Jornal O Globo
A Operação Fluxo Oculto, deflagrada na manhã desta quinta-feira (28), revelou o uso de criptoativos pelo crime organizado para a lavagem de dinheiro no setor de combustíveis, segundo a Receita Federal. A operação aprofunda investigações iniciadas na Carbono Oculto, apuração que apontou atuação do Primeiro Comando da Capital (PCC) no mercado de combustíveis e em estruturas financeiras associadas ao setor. A superintendente da Receita Federal em São Paulo, Márcia Meng, afirmou que o uso de criptoativos no esquema financeiro para maquiar o dinheiro do crime é a principal novidade desta operação em relação à Carbono Oculto. — Esse é um diferencial significativo em relação à primeira fase da Carbono Oculto. Outro ponto importante é notar que, sempre que existe uma operação, a organização criminosa tenta migrar para buscar outras formas, às vezes outras fintechs ou fundos de investimentos, ou ainda outros esquemas financeiros. A Receita tem insistentemente atuado de forma estruturada, para continuar observando o comportamento do contribuinte, após a deflagração da operação, para identificar para onde é que ele está migrando o esquema financeiro dele — disse Márcia Meng. De acordo com a Receita Federal, foram identificadas movimentações de pelo menos R$ 365 milhões em criptoativos entre instituições investigadas e empresas suspeitas de lavagem de dinheiro ligada a organizações criminosas alvo de outras operações. A operação desta manhã é um trabalho conjunto da Receita Federal com o Ministério Público de São Paulo (MPSP), por meio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), e investiga fraudes, sonegação fiscal e lavagem de dinheiro ligadas ao setor de combustíveis. Participam da ação a Agência Nacional do Petróleo (ANP), a Secretaria da Fazenda e Planejamento de São Paulo, a Procuradoria-Geral do Estado e as polícias Militar e Civil. Ao todo, segundo a Receita Federal, estão sendo cumpridos 59 mandados de busca e apreensão contra pessoas físicas e jurídicas em cinco estados: São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Em território paulista, as diligências ocorrem na capital e em cidades como Barueri, Santos, São José do Rio Preto e Sorocaba. As buscas ocorrem também na região da Faria Lima e de Alphaville. A operação mobiliza cerca de 135 auditores-fiscais, analistas-tributários e servidores da Receita Federal, além de integrantes dos demais órgãos envolvidos. Nesta fase, a investigação concentra esforços em duas frentes principais: seis fintechs identificadas após a Carbono Oculto e um esquema de adulteração de combustíveis ligado ao desvio de nafta petroquímica. Investigação aponta fintechs como ‘bancos paralelos’ Segundo o Ministério Público, a Operação Carbono Oculto permitiu identificar seis fintechs que funcionariam como "bancos paralelos" da organização criminosa. De acordo com a investigação, essas instituições integravam um núcleo financeiro usado para compensações internas entre distribuidoras e postos de combustíveis, além de operações envolvendo empresas e fundos de investimento ligados ao grupo investigado. O sistema também serviria para pagamento de colaboradores e despesas pessoais dos operadores apontados como integrantes centrais do esquema. As autoridades afirmam que, juntas, as seis fintechs movimentaram mais de R$ 26 bilhões entre 2022 e 2025. Os grupos citados incluem o Ceopag, sediado em São José do Rio Preto e Barueri; o Sispay, com empresas no Itaim Bibi, em São Paulo; o Smart Solutions, no Rio de Janeiro; e o grupo Yaw, com operações em Alphaville e Belo Horizonte. Entre os alvos da operação também está a Ello Gestora de Recursos Ltda, com mandados em endereços na Rua Professor Atílio Innocenti, na Vila Nova Conceição, e na Avenida Brigadeiro Faria Lima, no Itaim Bibi, ambos na capital paulista. A investigação conduzida pelo Gaeco e pela Receita Federal identificou mecanismos de ocultação patrimonial semelhantes aos observados em outras frentes de combate ao crime financeiro, incluindo uso de instituições de pagamento e fundos de investimento para esconder os beneficiários reais das operações. Segundo a Receita Federal, foram identificadas operações suspeitas com depósitos em espécie — considerados incompatíveis com a natureza de instituições de pagamento — e abertura de contas em outras fintechs, criando uma dupla camada de ocultação financeira. Entre 2022 e 2024, apenas uma instituição investigada teria recebido mais de R$ 1 bilhão em dinheiro vivo. Outro mecanismo identificado foi o uso das chamadas "contas bolsão", estruturas que centralizavam e depois dispersavam recursos, dificultando o rastreamento das transações e a identificação dos beneficiários finais. Segundo o MPSP, quatro fundos de investimento, duas administradoras de recursos e duas gestoras estão sob investigação. O patrimônio estimado dos fundos chega a cerca de R$ 205 milhões e teria crescido mais de 200% em pouco mais de um ano. Desvio de nafta e empresas-fantasma entram na mira Outra frente da Operação Fluxo Oculto envolve o desvio de nafta petroquímica, matéria-prima derivada do petróleo usada pela indústria química. Segundo o Ministério Público, um núcleo investigado direcionaria o material a terminais e postos de combustíveis após simular a venda de solventes para empresas-fantasma. A investigação, realizada em conjunto com a ANP, aponta que o grupo mantinha um esquema de abertura em série de empresas em diferentes estados, utilizando parentes, pessoas em situação de vulnerabilidade social e até presos como responsáveis formais pelas companhias. Na prática, segundo a apuração, os produtos eram desviados para a Grande São Paulo. Segundo a Receita Federal, apenas o esquema envolvendo nafta teria causado prejuízo estimado em R$ 200 milhões em tributos supostamente sonegados ao longo de dois anos. De acordo com as investigações, a organização simulava a aquisição da nafta para uso químico ou industrial e desviava o produto para terminais de armazenamento, onde ele era misturado a combustíveis automotivos antes de seguir para postos ligados ao grupo investigado. O Ministério Público afirma que esta etapa amplia a compreensão do "ecossistema criminoso" associado às organizações investigadas, com foco nos mecanismos de lavagem considerados essenciais para garantir poder econômico e continuidade operacional. Segundo os órgãos envolvidos, as estruturas identificadas utilizavam o mesmo "balcão financeiro" já apontado na Carbono Oculto, compartilhando canais de movimentação financeira, técnicas de lavagem de capitais, fintechs e fundos de investimento ligados ao grupo investigado.
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