Vogue Brasil
Quando Hanayrá Negreiros estava organizando a árvore genealógica da família durante a pandemia, o que chamava sua atenção nas fotografias antigas não eram os rostos. Eram as roupas. O caimento de uma saia. O colarinho engomado. O detalhe de um bordado que alguém, em algum momento, escolheu com cuidado. Ali estava uma história que nenhum documento oficial havia registrado - e que ela passou os anos seguintes tentando reconstituir. O resultado acaba de chegar, pela Editora Paralela: Negras Maneiras de Vestir: Moda, Memória e Arte Afro-Brasileira, primeiro livro da pesquisadora, curadora e professora de moda. São quatro capítulos que partem de um álbum de família e chegam ao século 19, às religiões de matriz africana, aos acervos do Instituto Moreira Salles e da Biblioteca Nacional, e ao trabalho de artistas visuais contemporâneas. Um livro que Hanayrá descreve, sem hesitar, como “um grande álbum de famílias negras.” A ideia começou a ganhar forma não na solidão da pandemia, mas nas salas de aula. Hanayrá dá cursos livres há mais de dez anos e, ao compartilhar suas pesquisas sobre memória familiar e moda com as alunas, percebeu que o terreno era fértil de formas que ela não esperava. “Eu comecei a compartilhar isso com as minhas alunas e vi ali que tinha muito interesse, que muitas histórias se conectavam”, conta Hanayrá, em conversa com a Vogue Brasil. Em 2020, numa turma online de 80 pessoas, ficou claro que o que ela tinha em mãos ia além de um artigo ou projeto pessoal: “A minha pesquisa partia de um lugar pessoal, mas se expandia para uma coisa coletiva.” O primeiro capítulo do livro parte dessas fotografias domésticas. Festas, casamentos, aniversários. Imagens de famílias negras marcando momentos especiais num país onde essa possibilidade, dependendo da época, não era óbvia nem garantida. Mas o livro não fica no conforto do familiar por muito tempo. O segundo capítulo é onde a pesquisa fica mais tensa. Hanayrá mergulha em fotografias do século 19, guardadas no Instituto Moreira Salles e na Biblioteca Nacional, onde aparecem mulheres negras cujos nomes a documentação simplesmente não registrou. Para lidar com esse silêncio, ela recorre à fabulação crítica, conceito da intelectual americana Saidiya Hartman, que propõe habitar as lacunas do arquivo com imaginação crítica, sem fingir que as respostas estão lá. Uma das figuras centrais do capítulo é uma mulher fotografada no estúdio, acompanhada de uma caixa com elementos de costura. Os registros da época a descrevem de forma genérica. Hanayrá se recusa a repetir isso. “Eu me recuso a chamá-la de ‘mulher negra da Bahia’ de uma maneira tão genérica”, diz. Para ela, cria um epíteto: Belíssima da Bahia. Sem nome, mas com humanidade. “Não vou dar um nome para ela, mas atribuo o adjetivo de belíssima. Para trazer um pouco mais de humanidade para essa moça.” E então a imaginação entra como método: quem era essa mulher com a caixa de costura? “Ela poderia ser uma trabalhadora, uma modista, a própria vendedora daqueles elementos. Ela poderia ter ido ao estúdio e resolvido fazer fotos com seus produtos.” A fabulação, explica Hanayrá, “nasce desse lugar da crítica, da lacuna e de como a gente pode preencher essa lacuna com a nossa imaginação.” O que foi apagado de propósito Neta e bisneta de costureiras e alfaiates negros, Hanayrá foi para a universidade estudar moda e encontrou um currículo que ela descreve como “muito eurocentrado”. As histórias que ela conhecia da própria casa simplesmente não estavam lá. A insatisfação virou pesquisa. O que ela encontrou nos arquivos é perturbador na sua clareza. As costureiras negras estão nos jornais do século 19. Os alfaiates negros também - parte significativa dos homens envolvidos na Revolta dos Alfaiates, na Bahia do final do século 18, eram negros. As joias que mulheres negras usavam eram feitas, em grande maioria, por artesãos negros. “São apagamentos que foram construídos para subalternizar ainda mais essas populações”, diz. Deliberados, não acidentais. Há também os apagamentos mais próximos, dentro da própria família. “Eu descobri coisas que meus pais, meus tios não sabiam.” Para ela, isso é parte do trabalho do historiador, esse que ela está se tornando- falta pouco para concluir o doutorado em história na PUC-SP. “Entrar no arquivo, entrar na documentação e dar conta de que essas pessoas existiram.” Esse deslocamento importa para além da academia. “Eu só trabalho com moda porque isso é uma herança de família”, diz. A pergunta sobre quem faz a história da moda brasileira muda de endereço quando você entende a moda como saber transmitido dentro de casa, entre