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Por que Lula não convence a Roberta e o que isso diz sobre 2026 | Collector
Por que Lula não convence a Roberta e o que isso diz sobre 2026
Jornal O Globo

Por que Lula não convence a Roberta e o que isso diz sobre 2026

Roberta tem 38 anos, é caixa de supermercado em Osasco, mãe de dois, ganha dois salários mínimos. Não votou no Lula em 2022 e não vai votar em 2026. Quando perguntam se a economia melhorou, ela responde sem pensar: “piorou, e muito.” A Roberta é o Brasil real que decide eleição em outubro. Em abril, a Quaest mostrou que metade dos brasileiros pensa como ela; entre não-lulistas, passa de 75%. O problema é que os dados dizem o contrário. A massa salarial bateu recorde em 2025. O desemprego está em 5,1%, mínimo histórico. O salário mínimo teve ganho real. Em qualquer manual, é melhora. Mas a Roberta não mente: ela diz uma verdade que o manual não vê, porque o manual mede média e a vida cobra o item. Aqui mora a armadilha do debate eleitoral. As pesquisas mostram que quem desaprova o governo Lula e quem acha que a economia piorou são, em geral, as mesmas pessoas. A sobreposição é das mais altas já registradas no país. E é aqui que o analista apressado escorrega: correlação não é causalidade. Duas coisas andarem juntas não significa que uma cause a outra. A direção pode ser qualquer uma: a má avaliação contaminando a percepção, a economia ruim produzindo o voto contra, ou uma terceira coisa — a vida que aperta, o noticiário que machuca — empurrando as duas ao mesmo tempo. Não há como saber a direção. Mas sabemos uma coisa: na cabeça da Roberta, economia e governo viraram uma coisa só. Quando ela olha o supermercado, vê política. Quando olha política, vê o supermercado. Por isso não adianta insistir no PIB. A Roberta está vendo o aluguel que comeu o aumento, o gás que sobe três vezes por ano, três blusinhas da Shein no lugar do Mizuno que o filho pediu e, sobretudo, a fatura do cartão que virou bola de neve. Num país em que a renda das classes C e D oscila pela informalidade que virou regra, o cartão deixou de ser meio de pagamento e virou complemento de renda. Quando o mês aperta, ela compra na fatura aberta. Quando sobra um pouco, o juro já comeu. Esse é o grande funil que drena o salário, maior que a Shein, maior que as bets. A Roberta faz parte do que chamamos de “pobre premium”: ganha o suficiente para não receber Bolsa Família, mas pouco demais para fechar o mês. Sente que paga a conta de todo mundo, e que ninguém olha para ela. A vida dela não desabou — mas encolheu. E vida que encolhe não produz gratidão, mesmo com gráfico subindo em Brasília. O que muda a percepção da Roberta não é dado, é cena. É o cartão renegociado num Desenrola com teto real de juros e o governo enfrentando o banco em público, com cara e nome. É a taxação dos super-ricos virando lei, dando ao eleitor a sensação de que alguém olhou para o andar de baixo e cobrou o andar de cima. É o fim da escala 6x1, devolvendo um dia da semana para a Roberta passar com os filhos sem culpa. São essas entregas — no boleto, no calendário, na dignidade — que entram onde o PIB nunca entra. Nada disso vai transformar a Roberta numa eleitora petista, e não precisa. Mas pode fazer com que ela diga, em outubro: “pelo menos esses aí brigaram pelo nosso lado.” Em eleição apertada, é isso que move o ponteiro. A economia, hoje, é uma disputa de sentido, não de planilha. Quem traduz dado em cena, ganha. Quem insiste no gráfico, fica falando sozinho enquanto a Roberta troca de canal.

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