Jornal O Globo
O tarifaço imposto pelo governo americano sobre o café exportado do Brasil durou pouco mais de três meses em 2025, mas os danos causados pela medida ainda não foram completamente revertidos. A tarifa extra de 40% sobre o café vindo do Brasil vigorou de agosto a novembro do ano passado e causou uma queda de 54,8% na exportação da commodity para o país em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo dados do Cecafé (Conselho dos Exportadores de Café do Brasil). Já no primeiro trimestre deste ano, mesmo após a revogação da medida, o volume de café brasileiro exportado para os Estados Unidos mostrou recuo de 48,3% ante o mesmo período de 2025. Em abril, a tendência continuou: os embarques somaram US$ 136,4 milhões — retração de 46,1% em relação ao mesmo mês de 2025. Brasil Soberano 2: BNDES somará R$ 21 bi para empresas afetadas por tarifaço de Trump e guerra no Irã Míriam Leitão: Após aumento de 52% nas vendas, Brasil se une à Austrália para negociar cota de carne para China A imposição de tarifas a produtos importados fez parte da campanha presidencial de Donald Trump e tinha o objetivo, segundo ele, de fortalecer a economia americana. Em agosto, Trump anunciou uma sobretaxa de 40% (além dos 10% impostos em abril) para diversos produtos brasileiros, incluindo o café. A situação durou até 14 de novembro, data em que Trump emitiu um decreto isentando da tarifa uma série de mercadorias, entre elas o café. A necessidade de combater a alta generalizada dos preços contribuiu para que o produto entrasse nessa lista de exceção. — A inflação do café foi oito vezes maior do que a inflação média para o consumidor americano — diz Marcos Matos, diretor-geral do Cecafé. Os EUA não produzem café, mas são o maior consumidor do mundo, com 76% da população tomando a bebida diariamente. Se o tarifaço sobre o café importado do Brasil fosse mantido, o impacto sobre o preço da bebida e sobre a inflação seria muito forte, o que prejudicaria a economia americana e, possivelmente, a popularidade de Trump. Em fevereiro, a Suprema Corte derrubou todas as tarifas sobre produtos importados impostas por Trump, por considerar que a lei usada para criar essa taxação exigiria autorização do Congresso. Para Matos, ainda que o tarifaço tenha caído, a situação continua demandando atenção — O governo americano tem buscado outras maneiras, com base legal maior, de pressionar países exportadores, o que nos deixa preocupados. Acordo anunciado pela Casa Branca: China comprará US$ 17 bilhões em produtos agrícolas dos EUA anualmente Historicamente, o Brasil sempre foi o principal fornecedor da commodity para os americanos e, da mesma forma, os EUA sempre foram o maior importador do café brasileiro. Em 2024, o Brasil exportou 8 milhões de sacas de café para lá, o que equivale a 34% do total importado pelo país. A Colômbia ficou num distante segundo lugar, com 20% do total. Com o tarifaço, a situação mudou. Enquanto em 2024 o Brasil mandou para os EUA 16,09% do total de café exportado, no ano passado essa participação caiu para 13,43%. Com isso, a Alemanha (13,49%) passou a ser — ainda que por pouco — o maior importador de café brasileiro. De janeiro a março, a diferença só aumentou, com a Alemanha ficando com 14,07% do café exportado do Brasil e os EUA, com 11,02%. A dificuldade para reverter essa situação mostra que retomar o ritmo de negócios com os importadores não é algo simples nem imediato. — No período de vigência das tarifas, muitos contratos foram cancelados ou postergados. É natural que leve tempo para recuperar e é bem provável que o importador americano esteja esperando a nova safra, a partir de junho — afirma Matos, destacando que as incertezas são muitas. — Temos uma lista de exceção que nos protege, mas até que ponto? Não temos uma relação comercial forte nem um acordo bilateral firmado. Initial plugin text Opção solúvel Outra questão importante é que o café solúvel, que responde por 10% do total das exportações de café, ficou de fora da lista de exceção e, por isso, segue taxado em 10%. — Isso fez com que fechássemos 2025, que era para ser um ano de exportação recorde, com uma queda de 10,6% nas exportações totais — diz Aguinaldo Lima, diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel. — Para os EUA, o recuo foi de 28%, porque o primeiro semestre foi bom, senão o número final teria sido pior. O governo brasileiro diz que busca melhorias e soluções permanentemente. Luis Rua, secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura e Pecuária, aponta países como China e Austrália como destinos com potencial de crescimento. — Esse movimento não tem nada a ver com os Estados Unidos em si.
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