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Bruno Tolentino: um homem de carne, um poeta do espírito | Collector
Bruno Tolentino: um homem de carne, um poeta do espírito
Revista Oeste

Bruno Tolentino: um homem de carne, um poeta do espírito

Já passava da meia-noite no bairro de Perdizes, em São Paulo, quando Bruno Tolentino percebeu que não estava com a sua chave de casa. Era 2006, e o poeta, que já tinha dois prêmios Jabuti na prateleira, não estava bem. Soropositivo, lutava contra as fragilidades que o HIV impunha ao corpo. Mas, acima de tudo, estava sem dinheiro. A poesia nunca foi rentável no Brasil. No anos 2000, o escritor recebia cerca de R$ 60 pela venda de livros em um trimestre. Não à toa, Tolentino não morava em casa própria, mas sim, sob a tutela de um sacerdote na paróquia da Pontifícia Universidade Católica (PUC). A perda da chave de casa tinha um peso maior neste cenário: ele não queria acordar o padre Vando Valentini, que o acolhera nos últimos anos. Então a criatividade característica do autor entrou em ação. Ele encontrou a escada do jardineiro da instituição e decidiu entrar na freguesia pela janela do seu quarto, no segundo andar. O poeta carioca, porém, foi parado pelo amigo e estudante Guilherme Malzoni Rabello, então com 22 anos. “Não, não vou deixar você subir essa escala aqui à meia-noite sozinho”, interveio Rabello, que acompanhou Tolentino em uma palestra mais cedo na mesma noite. “Vai que você cai. E aí o que que me acontece?” Rabello então decidiu que ele mesmo subiria a escada, "morrendo de medo", conforme conta à reportagem. O temor principal vinha de uma possível passagem da polícia pelo bairro paulista. O que as autoridades achariam de um jovem 'invadindo' uma paróquia de madrugada? Depois, veio o medo de esbarrar com o padre Vando quando entrasse na paróquia. O que diria a ele? “Mas nada disso aconteceu, enfim, eu simplesmente entrei pela janela, desci e abri a porta por dentro”, diz. Segundo Rabello, essa história é típica de como era conviver com Bruno Tolentino, o poeta que abalou o país em uma entrevista que criticava o status quo da cultura brasileira. + Leia mais notícias de Cultura na Revista Oeste Publicada em 1996 na revista Veja, com o título "Quero o país de volta", a conversa com o escritor trouxe uma leitura provocadora do que acontecia com a nossa pátria. Há 30 anos, afirmava que o Brasil "estava caindo aos pedaços" e que Caetano Veloso já estava virando "tese de professores universitários". Para ele, apenas ídolos como Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade mereciam o reconhecimento da intelligentsia tupiniquim. O alerta divisivo chamou atenção de algumas pessoas no meio universitário. Rabello era um deles, mas outros também acompanhavam Tolentino com a mesma reverência, como a pesquisadora Juliana Perez, o professor Renato Moraes e o filósofo Martim Vasques da Cunha. Mais do que apenas ver valor nas críticas, os três se aproximaram tanto do poeta que, no ano em que morreu, 2007, o escritor apontou-os como herdeiros de sua obra poética, que inclui trabalhos celebrados, como O mundo como ideia e As horas de Katharina . É com o aval deles que, pela primeira vez desde sua morte, Bruno Tolentino terá sua obra completa publicada em um projeto editorial único, mostrando que o autor era muito mais do que suas curiosidades biográficas. Este resgate editorial, capitaneado pela Pessôa Editora, é a tentativa de corrigir uma espécie de injustiça histórica. O projeto assume a missão de entregar o que Tolentino não viu em vida: a integridade de seu pensamento em uma edição de alto padrão, com capa dura e aparato crítico, organizada por Fabrício Tavares de Moraes, doutor em literatura. A ideia é que o foco esteja justamente na poesia. Afinal, ele era mais do que a figura polemista que o consagrou. O autor tinha uma obsessão quase mística em definir sua obra completa ainda em vida, como se quisesse amarrar as pontas de sua existência antes que o corpo cedesse. Ele sabia do valor estético e literário de seus versos que se inspiravam no classicismo da literatura do Ocidente. Rabello explica que essa fixação, que o perseguiu no final da vida, foi o que permitiu que o projeto existisse. Ela também aparece ao abrir as caixas de seu arquivo, hoje sob cuidados do centro de documentação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O fundo com mais de oito metros de papelada, itens curiosos (como as próprias estatuetas do Jabuti) e cartas pessoais é o mais próximo de uma conversa direta com o poeta morto há quase 20 anos. Para Tolentino, deixar muita coisa pelo caminho era uma escolha deliberada. Mas o material inédito que se encontra no interior de São Paulo revela aspectos importante de quem ele realmente era. A noite das bruxas Entre o que foi deixado para trás, a reportagem localizou o que parece ser a "obra perdida" mais visceral do autor: Walpurgisnacht , o nome de uma festividade pagã conhecida como noite das