Revista Oeste
Em coletiva de imprensa realizada nesta quinta-feira, 28, em São Paulo, Claudio Pires, sócio-diretor de investimentos da MAG Investimentos, apresentou o cenário-base da gestora para o Brasil até o fim de 2026 e jogou um balde de água fria sobre as esperanças de quem ainda aguarda uma virada na política econômica pós-eleições: não importa quem vença em outubro, a conta fiscal chegará cedo. Claudio Pires, sócio-diretor de investimentos da MAG Investimentos | Foto: MAG Investimentos "Qualquer um que seja eleito terá que ajustar o fiscal", afirmou Pires, com a objetividade típica de quem administra cerca de R$ 20 bilhões e não tem tempo a perder com eufemismos. Saiba mais: CEO da B3 projeta otimismo econômico, mas defende ajuste fiscal Para ele, quando a questão fiscal for tratada de maneira mais rígida, os agentes de mercado precificarão uma curva de juros menor e a economia se resfriará, facilitando o trabalho do Banco Central. Saiba mais: O ajuste fiscal à custa dos mais pobres A afirmação resume bem o tom da apresentação: pragmática, pouco animadora para o governo e para boa parte da oposição, e sustentada num diagnóstico que o mercado financeiro repete há meses mas que raramente se vê expresso com tanta clareza em uma coletiva. O fiscal que ninguém quer tocar O pano de fundo da análise da MAG é o arcabouço fiscal brasileiro, que a gestora considera estruturalmente fraco. O mercado questiona severamente o modelo vigente, que tem diversas exceções à regra, e que, segundo Pires, somam quase 1% do Produto Interno Bruto (PIB), fazendo com que a meta oficial de déficit zero seja, na prática, de -1%. Saiba mais: Governo Lula trava gastos com pessoal e benefícios em 2027 Com a Selic a 14,5%, carregar a dívida pública torna-se extremamente caro, desequilibrando ainda mais as contas públicas. E o remédio, insiste o executivo, não pode vir apenas do Banco Central. "Não adianta um [Banco Central] puxar para um lado e outro [governo federal] puxar para outro", pontuou. Saiba mais: Governo Lula vê explosão de 500% em benefícios sociais e admite 'nó fiscal' A metáfora que Pires escolheu para resumir a resiliência perversa do Brasil nessa matéria é conhecida nos corredores do mercado financeiro, mas não deixa de ser reveladora: "O Brasil chega à beira do precipício, olha e volta para trás, fazendo a sua lição de casa." A questão é quanto tempo falta para a próxima chegada à beira. Juros altos: uma infelicidade produtiva A MAG projeta que o Banco Central manterá a Selic em 14% ao fim de 2026, ainda que a taxa básica esteja hoje em 14,5% e haja espaço, na visão da gestora, para mais uma ou duas reduções de 0,25 ponto percentual ao longo do ano. O ambiente externo complica qualquer ciclo de cortes mais agressivo. "O mundo inteiro está discutindo alta de juros. Europa deve subir, Japão deve subir, Austrália está subindo. Fazer um ciclo contrário ao do mundo é sempre mais desafiador", disse Pires. "Juros altos é uma infelicidade para o país", afirmou o diretor, argumentando que quando o mercado vê um retorno no patamar de 14,5% ao ano sem que o investidor precise tomar risco, o nível de investimento no Brasil despenca, afetando tanto o capital nacional quanto o estrangeiro. O resultado prático já é visível: a renda variável registra saída de capital, puxada principalmente pelos investidores institucionais. O fluxo estrangeiro, que no início do ano via o Brasil com olhos de "queridinho" após avaliações do FMI e apostava numa possível alternância de poder, reverteu o curso. "Quem está em movimento de alta de juros acaba atraindo dinheiro, enquanto quem está reduzindo juros acaba perdendo. Esse é outro risco que o Banco Central tem que monitorar", afirmou. Crescimento de 2%, mas com prazo de validade Apesar dos juros elevados, a MAG não prevê recessão. A casa projeta crescimento próximo de 2% para o PIB, apoiado pelo consumo e por medidas de estímulo adotadas pelo governo federal. O motor dessa resiliência, contudo, gera alertas: o crescimento tem sido puxado quase exclusivamente pelo consumo das famílias, um modelo que, segundo a gestora, "em algum momento se esgota". Injeções de liquidez promovidas pelo governo, como o programa Desenrola, o pagamento de precatórios e a isenção de imposto de renda para salários de até R$ 5 mil, não estão sendo convertidas em poupança e acabam virando demanda, pressionando a inflação. A projeção da MAG é que o IPCA feche o ano em 5%. "A inflação está vindo pior do que o mercado projetava, enquanto a atividade econômica está vindo mais forte. Ele [BC] tem que ser cauteloso nos próximos movimentos", avaliou Pires. Lula favorito, oposição tropeçou No front político, a MAG adota um cenário-base de reeleição do presidente Lula — posição que, admite o próprio Pires, mudou recentemente. "O nosso cenário-base era quase uma moeda para cima. De 50% a 50% [de chance para cada lado]", disse. "Mas nosso cenário hoje é que não haja troca de governo, olhando as pesquisas atuais. Eu acho que a oposição deu várias derrapadas." Para o executivo, parte do capital estrangeiro que entrou no Brasil no início do ano embutia uma espécie de aposta na alternância de poder. "O estrangeiro olha para a eleição. É como se ele estivesse alocando capital no país e pudesse receber um 'bônus' de ter um governo mais responsável fiscalmente lá na frente." Com as pesquisas apontando para a manutenção do governo petista, esse prêmio começa a sair do preço. A perspectiva de que a atual metodologia fiscal possa ser mantida em um eventual quarto mandato de Lula eleva a leitura de risco futuro. Mas é aí que entra a sentença com a qual Pires abriu e fechou sua apresentação: o mercado financeiro, mais do que o eleitorado, deverá impor a disciplina que nenhum candidato tem interesse em prometer antes de outubro. Fim da escala 6×1: susto passageiro A coletiva ocorreu um dia após a Câmara aprovar a PEC que extingue a escala 6×1, e o tema não poderia passar em branco. Para Pires, as pressões sobre custos e preços nas empresas consistem em um "choque momentâneo" que se dissipará com o tempo. A MAG aponta que apenas um terço dos trabalhadores brasileiros ainda opera nessa escala, visto que setores como bancos e seguros já abandonaram o formato há anos. O dólar, por fim, deve encerrar o ano em torno de R$ 5, sustentado pelos juros elevados, mas sem espaço para valorização mais expressiva do real diante das turbulências do cenário global. "O cenário-base é de R$ 5 para este ano. Isso porque os juros mais altos ajudam a valorizar a moeda, embora esse turbilhão macroeconômico local e global não deixe valorizar tanto", concluiu Pires. O post ‘Qualquer um que ganhar a eleição será obrigado a fazer um ajuste fiscal’, diz MAG apareceu primeiro em Revista Oeste .
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