Jornal O Globo
Um homem morreu nos Estados Unidos, em janeiro de 2025, após contrair raiva por meio de um transplante de rim recebido de um doador cuja infecção não havia sido identificada pelos médicos. O caso, considerado extremamente raro, levou autoridades sanitárias americanas a reavaliar protocolos de triagem para doação de órgãos e tecidos. Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), descobriu, em dezembro do ano passado, que outros três pacientes também contraíram a doença por meio de outros transplantes. Proteínas: médico responde dúvidas dos leitores do Vida Boa, novo projeto do GLOBO Ebola: por que o contágio é difícil e restrito? Três pessoas, uma de Idaho, uma da Califórnia e uma do Novo México, receberam transplantes oculares preparados a partir das córneas recuperadas de James Martin, de Idaho, além de Barney Kurowicki, de 76 anos, do Michigan, que recebeu o rim. James Martin era pai de três filhos quando faleceu em dezembro de 2024, aos 59 anos. Segundo relatório dos CDC, Martin teria sido arranhado por um gambá enquanto tentava proteger um filhote de gato em sua propriedade rural, em outubro de 2024. Como ele acreditava não ter sido mordido pelo animal, não procurou tratamento preventivo. Cerca de seis semanas depois, começou a apresentar sintomas neurológicos, incluindo confusão mental, alucinações e dificuldade para engolir. Ele foi hospitalizado, entrou em coma e teve morte cerebral declarada. Após sua morte, órgãos e tecidos foram destinados a transplantes. O rim foi transplantado em Kurowicki, enquanto córneas foram enviadas para pacientes em diferentes estados americanos. Como a infecção por raiva não é incluída nos exames de rotina para doadores de órgãos, o vírus passou despercebido naquele momento. Cerca de cinco semanas após o transplante, Kurowicki começou a apresentar tremores, fraqueza nas pernas, confusão mental e hidrofobia — aversão intensa à água, um dos sintomas clássicos da doença. O caso chamou a atenção dos médicos, que acionaram especialistas do CDC. Exames confirmaram posteriormente a presença do vírus da raiva. O paciente morreu poucos dias depois. A investigação revelou que três pessoas também haviam recebido enxertos de córnea provenientes do mesmo doador. Como medida preventiva, os tecidos foram removidos e os pacientes receberam profilaxia pós-exposição, tratamento capaz de impedir o desenvolvimento da doença quando administrado a tempo. Nenhum deles apresentou sintomas. Um quarto transplante de córnea chegou a ser cancelado antes da implantação do tecido. De acordo com o CDC, esta foi apenas a quarta ocorrência documentada de transmissão de raiva por transplante de órgãos ou tecidos nos Estados Unidos desde 1978. A doença é quase sempre fatal após o surgimento dos sintomas, mas pode ser evitada por meio de vacinação e tratamento preventivo após uma possível exposição. O episódio alertou o órgão sobre a necessidade de aprimorar os questionários de avaliação de doadores, especialmente em situações que envolvam contato recente com animais silvestres potencialmente transmissores da doença. Apesar do caso, as autoridades de saúde ressaltam que transplantes continuam sendo procedimentos seguros e que eventos semelhantes são considerados excepcionalmente raros.
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