Revista Oeste
Enquanto orbitava a Terra a bordo da estação Mir, Sergei Krikalev, engenheiro de voo, vivenciou do espaço uma transformação histórica sem precedentes. O colapso de seu país, a União Soviética, o tornou conhecido como o “último cidadão soviético”. A missão, iniciada em 18 de maio de 1991, deveria durar 5 meses. Contudo, estendeu-se para mais de 10, em razão da instabilidade política em solo soviético. + Leia mais notícias de História em Oeste Krikalev, nascido em 1958 em Leningrado, atual São Petersburgo, ingressou na carreira de cosmonauta depois de concluir os estudos em engenharia mecânica em 1981. A bordo da Soyuz TM-12, ele partiu de Baikonur acompanhado pela britânica Helen Sharman e pelo soviético Anatoly Artsebarsky. Helen retornou à Terra uma semana depois, enquanto Krikalev e Artsebarsky permaneceram para reparar e aprimorar a estação Mir. Crise política e incertezas na estação Mir A Mir foi a primeira estação espacial modular da história, lançada pela União Soviética em 1986 e operada posteriormente pela Rússia | Foto: Nara & Dvids Publics Domain Archive No decorrer da missão, a União Soviética enfrentava uma crise política agravada pelas reformas econômicas conhecidas como Perestroika, propostas por Mikhail Gorbachev. Tais mudanças provocaram resistência e movimentos de independência em diversas repúblicas, os quais culminaram em um golpe fracassado entre 19 e 21 de agosto de 1991. As ações aceleraram o fim do país. Durante esse período de incerteza, Krikalev recebeu a orientação de permanecer na Mir, sem previsão de retorno, pois não havia substituto disponível. O governo russo ainda precisava cumprir a promessa de enviar um cosmonauta do Cazaquistão, recém-independente, à estação. https://www.youtube.com/watch?v=UtAAkU1gCe0&pp=ygUeQkJDIG8gdWx0aW1vIGNpZGFkYW8gc292aWV0aWNv Assim, Krikalev ficou a bordo da Mir com Alexander Volkov, enfrentando dúvidas sobre sua capacidade de suportar a permanência prolongada no espaço. Saúde, isolamento no espaço e o fim da União Soviética A bandeira da União Soviética (URSS) com o monumento do líder comunista Lenin ao fundo | Foto: Alek Seenko/Shutterstock Especialistas estrangeiros demonstraram preocupação com os efeitos do isolamento, da falta de gravidade e da radiação sobre a saúde física e mental de Krikalev. A Nasa alertou para riscos como perda óssea, muscular e possíveis doenças degenerativas. Entretanto, segundo a historiadora Cathleen Lewis, “o governo russo tinha outras prioridades, outras preocupações”, afirmou a um documentário da BBC sobre o caso. Com o colapso definitivo da União Soviética em 25 de dezembro de 1991, Krikalev passou a orbitar um planeta onde seu país natal já não existia. Leningrado havia sido renomeada para São Petersburgo. Apesar de nunca ter ficado sozinho na estação, ficou famoso como representante da transição, comunicando-se via rádio com radioamadores e recebendo informações do Ocidente. Leia também: "Incompetentes no Poder" , artigo de Roberto Motto publicado na Edição 323 da Revista Oeste Elena Terekhina, mulher de Krikalev e operadora de rádio do programa espacial, relembrou ao documentário que "estava tentando não falar com ele sobre coisas desagradáveis e acho que ele estava tentando fazer o mesmo”. “Ele sempre me disse que estava tudo bem, então era muito difícil saber o que ele realmente sentia no íntimo”, declarou. Retorno à Terra e legado O último cidadão soviético, Sergei Krikalev, em 2004 | Foto: Divulgação/Nasa O retorno à Terra ocorreu em 25 de março de 1992, três meses depois do fim da União Soviética. Krikalev, visivelmente debilitado depois de 312 dias em órbita e cerca de 5 mil voltas ao redor do planeta, precisou de auxílio para se levantar, mas logo se recuperou. Em 2000, ele integrou a primeira equipe da Estação Espacial Internacional, símbolo de uma nova era de cooperação entre países. Atualmente, Sergei Krikalev ocupa o cargo de diretor executivo de programas espaciais tripulados da Roscosmos, agência espacial russa. Dessa forma, consolida sua trajetória como protagonista de um dos episódios mais marcantes da história da exploração espacial. O post Há 35 anos, ‘último cidadão soviético’ vivia do espaço o colapso da URSS apareceu primeiro em Revista Oeste .
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