthew Avignone, Birgit Kleber / Divulgação O mesmo movimento aparece, em outro formato, no trabalho de Lucas Arruda, primeiro brasileiro a realizar uma exposição individual no Musée d’Orsay, em Paris. Este mês, o paulistano ocupa os salões venezianos da Fondazione Sandretto Re Rebaudengo, dentro da coletiva Don’t Have Hope, Be Hope!. Conhecido por suas pequenas telas, chamadas de Deserto-Modelo, Arruda trabalha a paisagem de forma pouco literal. Untitled (da série Deserto-Modelo), de Lucas Arruda Filipe Brandt, Eustáquio Neves, Matthew Avignone, Birgit Kleber / Divulgação Suas pinturas partem da luz, da memória e da percepção. A linha do horizonte funciona como limite e passagem entre o que é visível e o que é imaginado. “Esse estado de suspensão não é algo que eu busco representar diretamente, mas que se constrói no próprio processo. Sempre tento me aproximar de uma luz, de um lugar, mas isso nunca se resolve completamente”, diz o artista. Segundo ele, existe também essa relação entre céu e terra, o etéreo e o sólido, tentando se equilibrar na pintura, sem que um se imponha ao outro. “No fundo, a paisagem é mais um meio, uma forma de pensar esses momentos de passagem e de imaginar o mundo para além dessas separações.” Abebê com Ofá, de Ayrson Heráclito Filipe Brandt, Eustáquio Neves, Matthew Avignone, Birgit Kleber / Divulgação Formas de lembrar Ayrson Heráclito Filipe Brandt, Eustáquio Neves, Matthew Avignone, Birgit Kleber / Divulgação Na Bienal de Veneza, Ayrson Heráclito e Eustáquio Neves estão entre os nomes da mostra coletiva In Minor Keys, que estrutura a edição deste ano. Ainda que por caminhos distintos, ambos partem da memória para construir suas linguagens. Baiano de Macaúbas, Heráclito participa da mostra pela terceira vez, com obras das séries Juntó e Juntó Oríkì. Em cena desde a década de 1980, trilhou um caminho de valorização das culturas afro-brasileira e africana, utilizando materiais como açúcar, carne de charque e azeite de dendê. “Meu trabalho sempre foi político e antirracista, voltado a desmontar estereótipos construídos pelos países colonizadores que reduzem a cultura africana a algo primitivo e não civilizado”, diz. O reconhecimento começou a ganhar corpo há cerca de 15 anos, com o avanço do pensamento decolonial. Antes disso, em um sistema de arte brasileiro fortemente orientado por referências europeias e americanas, sua produção era frequentemente lida como folclórica. “Como falava de candomblé, de cultura negra, meu trabalho não circulava nos grandes centros”, conta. O olhar de exotismo, que antes despertava interesse antropológico, ficou para trás. Hoje, ele e outros artistas de sua geração são reconhecidos por pensar a arte a partir de referenciais que não passam pelo filtro europeu. Eustáquio Neves Filipe Brandt, Eustáquio Neves, Matthew Avignone, Birgit Kleber / Divulgação Exemplo disso é o trabalho de Eustáquio Neves, que investiga a memória afro-brasileira ao reconstruir histórias muitas vezes não registradas. Desde a década de 1990, o artista mineiro manipula negativos e cópias com processos químicos e intervenções manuais, criando imagens que acumulam camadas e fragmentos. Este ano, estreia na Bienal de Veneza comas séries Arturos, retrato de uma família de Contagem que mantém tradições afro-brasileiras durante a Festa de Nossa Senhora do Rosário, e Cartas ao Mar, que parte da imagem de cartas lançadas ao oceano para revisitar a escravidão no Cais do Valongo e suas marcas no presente. A relação com imagens sobrepostas, conta, vem de uma lembrança de infância. “De quando gritava para as montanhas e ouvia minha voz voltar multiplicada. ”O que muda agora, garante, é tão somente o alcance. “O trabalho leva essa voz para além das fronteiras”, diz Neves. Nova Letra No campo da literatura, quem representa o Brasil este ano é Ana Paula Maia. Saiba mais sobre a escritora Filipe Brandt, Eustáquio Neves, Matthew Avignone, Birgit Kleber / Divulgação Da Baixada Fluminense para os círculos mais influentes da literatura global, a escritora Ana Paula Maia é outro nome nacional que se projeta no exterior sem se afastar de suas origens. Finalista do 10º International Booker Prize de 2026, cujo resultado será anunciado no dia 19, construiu uma obra centrada no que chama de “as bordas do mundo”. Seus livros acompanham personagens que trabalham em espaços invisíveis para parte da sociedade, como lixões, matadouros, cemitérios e prisões. Em Assim na Terra como embaixo da Terra, romance selecionado para a premiação no Reino Unido, a história se passa em uma colônia penal isolada, onde as relações de poder são levadas ao limite. No campo da literatura, quem representa o Brasil este ano é Ana Paula Maia. Saiba mais sobre a escritora Filipe Brandt, Eustáquio Neves, Matthew Avignone, Birgit Kleber / Divulgação Direta e sem excessos, sua escrita constrói narrativas duras e precisas. No circuito internacional, amplia a ideia de literatura brasileira como linguagem universal e reafirma a frase célebre de Leon Tolstói: “Fale da sua aldeia e estará falando do mundo”. “Quando esse imaginário chega a um contexto global, as fronteiras se estreitam. Entendemos que somos afetados da mesma maneira porque compartilhamos a mesma experiência 8 humana”, reflete a escritora carioca.

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