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Luxo e propósito: os desafios do consumo da arte contemporânea brasileira
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Luxo e propósito: os desafios do consumo da arte contemporânea brasileira

Perceber na arte o ‘luxo’ como algo autêntico e de valor ancestral talvez seja o grande diferencial quando se trata de colecionismo contemporâneo. Enquanto a arte ainda carrega o estigma de ser inacessível, outros mercados, especialmente o da moda, souberam transformar desejo, pertencimento e expressão individual em experiências amplamente consumidas. E é por isso que desmistificar a ideia de que o consumo da arte é um território restrito se faz necessário.  Se as pessoas estão dispostas a investir valores significativos em itens de consumo que muitas vezes se depreciam rapidamente, por que com a arte é diferente? Parte da resposta está na forma como o valor é construído historicamente dentro da sociedade brasileira, que tende a perpetuar preconceitos sociais e a separação de classes. Não se trata apenas de quem pode comprar, mas do que está sendo legitimado como valioso. Estamos diante de transformações significativas nos mercados de arte e luxo, antes sustentados por estruturas hegemônicas e pouco diversas. Isso acontece não apenas por novos discursos institucionais, mas pela ascensão de profissionais, artistas e criadores — especialmente negros e indígenas — que, antes invisibilizados, passam a ocupar espaços de destaque ao trazer inovação, identidade cultural e novas perspectivas de valor. São essas trajetórias que vêm redefinindo referências, ampliando repertórios e provocando uma mudança real na forma como autenticidade, exclusividade e relevância são percebidas. Selecionar uma imagem Camila Alcântara é artista plástica, curadora, galerista, empresária e palestrante. Sócia-fundadora da LTRL Galeria, atua no desenvolvimento e circulação de artistas contemporâneos, com interesse na formação de novos colecionadores e na ampliação do acesso à arte contemporânea. Ela é uma referência quando o assunto é mercado, formação de público e incentivo à arte. “No colecionismo, ainda enfrentamos o mito de que arte é para poucos. Mas a maior parte das pessoas compra por conexão emocional. Falta entender que colecionar não é privilégio, é decisão. As pessoas estão nas ruas, muitas vezes consumindo produtos que custam uma parede inteira de obras de artistas contemporâneos”, enfatiza a artista. O colecionismo pode ser reposicionado como um ato de consciência — econômica, cultural e política. Investir em arte, especialmente em artistas contemporâneos e de trajetórias historicamente marginalizadas, não é apenas uma escolha estética. É uma forma de redistribuir visibilidade, recursos e reconhecimento dentro de uma cadeia global que representa a cultura de um povo. “Como curadora, meu trabalho parte da escuta. Busco artistas com consistência, pesquisa e disposição para construir relações honestas. Quero ver mais pessoas negras colecionando arte, construindo patrimônio e participando ativamente do mercado. Se o mercado não abre espaço, a gente constrói o próprio, e convida outras pessoas interessadas a entrar”, contextualiza a galerista. O desafio está em substituir a lógica aspiracional pela lógica de pertencimento, construir uma conexão com a história de cada indivíduo e promover empoderamento ancestral. A decisão de consumir — seja uma bolsa, um relógio ou uma obra de arte — não é apenas financeira. Ela é, sobretudo, simbólica e talvez o verdadeiro luxo do nosso tempo esteja justamente na capacidade de escolher com consciência, entendendo que cada escolha sustenta ou transforma as cadeias que estruturam o mundo em que vivemos. Camila Alcântara Lucas Pereira/Divulgação De acordo com o relatório global The Art Basel and Art Market Report, realizado pela economista Clare McAndrew, quase metade dos compradores que ingressaram no mercado em 2025 eram novos colecionadores, indicando uma mudança geracional e de repertório cultural dentro do ecossistema de arte mundial, que movimentou cerca de US$ 59,6 bilhões no último ano. Outro dado relevante é que a representação de mulheres artistas nas galerias do mercado primário alcançou paridade pela primeira vez, chegando a 50%. “Construir meu caminho no mercado da arte nunca foi apenas sobre produzir, mas sobre criar as condições para existir nele. Como mulher negra, isso significou não esperar por espaços prontos, mas estruturar os meus próprios e, sempre que possível, ampliá-los para outras pessoas. Empreender me ensinou que não existe fórmula: caminho se faz andando. Minha carreira começou guiada pelo desejo, mas hoje é atravessada por intenção. Me posicionar nunca foi uma escolha, foi uma questão de sobrevivência”, ressalta Camila. O consumo de luxo sempre funcionou como uma linguagem de distinção. Mas, em um tempo marcado por disputas de narrativa, acesso e representação, essa linguagem começa a revelar também suas contradições. Muitos dos símbolos que movimentaram o desejo global foram construídos a partir da estética, da cultura e da criatividade de povos que raramente participaram da distribuição de reconhecimento, prestígio ou riqueza. Por isso, não basta admirar referências culturais; é preciso questionar quem é legitimado a transformar essas referências em patrimônio, valor e permanência. Quando novos artistas, criadores e profissionais ocupam esse espaço, não estão apenas diversificando um mercado, mas também alterando a lógica de quem tem autorização para definir o que merece ser visto, preservado e desejado. E essa mudança reposiciona o luxo não como excesso, mas como consciência histórica e de mercado. Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Vogue Canal da Vogue Quer saber as principais novidades sobre moda, beleza, cultura e lifestyle? Siga o novo canal da Vogue no WhatsApp e receba tudo em primeira mão!

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