Collector
No novo disco de Paulo Miklos, uma 'playlist afetiva' | Collector
No novo disco de Paulo Miklos, uma 'playlist afetiva'
Jornal O Globo

No novo disco de Paulo Miklos, uma 'playlist afetiva'

Nos Titãs, Paulo Miklos, de 67 anos, era, bem mais do que os outros, o intérprete das canções alheias, o crooner. Por sinal, três dos maiores sucessos do grupo — “Sonífera ilha” (de Ciro Pessoa, Branco Mello, Marcelo Fromer, Toni Bellotto e Carlos Barmack), “Pra dizer adeus” (Nando Reis e Bellotto) e “É preciso saber viver” (Roberto Carlos e Erasmo Carlos) — o são na voz do paulistano. Que agora, enfim, assume a porção cantor-mesmo em “Coisas da vida” (Deck), seu mais novo álbum solo, que baixa com suas 11 faixas no streaming esta sexta-feira. — Fui intérprete e tive o privilégio de ter talvez os maiores compositores da minha geração, só que dentro da minha própria banda. Fui escolhido para cantar muitos dos singles dos Titãs. E “É preciso saber viver”, eu que escolhi, eu que levei para a banda. Ficou marcada essa coisa do crooner, ao ponto de o Rei voltar com a música nos shows (depois que os Titãs fizeram sucesso com ela) — gaba-se Miklos, que ganhou do produtor Rafael Ramos um disco luxuoso, com banda, coros, sopros e cordas arranjadas por Otávio de Moraes (que co-produz o disco com Rafael) — É um negócio, assim, embrulhado para presente! — festeja o cantor. — Me surpreendi com a grandiosidade da coisa, e fiquei bastante orgulhoso, afinal o que eu queria era justamente celebrar essa possibilidade de estar sendo um intérprete. Essa coisa da voz, da emoção do meu timbre, isso que é o meu patrimônio. Por isso, segundo Miklos, veio a ideia “de reunir um grupo de canções que, ao longo do tempo, fazem sentido para mim, e criar esse leque bastante diverso, de canções de épocas diferentes, de estilos diferentes”, trazendo uma seleção sentimental, em que cada canção tem a ver com um pedaço da sua existência. — Desde o começo, eu chamava esse disco de “playlist afetiva”, porque é exatamente disso que se trata. Algumas remetem a antes dos Titãs, quando eu tocava em barzinho, como o “Cachorro babucho”, do Walter Franco. E tem, por exemplo, a primeira música que eu aprendi no violão, “Quero voltar pra Bahia” (de Paulo Diniz) — conta Miklos, que, no meio disso tudo, ainda gravou a sua leitura para a popularíssima “Evidências”, hit de Chitãozinho & Xororó. — Quis levar a esse extremo o desafio como intérprete. Ela é um hino nacional, todo mundo sabe cantar essa música, é inacreditável! Inclusive, nós fizemos o clipe num karaokê. Releitura de As Meninas Já “Xibom Bombom”, axé do grupo baiano As Meninas, pegou Miklos “porque, desse jeito meio brejeiro, ela fala de uma situação catastrófica da sociedade, do abismo social, da falta de possibilidade de você ascender, dessa meritocracia que não bate”. Mas tem outra razão: um dia depois de um encontro com As Meninas no programa “Altas horas”, de Serginho Groisman, o ex-cantor dos Titãs foi internado por causa de uma gastroenterite. — Quando eu acordei, depois que eu fui extubado, voltei cantando o “Xibom Bombom”. A minha filha ficou “ei, o que ele está falando? Ele está balbuciando alguma coisa de sem sentido!” Só dois ou três dias depois, quando passou na televisão, ela viu e falou: “Ué, espera aí, não era essa música que ele estava cantando?” — diverte-se ele. Duas canções de “Coisas da vida” (título de música de Rita Lee, que, é claro, está no disco) falam diretamente de São Paulo: “Saudosa Maloca” (de Adoniran Barbosa, que Miklos viveu no cinema em filme de 2024 que eleva o mesmo título da canção) e “Não existe amor em SP” (de Criolo). — Eu tinha vontade de falar da minha cidade, que é uma encrenca. E gosto demais dessas duas músicas. Pesou muito o fato de eu ter vivido o Adoniran, aprendi a falar um Adonirês fluente — brinca ele. — E a música do Criolo conseguiu tratar da cidade com desesperança. É muito o sentimento do paulistano, de amor e ódio com a cidade. É a sua cidade, você tem teus lugares, você ama aquilo, mas você sofre à beça aqui, porque o trânsito é infernal, porque tudo é complicado. Então, eu achei bom poder falar sobre esses dois ângulos. E a desesperança está também em “O tempo não para”, parceria de Arnaldo Brandão e Cazuza (1958-1990), um dos geniais contemporâneos dos Titãs. — É, essa canção é realmente de uma atualidade assombrosa, com a piscina cheia de ratos e o museu de grandes novidades, quis trazer ela para o meu repertório — conta ele, que pretende montar um novo show para juntar suas músicas antigas às do disco, mas antes pretende fazer sessões de cinema, nas quais vai mostrar os videoclipes que fez para cada faixa, com som em mixagem imersiva Dolby Atmos. E assim a vida segue para Paulo Miklos. Enquanto espera a estreia de sua mais nova empreitada como ator, o filme “Asssalto à brasileira”, de José Eduardo Belmonte, ele vai cuidando da saúde que andou lhe dando rasteiras. — Estou malhando todo dia, fazendo esteira e me preparando para estar bem para os shows. É o meu projeto Ney Matogrosso! — avisa Miklos, que no fim do ano passado viveu um momento delicado na vida pessoal depois que a Justiça de São Paulo determinou medidas protetivas a favor da sua ex-mulher, a diretora audiovisual Renata Galvão, em meio a acusações de ameaças e de invasão de domicílio. — Não posso falar a respeito disso, porque o processo está correndo em sigilo de justiça. Mas está calmo. Acho que essa turbulência do fim de relação é uma coisa muito natural, e acho que demora um tempo mesmo para as coisas se acomodarem e haver um entendimento entre as pessoas. Confio muito nisso.

Go to News Site