gerações. As grandes casas francesas ganhavam os louros, mas eram costureiras negras que construíam os vestires do país. “Me encanta muito estudar um jornal do século 19 e descobrir histórias de mulheres que foram costureiras há 150, 160 anos, que participaram dessa construção”, conta. “Quando a gente olha para essas costureiras, quando a gente olha para essas lavadeiras que foram as nossas avós, as nossas tias, as nossas mães, a gente consegue jogar um brilho nessas outras possibilidades de história.” O terceiro capítulo vem diretamente da dissertação de mestrado em Ciência da Religião, dedicada às indumentárias do candomblé, à relação entre o axé e as roupas. O quarto é curatorial: Hanayrá seleciona quatro artistas - Rosana Paulino, Aline Motta, Angela Brito e Larissa de Souza - cujas práticas tocam nessa mesma dimensão familiar e espiritual do vestir. A capa do livro, fotografada pela cineasta e fotógrafa Juh Almeida, já é uma declaração antes da primeira página. Hanayrá veste peças de Angela Brito, Carol Barreto e Lane Marinho. Ao fundo, uma imagem do acervo do IMS. Passado e presente no mesmo quadro, sem nostalgia, sem reconstituição literal. “Eu gostaria de fazer referências às negras maneiras de vestir de mulheres que me antecederam, mas eu não gostaria que fosse literal”, explica. “Não são roupas antigas, são roupas contemporâneas de artistas com as quais eu tenho relação de afeto, de trabalho, de parceria.” A quarta capa e o prefácio são assinados por Ana Paula Xongani, que foi aluna de Hanayrá e foi quem lhe fez a pergunta que originou o livro: professora, você não gostaria de escrever um livro? Xongani também tem uma história tecida por mulheres - a mãe, a avó, um ateliê compartilhado. A coincidência não é casual. É a tese do livro se confirmando fora dele. Parte do que Hanayrá aprendeu sobre como apresentar roupas ao público veio dos anos como curadora-adjunta de moda no MASP. Ali ela se deparou com uma questão que parece técnica mas é, no fundo, filosófica: como expor um objeto que as pessoas querem tocar? “A roupa nos aproxima porque é algo que está mais próximo do dia a dia”, diz. Diferente de uma pintura ou de uma escultura de arte contemporânea - aquelas que, como ela observa, “a gente olha e não entende muito bem, e fica sem graça de falar que não entendeu” -, a roupa chama o público para mais perto. No MASP e depois no Itaú Cultural, onde co-curou a exposição “Artistas do Vestir: Uma Costura dos Afetos” com Carol Barreto, o desafio era constante. as pessoas queriam encostar nas peças para sentir a textura. Uma multidão incontornável Hanayrá é direta sobre para quem escreve - o livro tem foco nas populações afro-brasileiras, “com especial olhar e destaque para mulheres”. Mas ela enxerga nele um convite mais aberto: o de que qualquer pessoa olhe para os seus próprios arquivos, sejam eles feitos de fotos, documentos, roupas guardadas no fundo do armário. “Que vocês possam, a partir dessa leitura, se sentirem convidadas a olharem para os seus próprios arquivos, do que são compostos.” E para quem não tem esses arquivos, ela propõe uma pergunta diferente: “Vale pensar o porquê dessas lacunas, porque elas também dizem alguma coisa sobre esses processos de memória, de salvaguarda, de Brasil.” No último capítulo, ela analisa “A Parede da Memória”, obra de Rosana Paulino composta por mais de 1.500 patuás com fotografias do próprio álbum familiar da artista. Uma peça sozinha não faz muito barulho. Juntas, formam o que Hanayrá chama de “uma multidão incontornável.” Esse campo (o das histórias negras relacionadas ao vestir) ainda está sendo construído. E Hanayrá sabe disso melhor do que ninguém. “Estamos fazendo isso agora, com esses outros olhares”, explica. Em parte, porque mulheres negras estão acessando mais a universidade, publicando livros, fazendo pós-graduação e pesquisando assuntos que lhes dizem respeito. O ineditismo do livro, ela cuida de deixar claro, não está em ser o primeiro a falar do assunto. Está na costura específica que ela fez: juntar história de família, arquivo institucional, espiritualidade e curadoria numa mesma obra, com um método próprio e uma voz que vem de dentro. O livro funciona da mesma forma que a obra de Rosana Paulino. Cada fotografia sem nome, cada costureira nos jornais do século 19, cada memória doméstica que quase não sobreviveu: fragmentos que, reunidos com cuidado, reconstroem o que foi feito para desaparecer. Canal da Vogue Quer saber as principais novidades sobre moda, beleza, cultura e lifestyle? Siga o novo canal da Vogue no WhatsApp e receba tudo em primeira mão!
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