Collector
Com Renoir e Rodin: Exposição em museu de Paris busca donos de obras roubadas pelos nazistas | Collector
Com Renoir e Rodin: Exposição em museu de Paris busca donos de obras roubadas pelos nazistas
Jornal O Globo

Com Renoir e Rodin: Exposição em museu de Paris busca donos de obras roubadas pelos nazistas

Uma exposição inaugurada oficialmente neste mês no espaço permanente do Museu d'Orsay, em Paris, apresenta pinturas dos mestres impressionistas Pierre-Auguste Renoir e Edgar Degas, além de uma escultura de Auguste Rodin. Mas o objetivo principal não é permitir que o público as admire: é descobrir quem são seus legítimos proprietários. As 13 obras de arte em exibição estavam entre as 225 peças roubadas ou vendidas sob coação na França durante a Segunda Guerra Mundial e recuperadas da Alemanha e da Áustria ao final da guerra. Por meio século, elas estiveram sob a custódia do museu. A exposição destaca como a França, após ser criticada pela lentidão na devolução de obras de arte saqueadas aos seus proprietários, avançou nesse sentido nos últimos anos. A sala também, segundo Gideon Taylor, presidente da Organização Mundial de Restituição Judaica, “envia uma mensagem forte sobre o compromisso da França”, três anos após o país ter aprovado uma lei que permite a restituição de bens saqueados de famílias judias. David Zivie, chefe de uma força-tarefa governamental que coordena a restituição de bens culturais saqueados durante a guerra, afirmou que a ideia da exposição no Museu d'Orsay era que "em algum momento, uma das obras desta sala será retirada, porque teremos entendido sua origem". Ao final da Segunda Guerra Mundial, cerca de 100 mil objetos de arte foram declarados roubados na França. Com a ajuda de unidades aliadas conhecidas como "Homens dos Monumentos", cerca de 60 mil peças localizadas no exterior foram devolvidas à França, e cerca de 45 mil delas foram reclamadas entre 1945 e 1950. O Estado francês vendeu a maior parte das demais, com exceção de 2.200 peças que foram confiadas a museus nacionais. Desde então, menos de 200 peças foram devolvidas, incluindo 15 que estão no acervo do Museu d'Orsay. Separar obras saqueadas de obras adquiridas legalmente pode ser um desafio, afirmou François Blanchetière, curador responsável pela escultura no museu. O mercado de arte permaneceu ativo durante a guerra sob os regimes nazista e de Vichy, e muitas peças mudaram de mãos legitimamente, explicou. “Cerca de 90% das obras que nos foram confiadas foram adquiridas por cidadãos alemães ou austríacos em circunstâncias não totalmente claras”, disse. Uma das peças em exibição, uma reprodução de Degas de uma obra de outro artista, Adolph Menzel, pertenceu a um colecionador judeu chamado Fernand Ochsé, que foi deportado e assassinado em Auschwitz, segundo o curador. A obra foi doada a uma galeria parisiense por um francês chamado Coutot e vendida a um museu em Karlsruhe, na Alemanha, antes de retornar à França em 1948, acrescentou. “O que não sabemos”, disse Blanchetière, “é como a obra passou do Sr. Ochsé para o Sr. Coutot: foi uma venda forçada?”. Outra obra, uma pintura representando a Mont Sainte-Victoire, uma das paisagens favoritas de Paul Cézanne, foi vendida em 1942 para Hildebrand Gurlitt, um negociante de arte que comprava peças para o Führermuseum planejado por Adolf Hitler na Áustria. Mas, quando foi devolvida à França, as autoridades a retiveram não por suspeitarem de saque, mas sim por suspeitarem de falsificação, disse Blanchetière. Pesquisas mais recentes não encontraram nada que corroborasse essa conclusão, afirmou ele. Initial plugin text A paisagem montanhosa agora está exposta entre dois painéis de vidro, permitindo que os visitantes observem o verso da moldura de madeira e decifrem os selos e adesivos ali presentes, pistas que os pesquisadores utilizaram para determinar a procedência da pintura. Entre os visitantes da semana passada estava Jean Lagnel, de 73 anos, cuja mãe vivenciou a ocupação nazista em primeira mão em uma cidade ao norte de Paris. “Acho maravilhoso que essas obras tenham sido exibidas na esperança de que as famílias das vítimas possam encontrá-las ou reconhecê-las”, disse Lagnel. Durante anos, pouco foi feito na França para acelerar o processo de restituição, até que o interesse pela procedência das obras de arte aumentou na década de 1990. Em 1998, a França estava entre as 44 nações que endossaram os históricos Princípios de Washington sobre a devolução de obras de arte confiscadas pelos nazistas. No ano seguinte, o país criou uma comissão para examinar os pedidos de reparação feitos pelas vítimas das leis antissemitas francesas durante a guerra. Então, em 2019, foi criada uma força-tarefa para coordenar a restituição de bens culturais roubados entre 1933 e 1945. Os museus também retomaram seus esforços. Algumas exposições temporárias exibiram obras não reclamadas do acervo dos Monuments Men, e em 2018 o Louvre adicionou duas pequenas salas à sua coleção permanente com mais de 30 dessas pinturas. Annick Lemoine, presidente do Museu d'Orsay, afirmou que a apresentação lançou luz sobre um episódio violento da história da França. "Por trás de cada pintura, de cada objeto, muitas vezes se escondem histórias de vida fragmentadas, vidas viradas de cabeça para baixo ou até mesmo destruídas", disse ela em um comunicado. A ideia foi colocada em prática por seu antecessor, Sylvain Amic, que tinha grande interesse na restituição de obras de arte saqueadas, fossem elas levadas da França para a Alemanha nazista ou da África para a França durante o período colonial. Antes de sua morte repentina no ano passado, ele liderou o projeto para exibir algumas dessas obras.

Go to News Site