Jornal O Globo
Uma coleção de cobras preservadas em potes de vidro por mais de sete décadas em uma pequena cidade da Amazônia equatoriana se transformou em uma importante fonte de pesquisa científica e ajudou a revelar uma das regiões com maior diversidade de serpentes do planeta. Continente 'fritando': Onda de calor extremo na Europa é ‘lembrete brutal’ da crise climática, diz ONU Boletim da OMM: Temperaturas globais devem atingir níveis próximos aos recordes históricos entre 2026 e 2030, aponta relatório Manuel Genaro Peñafiel, mantém em sua fazenda um pequeno museu de répteis improvisado. Em prateleiras de madeira, dezenas de serpentes preservadas em garrafas e frascos de vidro ficam submersas em aguardente de cana envelhecida. Algumas espécies eram tão raras que nem o próprio pesquisador conseguiu identificá-las de imediato. A primeira cobra Peñafiel começou a coleção em 1958, um ano após se casar com Maruja Acosta. Ao capturar uma pequena víbora equis — uma das serpentes mais temidas da região — decidiu preservá-la em um recipiente com álcool em vez de descartá-la. A partir daquele momento, passou a pedir aos trabalhadores de sua fazenda que não matassem as cobras encontradas na propriedade. Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial simula a víbora equis, primeira espécie capturada por Peñafiel, em sua coleção Nano Banana Enquanto a maioria dos moradores reagia às serpentes com golpes de facão, o agricultor desenvolveu fascínio pelos animais. Durante décadas, capturou exemplares usando galhos bifurcados para imobilizá-los e os armazenou cuidadosamente em frascos. A coleção cresceu com espécies como falsas-corais, cobras-cipó e outras serpentes amazônicas. Com o tempo, a família se mudou para a área urbana de Mera e construiu um pequeno espaço dedicado à exposição dos animais. O local passou a receber visitantes mediante o pagamento de um dólar por adulto e 50 centavos de dólar por criança. O biólogo americano Alex Bentley conheceu a coleção de Peñafiel em 2015 e ficou tão impressionado que se mudou para a cidade de Mera. Casado com a ambientalista equatoriana Dione Fiallos, ele fundou a organização de conservação Waska Amazonía e iniciou um projeto para catalogar cientificamente o acervo de Peñafiel. Fenômeno raro: Meteoro ilumina céu sobre vulcão ativo nas Filipinas e cria cena descrita como 'apocalíptica'; vídeo O trabalho começou em 2023 e mobilizou mais de cem pessoas, entre cientistas, bombeiros, taxistas e voluntários. Durante dias, os exemplares foram fotografados, medidos, identificados e transferidos para novos recipientes adequados à preservação científica. Além da coleção particular, os pesquisadores analisaram espécimes provenientes de museus e universidades do Equador. Ao todo, foram estudados 666 exemplares de 66 espécies acumulados ao longo de 85 anos de registros. Contribuições para a ciência Os resultados surpreenderam. Sete espécies jamais haviam sido oficialmente registradas em Mera. Um dos exemplares encontrados por Peñafiel era a maior cobra-coral-de-fita ocidental já documentada, com mais de 1,5 metro de comprimento. Outras serpentes não eram observadas em determinadas altitudes havia décadas. A pesquisa concluiu que pelo menos um quarto de todas as espécies de cobras conhecidas no Equador ocorre em Mera, transformando a cidade em um dos habitats de serpentes mais diversos do mundo. O estudo científico foi publicado em outubro de 2025 na revista especializada Check List, exatamente dez anos após o primeiro encontro entre Bentley e Peñafiel. Os dois aparecem como autores do trabalho. Amizade com o bioma A iniciativa também alterou a relação da população local com os animais. Segundo moradores, as serpentes deixaram de ser automaticamente mortas quando encontradas. Muitas passaram a ser capturadas e devolvidas à floresta por equipes de conservação. A mudança contribuiu até para a descoberta de uma nova espécie. Um morador que costumava matar cobras decidiu preservar um exemplar encontrado em sua propriedade e entregá-lo aos pesquisadores. O animal revelou-se uma espécie até então desconhecida de jiboia-anã, restrita a uma cadeia montanhosa próxima de Mera. Hoje com 101 anos, Peñafiel recebe homenagens das autoridades locais por sua contribuição à ciência e à conservação ambiental. Em uma placa concedida pelo governo provincial, o agricultor foi reconhecido como “Pioneiro de Mera” por ajudar a transformar a cidade em referência mundial para o estudo das serpentes. Durante um encontro recente com Bentley, o colecionador agradeceu ao cientista por ter dado reconhecimento ao trabalho que desenvolveu ao longo da vida. Ao lado dos frascos de vidro que guardam décadas de história natural, o agricultor segue celebrando cada nova cobra adicionada à coleção.
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