bruxas. O projeto faria parte de um conjunto ainda maior, possivelmente intitulado A Excomunhão . Em folhas amarelas de caderno, a sigla “W” aparece ao lado de dezenas de sonetos. É neste material que o "homem de carne" se revela sem filtros. Longe da solenidade religiosa de As Horas de Katharina , aqui o carioca exercita a indignação e o deboche. Nos manuscritos, ele ataca os "udenistas" e o governo de Juscelino Kubitschek, anotando que o Brasil não era sério, que era um "presente de grego no traseiro" e que a única solução para o cidadão consciente seria "tomar um pileque". O vocabulário transborda em "filhos da p***" e gírias de rua rascunhadas em folhas do período em que viveu no Reino Unido. O material também oferece uma possível resposta ao debate sobre a sexualidade de Tolentino, relatada em versos a respeito de um encontro com outro homem. Essa crueza, que sempre foi alvo de fofocas, convivia com uma fé que nunca o abandonou. Tolentino era católico, um fiel que buscava nos clássicos e na liturgia o contraponto para suas fraquezas. Sua relação com a religião não era de fachada, mas de um combate agônico entre o dogma e o vício no prazer. No arquivo, os rascunhos de poemas crus dividem espaço com reflexões sobre Cristo. Tudo foi escrito no final dos anos 1980 em sua cela em Dartmoor, uma prisão inglesa criada para capturados nas guerras napoleônicas, no século XIX. https://youtu.be/wrGIuT3A5bA?si=STe23J-Yzg5j35Ud O arquivo da Unicamp confirma que Tolentino foi condenado a dez anos no xilindró inglês, pena que recebeu depois de tentar entrar na Grã-Bretanha com uma quantidade de cocaína equivalente ao que hoje seria em torno de R$ 1,3 milhão. “Eu acredito que ele era um traficante de drogas já há algum tempo”, relata Chris Miller, que conviveu com Tolentino em Oxford, em um dos arquivos do centro documental. Outro recorte, de um jornal da época, conta que o brasileiro teria sido alertado por uma vidente que seu esquema daria errado e resultaria em uma “longa sentença”. Seja como for, a prisão marca um renascimento para o poeta. Foi lá, entre 1987 e 1989, que ele apurou a sua escrita e, de fato, se tornou católico. Saiu depois de quase dois anos de pena, e um cartão oficial da penitenciária traz o reconhecimento do oficial de educação, que parabeniza o brasileiro pelo rigor de seus versos. Outro documento, assinado por Humphrey Carpenter (biógrafo de J.R.R. Tolkien e C.S. Lewis), avaliava a obra escrita no cárcere: “Isso está soberbamente escrito e você tem um talento considerável.” Um mitômano genial Separar o verso do mito, porém, exige cautela: o próprio poeta era o arquiteto de suas lendas. Fontes do mercado editorial ouvidas pela reportagem definem o autor como um “mitômano” compulsivo e um “gênio” ao mesmo tempo. Entre as histórias que ele cultivava estava a de sua suposta amizade com Samuel Beckett. Se era verdade ou apenas mais uma camada de sua "performance", pouco importava; para ele, o mito sustentava a estatura de um homem que não aceitava ser menos do que um gênio. Essa aura de "personagem de si mesmo" aproxima Tolentino de outra figura que ele estudou e citou em seus cadernos pessoais: Oscar Wilde. Assim como o autor irlandês, o brasileiro conheceu o abismo de ser um esteta brilhante jogado à lama de uma cela comum. Mas enquanto Wilde escreveu sua Balada do Cárcere (cujo nome também serve para uma obra de Tolentino) para lamentar a ruína, o carioca parecia usar o estigma como combustível para uma ressurreição técnica. Em um de seus rascunhos, o paralelo é direto: ele via na própria queda não um fim, mas a purificação necessária para quem queria falar de Deus sem ser um hipócrita. Tolentino buscava o Cristo que Wilde encontrara no sofrimento, mas com a fúria de quem ainda queria brigar com o mundo. No entanto, os ares de gênio e o temperamento difícil cobraram seu preço: a solidão. Tolentino era um homem de convivência árdua, capaz de maltratar os mais próximos com a mesma precisão com que lapidava um soneto. "Era sempre tudo meio maluco quando se estava com ele", recorda Rabello. Esse isolamento só não foi total porque o autor despertava sentimentos extremos. Quem o amava, amava com uma devoção quase heróica. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Pessôa Editora (@pessoaeditora) É o caso da francesa Martine Pappalardo, figura importante de sua vida. Em um e-mail guardado pela paróquia, Martine surge como o contraponto humano ao ego do poeta. Ela escrevia ao Padre Vando em busca de notícias de um homem que a deixara em um vácuo de silêncio por sete anos, mas a quem ela ainda declarava: "Je n'ai jamais cessé de t'aimer" (Nunca deixei de te amar). Meses antes da morte do poeta, Martine implorava para que ele não partisse da vida, revelando que, por trás do intelectual cáustico que saltava janelas na PUC, havia um homem que deixou rastros de dor e saudade em quem tentou decifrá-lo e até formar uma família. Martine fala na carta do jovem Raphael, o filho