Jornal O Globo
O Ministério das Relações Exteriores russo emitiu, nesta segunda-feira, um alerta sobre novos ataques contra a capital da Ucrânia, Kiev, após um fim de semana de intensos bombardeios contra várias regiões do país. A ameaça foi transmitida ao secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, que ouviu de seu homólogo russo, Sergei Lavrov, a recomendação para que retire seus diplomatas da cidade o quanto antes. Tática econômica: Rússia enfrenta desastre ambiental com ataques da Ucrânia à infraestrutura de petróleo Em crítica velada aos EUA: Xi alerta para risco de 'lei da selva' enquanto saúda relação de China com a Rússia de Putin Em comunicado, a Chancelaria cita um ataque contra um dormitório universitário na região ocupada de Luhansk, na sexta-feira passada, atribuído à Ucrânia e que deixou 21 mortos e mais de 40 feridos, afirmando que “tudo isso chegou ao limite”. “Nas circunstâncias atuais, as Forças Armadas Russas estão lançando um ataque sistemático e controlado contra instalações do complexo militar-industrial ucraniano em Kiev, incluindo locais específicos onde drones são projetados, fabricados, programados e preparados para uso”, diz o texto. Os russos recomendam que “cidadãos estrangeiros, incluindo pessoal de missões diplomáticas e organizações internacionais, deixem a cidade o mais rápido possível”, advertindo os moradores para que não se aproximem “de instalações de infraestrutura militar e administrativa pertencentes ao regime de [Volodymyr] Zelensky”. Homem em rua em meio a estragos causados por bombardeios russos em Kiev Roman PILIPEY / AFP Um alerta enfatizado por Lavrov a Rubio, em uma conversa por telefone nesta segunda-feira. “Sergei Lavrov chamou a atenção para a declaração do Ministério das Relações Exteriores da Rússia de 25 de maio, que recomendava que os Estados Unidos, juntamente com outros países com missões diplomáticas em Kiev, garantissem a evacuação de seu pessoal diplomático e demais cidadãos da capital ucraniana”, diz a nota da Chancelaria. O Departamento de Estado não emitiu comunicados sobre a conversa, tampouco se pronunciou sobre o alerta vindo de Moscou. Isolamento: Rússia reforça segurança de Putin em meio a temores sobre assassinato e golpe de Estado No fim de semana, a Rússia lançou um dos mais agressivos bombardeios contra a Ucrânia desde o início do conflito, em resposta ao ataque contra Luhansk, classificado pelo Kremlin de “crime de guerra”. De acordo com a Força Aérea ucraniana, foram usados mais de 600 drones e 90 mísseis, incluindo o míssil balístico Oreshnik, que tem capacidade para levar ogivas nucleares e foi usado pela terceira vez nesta guerra. Quatro pessoas morreram e mais de cem ficaram feridas. — [Vladimir] Putin sequer consegue pronunciar a palavra "viva" corretamente, ele está arrastando as palavras, e mesmo assim continua atingindo prédios residenciais com seus mísseis. Três mísseis russos atingiram uma estação de tratamento de água, incendiaram um mercado, danificaram dezenas de prédios residenciais e várias escolas comuns — afirmou o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, no domingo. Aliados: Bielorrússia e Rússia realizam manobras militares envolvendo armas nucleares Os ataques do fim de semana marcaram uma importante diferença: distritos centrais de Kiev, que normalmente passavam ilesos, foram atingidos. Prédios residenciais, uma escola, equipamentos culturais e um museu em memória ao acidente nuclear de Chernobyl, em 1986, sofreram danos — na madrugada de domingo, o chanceler ucraniano, Andrii Sybha, disse que essa era uma “prova de que estamos lidando com hordas de bárbaros, não com herdeiros da civilização”. — Nas primeiras semanas da guerra em grande escala, alguns membros da nossa equipe praticamente moravam dentro do museu — disse ao jornal Kyiv Post Yuliya Lytvynets, funcionária do Museu Nacional de Arte da Ucrânia, também danificado no fim de semana. — Apesar de tudo o que estava acontecendo lá fora, havia uma sensação de calma aqui dentro. Estávamos protegendo o museu, mas, de certa forma, o museu também estava nos protegendo. No começo do mês, em meio a suspeitas de que a Ucrânia planejava uma ação com drones durante a parada do Dia da Vitória, na Praça Vermelha, o Ministério da Defesa russo ameaçou bombardear o centro de Kiev se algo acontecesse. Como nesta segunda-feira, havia a recomendação para que estrangeiros deixassem a cidade. Os drones não apareceram no evento de Putin, mas áreas mais centrais da capital ucraniana entraram na lista de alvos preferenciais da Rússia. “Os ataques visam tanto centros de tomada de decisão quanto postos de comando”, diz o comunicado da Chancelaria russa nesta segunda-feira. ‘Zona da morte’: Empresas de fachada levam africanos à Rússia com falsas promessas e os enviam para a guerra na Ucrânia A intensificação dos ataques aéreos ocorre no momento em que a Ucrânia tem conseguido resistir às ofensivas terrestres russas, e em meio à estagnação das conversas para encerrar a guerra. Lideranças europeias debatem a indicação de um enviado especial para conversar com Putin, com os nomes da ex-chanceler alemã Angela Merkel e do ex-premier italiano Mario Draghi sendo ventilados, mas sem que se saiba exatamente o que será discutido. Em paralelo, o atual líder alemão, Friedrich Merz, sugeriu conceder a Kiev o status de “membro associado” da União Europeia, algo rejeitado por Zelensky. “Não pode haver um projeto europeu completo sem a Ucrânia, e o lugar da Ucrânia na União Europeia também deve ser completo – pleno e igualitário. É importante abrir os pólos de desenvolvimento. É importante fazer progressos significativos nas negociações. É importante trabalhar a todo vapor pela segurança e pelo nosso povo”, escreveu o ucraniano na rede social.
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