Jornal O Globo
A expressão desolada do senador Sergio Moro (PL-PR) durante o momento em que Flávio Bolsonaro (PL-RJ) confirmava seu encontro com Daniel Vorcaro, nesta quinta (19), viralizou nas redes sociais. Páginas associadas à esquerda compartilharam o vídeo como forma de criticar o ex-juíz, que se aliou ao bolsonarismo em sua pré campanha ao governo do Paraná. Leia mais: 'Flávio é Neymar, Neymar é Flávio': PL surfa em convocação da seleção e associa atleta a Flávio Bolsonaro Entenda: Reunião de Flávio com PL tem cobrança de parlamentares, revelação sobre encontro com Vorcaro e trailer de ‘Dark Horse’ Enquanto outros parlamentares do PL acompanhavam atentos o pronunciamento de Flávio Bolsonaro , Sérgio Moro aparece com um olhar perdido e rosto cabisbaixo. O vídeo foca no rosto do senador justamente no momento em que o pré-candidato a presidente afirma "Eu fui sim ao encontro dele, para pôr um ponto final nessa história", se referindo ao banqueiro Daniel Vorcaro. Initial plugin text Assim, Flávio revelou que voltou a se encontrar pessoalmente com Vorcaro já depois de o banqueiro ter sido preso pela primeira vez, em novembro do ano passado. A fala provocou desconforto em parte da bancada do PL justamente porque parlamentares enxergaram ali uma informação com potencial de gerar novo desgaste. O episódio marcou mais uma reviravolta no discurso de Flávio Bolsonaro sobre Vorcaro. Antes do site The Intercept revelar que o filho de Jair Bolsonaro enviou áudios demonstrando intimidade com o banqueiro e pedindo a liberação de dinheiro para financiamento do filme “Dark Horse", Fávio afirmava que não conhecia o dono do Master pessoalmente. A reunião de parlamentares do PL O pronunciamento de Flávio Bolsonaro aconteceu após uma reunião convocada com parlamentares do PL. O objetivo era convencer aliados de que a crise envolvendo o financiamento do filme “Dark Horse” não atingirá sua pré-campanha presidencial. No encontro, o senador ouviu cobranças reservadas da bancada, revelou que voltou a se reunir com Vorcaro mesmo após o banqueiro ser preso e passar a ser monitorado eletronicamente e exibiu um trailer do filme sobre Jair Bolsonaro, numa tentativa de aliviar o ambiente político dentro do partido. Estiveram presentes o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, o coordenador da pré-campanha, Rogério Marinho (RN), os líderes Sóstenes Cavalcante (RJ) e Carlos Portinho (RJ), além do vice-presidente da Câmara, Altineu Côrtes (RJ), e os senadores Efraim Filho (PB) e Sérgio Moro (PR). Segundo relatos feitos ao GLOBO, Flávio repetiu algumas vezes aos parlamentares que “não há mais nada” além do que já veio à tona sobre sua relação com Vorcaro e procurou transmitir a ideia de que todos os contatos com o empresário ocorreram exclusivamente em torno da tentativa de viabilizar financeiramente o longa sobre o ex-presidente. A reunião reuniu cerca de 70 deputados e senadores e ocorreu depois de dias de irritação no PL com a condução política da crise, marcada por versões desencontradas, respostas improvisadas e medo de novos vazamentos. Segundo parlamentares, parte dos presentes queria entender justamente se Flávio já havia contado tudo o que sabia sobre o caso ou se o partido ainda corre risco de ser surpreendido por novas revelações. Flávio também tentou sustentar aos parlamentares a tese de que jamais teria deixado registros tão explícitos em mensagens e áudios se acreditasse estar diante de algo ilegal. Segundo interlocutores, o senador argumentou que via a operação apenas como um investimento privado para o filme e afirmou que, se tivesse sido alertado antes sobre a gravidade da situação envolvendo Vorcaro, teria buscado outros investidores para o projeto. Na avaliação de integrantes do PL, essa passou a ser a principal linha de defesa construída pelo entorno bolsonarista: a de que houve erro político e imprudência, mas não consciência de eventual irregularidade. Na reta final da reunião, Flávio tentou mudar o clima da sala com a exibição de um trailer inédito de “Dark Horse”. A prévia começa com imagens da campanha presidencial de Jair Bolsonaro em 2018, fala sobre um suposto plano para “matar a direita” e mostra referências ao atentado sofrido pelo ex-presidente em Juiz de Fora, incluindo imagens ligadas à facada dada por Adélio Bispo. A exibição foi recebida com aplausos por parte da bancada e ajudou a aliviar a