Jornal O Globo
O ex-auditor fiscal Artur Gomes da Silva Neto, preso desde agosto de 2025 sob a acusação de chefiar um esquema bilionário de corrupção dentro da Secretaria da Fazenda estadual paulista, diz que o Minstério Público paulista chegou a firmar um acordo de delação premiada com ele, em novembro do ano passado, mas depois desistiu e passou a utilizar as informações para realizar novas operações. Em carta enviada ao advogado Julio Cesar Baccalini, que o defende, no fim de abril, Neto relata passar por diversos problemas de saúde, como depressão e ansiedade. – Chamo a atenção para o fato de que as tratativas foram tensas, pois meus advogados me repassavam toda a pressão dos promotores do MP/SP, que não respeitaram a minha condição de saúde debilitada (...) E no meio desse quadro de saúde, e em condições desumanas, é que foram produzidos os anexos (da delação premiada) por mim. Cada anexo tratava de uma empresa e os supostos auditores fiscais – afirma Neto, que citou a assinatura de um termo de confidencialidade que não teria sido cumprido pelo MP. Carta de ex-auditor fisca Artur Gomes da Silva Neto Reprodução Em nota, o promotor Roberto Bodini, um dos membros do MP que negociaram os termos com Artur Neto, diz que os trâmites seguiram a lei. "O Ministério Público conduziu a negociação de boa-fé, com transparência e dentro do regime de sigilo que a lei impõe a esse tipo de procedimento. O acordo não foi celebrado por uma razão objetiva, documentada e que a defesa não pode ignorar: o investigado faltou com a verdade ao longo das tratativas, ocultou fatos criminosos relevantes e se recusou a esclarecer questões essenciais à formalização do pacto", diz Bodini, em nota. Tanto na carta quanto em um pedido de liberdade feito por sua defesa, o ex-auditor diz que produziu 33 anexos de delação, citando empresas e servidores envolvidos. – O estado ficou com os anexos, e o Artur, com a prisão, diz Júlio César De Nigris Boccalini, no processo. O pedido de liberdade para o ex-servidor foi negado. Em outubro de 2025, dois meses depois de ser preso, Artur disse que recebeu os anexos para assinar e os entregou nas mãos de seus antigos defensores. Como contrapartida, ele deveria pagar uma multa de R$ 15 milhões. – Assinei o acordo em uma sexta-feira. Na segunda, fui surpreendido (...) A desembargadora Carla Rahal, do TJSP, indagou a minha defesa se havia tratativas de celebração de acordo em andamento. De forma abrupta, os promotores atravessaram uma petição dizendo que eu não havia cumprido os requisitos para a assinatura – afirma Neto, na carta. Na sequência, o ex-auditor diz que diversos temas de sua delação eram vazados. Carta de ex-auditor fisca Artur Gomes da Silva Neto Reprodução – Ora, eu estava preso. Logicamente não dei nenhuma entrevista a nenhum veículo da imprensa. Como então houve vazamentos de tantos detalhes na mídia? Quem foi o responsável pelos vazamentos de dados sigilosos? – indaga Artur Neto. No mesmo processo, o promotor Bodini afirma que todos os dados obtidos em operações seguintes foram obtidas por meio de quebra de serviço telemático, entre outras medidas autorizadas pela Justiça. Na ocasião, O GLOBO obteve acesso aos documentos da quebra de sigilo de Artur Neto. "Artur, no curso das tratativas, faltou com a verdade, ocultou fatos criminosos relevantes e recusou-se a esclarecer questões essenciais à formalização do pacto — entre as quais: ocultação do recebimento, ao longo do ano de 2025, de pelo menos R$ 152.734.543,97; ocultação de cerca de R$ 30.000.000,00 transferidos da SMART TAX para sua mãe KIMIO sem qualquer justificativa; alegação inverossímil de "doação" de R$ 130.000.000,00 a um "centro espiritual", sem comprovação documental", diz o promotor, no processo. Além das descobertas, Bonidi disse à Justiça que o ex-auditor possuía mais de R$ 100 milhões em bitcoins.
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