Collector
Pensador Edgar Morin morre aos 104 anos | Collector
Pensador Edgar Morin morre aos 104 anos
Jornal O Globo

Pensador Edgar Morin morre aos 104 anos

O filósofo francês Edgar Morin morreu nesta sexta-feira (29), aos 104 anos, em Paris. Morin recebia cuidados paliativos após uma dupla infecção e faria 105 anos no dia 8 de julho. A notícia foi divulgada por um secretário pessoal do pensador, Nelson Vallejo Gomez, em seu perfil no Instagram. "Ao pôr do sol de uma majestosa tarde de primavera, no Hospital Americano de Paris, nesta sexta-feira, 29 de maio de 2026, encerrando um fabuloso ciclo existencial que começou em Paris em 8 de julho de 1921, o espírito brilhante do amado sábio da #PoéticaDaCivilidade, meu pai espiritual, querido e admirado Condor, Edgar Morin, tornou-se pura energia", publicou Gomez. "Agora ele está muito mais intensamente presente em nós. Sempre carregarei seu sorriso em meu coração como um farol de inteligência viva, e o manual da Unesco, que é como um legado." Um dos mais destacados intelectuais da esquerda francesa durante o século XX, Morin foi um pensador produtivo mesmo depois de se tornar centenário: aos 102 anos, publicou um romance de inspiração autobiográfica escrito inicialmente em 1946, "L'année a perdu son printemps ("O ano perdeu sua primavera", em tradução livre). Autor de mais de 30 livros, o pensador publicou o livro "Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro" em parceria com a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), e veio várias vezes ao Brasil para discutir o ensino. Morin nasceu como Edgar Nahoum em Paris. Pesquisador emérito do Centre National de la Recherche Scientifique. e formado em Direito, História e Geografia, fez estudos em Filosofia, Sociologia e Epistemologia. Judeu de origem sefaradita, participou da Resistência Francesa durante a ocupação nazista de seu país na Segunda Guerra Mundial, quando aderiu ao Partido Comunista, em 1941. Foi nessa época que adotou o pseudônimo com que ficou famoso No fim do conflito, foi para a Alemanha ocupada, como adido ao Estado Maior do Primeiro Exército Francês na Alemanha, em 1945, e, em 1946, como chefe do departamento de propaganda do governo militar francês. Nessa época, escreve seu primeiro livro, L'An zéro de l’Allemagne ("O Ano Zero na Alemanha"), sobre situação do povo alemão no pós-guerra. A partir de 1949, Morin se afastou do Partido Comunista, que o expulsou definitivamente em 1951, por suas posições contra o ditador russo Joseph Stálin. Em 1955, coordenou um comitê contra a guerra da Argélia e defende particularmente Messali Hadj, pioneiro da luta anticolonial e um dos próceres da independência da Argélia. Morin fundou em 196, na École des hautes études en sciences sociales (EHESS), o Centro de estudos de comunicação de massa, com Georges Friedmann e Roland Barthes, com a intenção de adotar uma abordagem transdisciplinar do tema, e cria a revista Communications. Morin é também fundador da revista Arguments (1957-1963). Morin mudou a forma como enxergamos o conhecimento ao criticar a divisão artificial das ciências em "caixinhas" isoladas, propondo que tudo na vida, na natureza e na sociedade está interligado. Na educação, ele propôs um ensino voltado para a cidadania planetária, a compreensão humana, o preparo para lidar com incertezas e a valorização do afeto e do respeito às diferenças. Pensamento A principal obra de Edgar Morin é a constituída por seis volumes, "La Méthode" (em português, O Método). Foi escrita durante três décadas e meia. Trata-se de uma das maiores obras de epistemologia disponível. Morin inicia os primeiros escritos de "La Méthode" em 1973, com a publicação do livro "O Paradigma Perdido: a Natureza Humana", uma transformação epistemológica por questionar o fechamento ideológico e paradigmático das ciências, além de apresentar uma alternativa à concepção de "paradigma" encontrada em Thomas Kuhn. Seu primeiro livro traduzido para o português é O cinema ou o homem imaginário, em 1958. Os