que Tolentino mencionou em sua polêmica entrevista de 1996. No papel de revista, ele justificava sua fúria contra o ensino brasileiro citando o jovem: "Não posso educar filho em escola daqui… O menino seria levado a acreditar que [Caetano e Camões] é tudo a mesma coisa". Ele dizia que o cérebro do garoto, nascido em Oxford, não poderia ser ocupado pelo “show business” Contudo, até na paternidade o mito e a carne se confundiam. Segundo Rabello, Raphael não era filho biológico de Tolentino, mas sim “de consideração”. Já Geraldo Dutra de Andrade Neto, primo do poeta, aponta que a família de Tolentino via o menino como “filho biológico”. Seja como for, as informações conflitantes reforçam mais uma vez a dedicação do autor pela mitomania e a construção de um personagem maior do que a vida. A face afetiva não era exclusividade de suas relações com a francesa e a complexa figura de Raphael. Correspondências compartilhadas com a reportagem por Dutra, revelam em Tolentino um neto presente e bem-humorado. Em 1960, Bruno Lúcio, como era chamado na intimidade familiar, escrevia à avó, Honorina Guimarães Tolentino, que, apesar de se sentir "fora do tempo", pensava sempre nela quando estava só entre "quatro paredes". Já em 1965, na Suíça enviava versos satíricos à Honorina, brincando que, enquanto "o milico baixou o cacete" no Brasil, ela seguia "mais firme que as montanhas". Mesmo nos anos finais em São Paulo, o autor nunca esteve desamparado: mantinha um quarto à sua disposição na casa da avó, no Rio de Janeiro, evidenciando que sua estada na paróquia era uma escolha de afinidade espiritual, e não de abandono do lar. O fim do ruído A dualidade de Bruno Tolentino também operava no plano intelectual dentro da paróquia de Perdizes. Enquanto o Padre Vando cuidava das necessidades espirituais do poeta, sua tia Helena agradecia, em uma carta ao próprio pároco, pelo "estímulo e dedicações constantes" que permitiram ao neto recuperar forças para o lançamento do livro O mundo como ideia . Por sua vez, a pesquisadora Juliana Perez enviava cartas sobre o cenário nas universidades. A correspondência entre os dois, preservada na Unicamp, revela uma estratégia curiosa: Juliana até escrevia para o autor em alemão. O uso do idioma de Goethe não era um fetiche acadêmico, mas uma criptografia deliberada. Era uma forma de manter as discussões sobre o ambiente cultural longe dos olhos dos funcionários da paróquia, revelando um ambiente protetivo para o fim do intelectual. Neste mesmo período dividido entre palestras acadêmicas e a convalescência na paróquia, Tolentino recebeu uma carta que talvez seja o melhor resumo de sua existência. “Eu não entendo por que você teve que sofrer tanto”, diz um trecho da correspondência particular. “Mas se Deus o mantém vivo é porque precisa do seu sofrimento para alguma coisa.” O remetente, ao comentar o martírio físico do poeta, fazia um paralelo com a famosa angústia de Carlos Drummond de Andrade, mas com uma nota de esperança que o mineiro raramente alcançava: “Você não está condenado a este epílogo melancólico”, dizia o texto manuscrito. https://www.youtube.com/watch?v=p9igNdtX6ts Meses depois do episódio com a escada, com a saúde em rápido declínio, Bruno Tolentino foi transferido para outra unidade paroquial menos movimentada. Ele foi acolhido por uma comunidade leiga na Rua Angatuba, no bairro paulistano do Pacaembu. "Era uma comunidade católica onde moravam umas 12 mulheres religiosas", conta Rabello. "O fígado já não funcionava direito, ele tinha mau humor, era uma pessoa difícil." No entanto, a companhia das beatas fez com que sua morte fosse mais tranquila. "Foi quase como se ele vivesse no paraíso naqueles últimos seis meses." Depois de ser internado em uma Unidade Intensiva de Tratamento do hospital Emílio Ribas, com falência múltipla dos órgãos e em coma, o poeta morreu em 27 de junho de 2007, deixando de uma vez por todas a carne para trás. A estatura de Tolentino se impõe precisamente porque as polêmicas nunca assentaram de todo — e ainda assim a poesia sobrevive a elas. Ele trouxe de volta à literatura o que o jornalista Arnaldo Jabor chamou de "a peste clássica", rejeitando o modernismo que, para o poeta, havia empobrecido a alma do Brasil. Seu arquivo, vivo, é um testemunho de reconhecimento de figuras maiores de nossa cultura. Lá descansam correspondências de Lygia Fagundes Telles e elogios de Carlos Nejar , todos escritos em papéis timbrados da Academia Brasileira de Letras. A reedição da Pessôa Editora oferece, portanto, a chance de o leitor brasileiro fazer a distinção definitiva: deixar que o mitômano, o traficante e o homem difícil descansem em suas contradições, para que o poeta que uniu a fossa e o altar consiga, enfim, ser lido. Leia também: "Obra inédita de László Krasznahorkai chega ao Brasil" O post Bruno Tolentino: um homem de carne, um poeta do espírito apareceu primeiro em Revista Oeste .

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