tensão da reunião nos minutos finais. Ao deixar a reunião, o senador voltou a afirmar a jornalistas que “qualquer contato” com Vorcaro ocorreu exclusivamente para tratar do filme sobre Jair Bolsonaro. De superministro a 'judas' Nesse ano, a família Bolsonaro decidiu apoiar a candidatura de Sergio Moro ao governo do Paraná, retomando as relações. Por isso, ele se filiou ao PL. A relação pessoal entre a família Bolsonaro e Sergio Moro começou em 2018, quando o então juiz da 13ª Vara Federal de Curitiba, no auge de sua popularidade pela condução da Operação Lava-Jato, que culminou na prisão de Lula, foi convidado para ser o ministro da Justiça de Jair Bolsonaro. O então presidente eleito desejava transformar Moro em um "superministro" e anunciou que ele teria "carta branca" para nomear e conduzir ações de combate ao crime organizado e à corrupção. No entanto, a relação começou a azedar logo no primeiro ano de governo, primeiro por motivos políticos. O principal projeto de Moro era um "pacote anticrime", aprovado no Congresso sem várias das propostas originais, em meio a queixas do ministro sobre falta de empenho do governo. Além disso, a transferência do controle sobre o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), do Ministério da Justiça para o Ministério da Economia, gerou rixas entre o "superministro" e a base aliada de Bolsonaro. Enquanto Moro reclamava da falta de apoio, o núcleo político do Planalto de incomodava com o protagonismo do ex-juiz. Em uma tentativa de amenizar as rugas, Jair Bolsonaro chamou seu ministro de "patrimônio nacional" em uma entrevista nos primeiros meses de gestão. Mas o seu incômodo tornou-se público em meados de 2019, quando ele passou a reclamar da direção da Polícia Federal, e até afirmou que não poderia ser surpreendido com notícias de investigações. O ex-presidente deixava claro sua intenção em controlar o órgão. — Eu dou liberdade para os ministros todos. Mas quem manda sou eu — afirmou Bolsonaro, em agosto de 2019, durante discussões sobre a troca na Superintendência do Rio da PF. Após meses de atritos, Sergio Moro anunciou seu pedido de demissão em abril de 2020, enquanto o Brasil sofria com a crise da pandemia da Covid-19. Segundo o ex-juiz, o principal motivo era a tentativa de Bolsonaro de interferir na Polícia Federal, com pressões por mudanças na corporação e acesso a informações. A exoneração do diretor-geral Maurício Valeixo, indicado por Moro, foi o estopim. Na saída, ele afirmou que precisava “preservar a biografia”. Em entrevistas, criticou suposta omissão no combate à corrupção. — Essa agenda anticorrupção não teve um impulso por parte do presidente da república pra que nós implementássemos — afirmou Moro, em entrevista ao Fantástico pouco após deixar o governo. As acusações motivaram um inquérito do STF, que divulgou o vídeo da famosa reunião ministerial, em que Jair Bolsonaro afirmou que não esperaria prejudicarem sua família ou seus amigos só "porque eu não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha que pertence à estrutura nossa.” No dia em que prestou depoimento à PF sobre suas acusações, já em 2020, Sérgio Moro foi chamado de "judas" por Jair Bolsonaro. — O Moro tem compromisso com o próprio ego e não com o Brasil — afirmou o ex-presidente. Com o conflito deflagrado, Moro passou a ser alvo de bolsonaristas, que o acusavam de traição. No final de 2021, o ex-ministro anunciou sua pré-candidatura a presidência - o que acabou não se concretizando - e voltou a receber ofensas do então presidente, que chamou o antigo aliado até de "idiota”. A trégua veio na reta final da campanha eleitoral de 2022, quando Sergio Moro declarou apoio a Bolsonaro e compareceu ao debate da Band, no segundo turno, como um dos "assessores" do então presidente. — Apaga-se o passado, qualquer divergência que por ventura tenha ocorrido. O Sergio Moro foi uma pessoa que realmente mostrou o que era corrupção no Brasil — afirmou Bolsonaro, no dia 4 de outubro de 2022, sobre a reaproximação. Com a derrota de Bolsonaro, os dois voltaram a se distanciar, mas mantiveram uma relação amistosa. Eleito senador, Sergio Moro passou a ser uma das vozes mais firmes da oposição a Lula. Ano passado, quando o STF condenou o ex-presidente a 27 anos de prisão por tentativa de golpe, Moro criticou e disse que as "penas são excessivas".
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