sete saberes necessários Morin afirma que diante dos problemas complexos que as sociedades contemporâneas hoje enfrentam, apenas estudos de caráter inter-poli-transdisciplinar poderiam resultar em análises satisfatórias de tais complexidades: "Afinal, de que serviriam todos os saberes parciais senão para formar uma configuração que responda a nossas expectativas, nossos desejos, nossas interrogações cognitivas?.” [7] No livro Os sete saberes necessários à educação do futuro, Morin apresenta o que ele mesmo chama de inspirações para o educador ou os saberes necessários a uma boa prática educacional. O pensamento complexo Complexo vem do Latim complexus, que quer dizer “aquilo que é tecido em conjunto”. Segundo o próprio Morin, nós somos: Homo (gênero) Homo sapiens sapiens Edgar Morin diz que é sistemático demais possuirmos um sapiens ou dois, em nossa autodenominação; é preciso acrescentar um demens, ficando: Homo sapiens sapiens demens, o que mostra o quanto somos descomedidos, loucos. Todo homem é duplo: ao mesmo tempo que é racional apresenta certa demência. Na busca do verdadeiro pensamento complexo de Morin, esbarramos no entendimento de outros conceitos, entre eles, é o de operadores de complexidade: Operador dialógico que é diferente de operador dialético Operador recursivo Operador hologramático O operador dialógico envolve o entrelaçar coisas que aparentemente estão separadas: Exemplos: Razão e emoção Sensível e inteligível O real e o imaginário A razão e os mitos A ciência e a arte Trata-se da não existência de uma síntese. Tudo isto consiste no chamado dialogizar. O operador recursivo, trata principalmente do fato de que sempre aprendemos que uma causa A produz um efeito B. Na recursividade a causa produz um efeito, que por sua vez produz uma causa. Exemplo: Somos produto de uma união biológica, entre um homem e uma mulher e por nossa vez seremos geradores de outras uniões. O operador hologramático, trata de situações em que você não consiga separar a parte do todo. A parte está no todo, assim como o todo está na parte. Esses três operadores são as bases do pensamento complexo. Em resumo temos: Juntar coisas que estavam separadas Fazer circular o efeito sobre a causa Ideia de totalidade: Não dissociar a parte do todo. O todo está na parte assim como a parte está no todo. Com esses três operadores, você criará a noção de totalidade, mas ao mesmo tempo, criará uma concepção de que a simples soma das partes não leva a esse total. A totalidade (no pensamento complexo), é mais do que a soma das partes e simultaneamente menos que a soma das partes. Nós somos considerados seres que: Falam; Fabricam seus próprios instrumentos; Simbólicos, pois criamos nossos símbolos, nossos mitos, e nossas mentiras. O pensamento complexo afirma também que, além disso, somos complexos. Isto porque estamos inscritos numa longa ordem biológica e porque somos produtores de cultura. Logo, somos 100% natureza e 100% cultura. O conhecimento complexo não está limitado à ciência, pois há na literatura, na poesia, nas artes, um profundo conhecimento. Todas as grandes obras de arte possuem um profundo pensamento sobre a vida. Segundo o próprio Morin, devemos romper com a noção de que devemos ter as artes de um lado e o pensamento científico do outro. Tetragrama organizacional Qualquer atividade de seres vivos é guiada por uma tetralogia. Envolve relações de: Ordem; Desordem; Interação; (re)Organização. Isto é o tetrálogo organizacional. Unindo este tetragrama aos operadores de complexidade, temos as bases do pensamento complexo. Diz Marx: “Qualquer reforma do ensino e da educação começa com a reforma dos educadores.” Esta é uma das citações mais utilizadas por Morin quando trata da questão do pensamento complexo e da reforma dos educadores no processo de criação de uma nova educação. A razão cartesiana impôs um paradigma. Ela nos ensinou a separar a razão da des-razão. Temos que religar tudo o que a ciência cartesiana separou, segundo Morin.

Go to News Site