Jornal O Globo
Após passar décadas em uma comunidade brasileira em Berlim, uma ex-integrante da Fração do Exército Vermelho (RAF, na sigla original em alemão), grupo extremista de esquerda que promoveu uma campanha de atentados e assassinatos na Alemanha Ocidental ao longo de décadas, foi condenada na quarta-feira a 13 anos de prisão. A alemã Daniela Klette, de 67 anos, foi considerada culpada por um tribunal regional na cidade de Verden, na Baixa Saxônia, por seis acusações de roubo qualificado, além de crimes relacionados a sequestro para obtenção de resgate, posse de armas e violações da legislação sobre armamentos — todos crimes cometidos após a dissolução da organização. Após ordem de retirada de tropas americanas da Alemanha: Pentágono reduz número de brigadas estacionadas na Europa Entenda: Sanções da União Europeia contra colonos marcam ponto de inflexão na relação do bloco com Israel após derrota de Orbán A sentença encerra um julgamento de 14 meses sob forte esquema de segurança e representa mais um capítulo no desfecho da história da RAF, também conhecida como gangue Baader-Meinhof, organização responsável por atentados, assassinatos, sequestros e explosões entre as décadas de 1970 e 1990. Klette passou mais de 30 anos foragida antes de ser presa em fevereiro de 2024 em um apartamento no bairro de Kreuzberg, em Berlim, onde vivia sob identidade falsa. Ela era considerada por anos uma das pessoas mais procuradas da Alemanha e a última mulher ligada à RAF ainda em fuga. Segundo a decisão judicial, Klette participou de roubos a supermercados e carros-fortes entre 1999 e 2016 ao lado de outros dois ex-integrantes da RAF, Burkhard Garweg, de 57 anos, e Ernst-Volker Staub, de 72, que seguem foragidos. Os promotores afirmaram que o trio atuava de forma organizada, com divisão de tarefas, e usava armamento pesado e ameaças violentas durante os ataques. Em um dos casos, criminosos mascarados atingiram um carro-forte e ameaçaram seguranças com armas e um lançador de granadas antes de fugir com uma grande quantia em dinheiro. Em outro roubo, ocorrido em 2016 próximo à cidade de Braunschweig, os assaltantes levaram quase € 1,4 milhão. Ao longo dos 17 anos investigados, o grupo teria roubado mais de € 2 milhões, usados para financiar a vida clandestina dos fugitivos após o fim oficial da RAF. Durante a leitura da sentença, apoiadores de Klette protestaram no tribunal, vaiando os juízes e gritando palavras de ordem como “liberdade para Daniela”. Do lado de fora do prédio, simpatizantes exibiam cartazes em solidariedade à ex-militante. No apartamento onde ela vivia havia cerca de 20 anos, policiais encontraram armas, munição, uma réplica de lança-foguetes, documentos falsificados, perucas, ouro e € 240 mil em dinheiro vivo. A promotoria havia pedido pena máxima de 15 anos, enquanto a defesa sustentava que não havia provas diretas da participação de Klette nos roubos e argumentava que as acusações relacionadas às armas apreendidas justificariam apenas uma pena suspensa. O juiz Lars Engelke afirmou que os crimes foram executados “de forma altamente conspiratória”. Comunidade brasileira Apesar de décadas foragida, investigadores disseram que Klette levava uma rotina aparentemente normal em Berlim. Sob o nome falso de Claudia Ivone, ela frequentava um centro de cultura brasileira na cidade e praticava capoeira. A localização da ex-militante ocorreu após um jornalista investigativo usar tecnologia de reconhecimento facial para comparar imagens antigas de cartazes de procurados com fotografias recentes encontradas na internet. Fotos dela sorrindo durante o Carnaval das Culturas de Berlim, ao lado de um grupo de capoeira, teriam ajudado na identificação. — Eu não conheço Daniela Klette, eu conheço a Cláudia. Ela era como uma irmã para mim — disse à emissora WDR o brasileiro Emerson Gomes da Silva, que morou em Berlim e voltou para o Brasil nos anos 2000, relatando que Klette viajou ao país para visitá-lo. Durante o julgamento, Klette não admitiu explicitamente ter integrado a RAF. Ainda assim, promotores federais a acusam de participação em três ataques atribuídos ao grupo nos anos 1990, incluindo uma tentativa de atentado contra um prédio do Deutsche Bank, um ataque a tiros contra a embaixada dos Estados Unidos em Bonn e um atentado a bomba contra uma prisão. Essas acusações serão analisadas separadamente em Frankfurt. Klette não pode mais ser julgada por participação em organização terrorista porque o crime prescreveu em 2018, 20 anos após a dissolução formal da RAF. Criada por militantes de extrema esquerda como Andreas Baader e Ulrike Meinhof, a RAF defendia uma ideologia marxista-leninista e afirmava combater o imperialismo americano e o capitalismo na Alemanha Ocidental. O grupo é apontado como responsável pela morte de pelo menos 30 pessoas e por deixar cerca de 200 feridos ao longo de sua atuação. Entre os crimes mais conhecidos atribuídos à RAF estão o assassinato de um procurador federal e o sequestro e posterior morte do industrial Hanns Martin Schleyer em 1977, período considerado o auge da violência promovida pela organização. As autoridades alemãs seguem procurando Staub e Garweg, os dois ex-integrantes do grupo que continuam desaparecidos. (Com New York Times)
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