Jornal O Globo
Quando a médica de Julie Bernstein recomendou recentemente que ela começasse a comer frango e bife para aumentar a ingestão de proteínas, ela ficou um pouco irritada. Bernstein, de 76 anos, é vegana há décadas e não tinha a menor intenção de voltar a comer carne. Rim e córneas: Homem morre após contrair raiva em transplante nos EUA; outros três também receberam órgãos Novo estudo: Gatos compartilham genes do câncer com humanos e podem impulsionar pesquisas Sem ideias de como orientá-la sobre fontes de proteína vegana, a médica sugeriu que ela recorresse ao ChatGPT. Algumas semanas depois, Bernstein digitou seus objetivos no ChatGPT pelo iPad e se surpreendeu com a rapidez com que a ferramenta produziu sugestões de cardápios ricos em proteína, listas de compras e instruções de preparo de refeições que incluíam lentilhas, quinoa, proteína em pó e sementes de chia. — Foi como um livro de receitas feito sob medida para mim — disse Bernstein, que mora em Harbor Springs, no estado de Michigan. As respostas pareciam realmente compreendê-la, afirmou. Desde o lançamento do ChatGPT, em 2022, os chatbots se tornaram uma fonte popular de informações sobre saúde. Em uma pesquisa com mais de 5.500 adultos americanos publicada em abril, um em cada quatro entrevistados afirmou ter usado recentemente chatbots para obter orientações de saúde. Outra pesquisa, publicada em janeiro, constatou que, entre mil adultos americanos, um terço relatou ter utilizado o ChatGPT ou outra ferramenta baseada em inteligência artificial para criar planos de alimentação ou emagrecimento. Recentemente, o New York Times pediu aos leitores que compartilhassem suas experiências com o uso de chatbots para obter ajuda com nutrição. Mais de 500 pessoas responderam. Os relatos foram amplamente positivos, com muitos destacando a capacidade das ferramentas de fornecer conselhos rápidos e úteis. Especialistas em nutrição afirmam que, embora os chatbots possam ser úteis para tarefas simples, como sugerir refeições, eles também podem induzir as pessoas ao erro. A seguir, alguns dos relatos compartilhados pelos leitores, além da avaliação de especialistas sobre as promessas — e os riscos potenciais — de confiar em chatbots para obter orientação nutricional. As vantagens: planejamento de refeições, acompanhamento de nutrientes e responsabilidade Depois que Vanessa Crain, de 47 anos, recebeu o diagnóstico de doença cardíaca em 2025, prometeu levar a alimentação mais a sério. Por recomendação do cardiologista, ela começou a seguir a dieta DASH, considerada saudável para o coração e baseada em frutas, vegetais e grãos integrais. Durante horas nos fins de semana, ela analisava livros de receitas e planejava as refeições da semana — tarefas que rapidamente se tornaram pesadas diante das obrigações profissionais e familiares. Então, Crain, professora de jardim de infância em Longwood, na Flórida, delegou esse planejamento ao Claude, outro chatbot de IA. Após apenas uma semana seguindo as sugestões da ferramenta, ela disse que se sentia uma pessoa diferente, com mais energia e menos vontade de consumir alimentos ultraprocessados. O chatbot chegou a recomendar opções mais saudáveis de comida pronta para os dias em que ela não tinha tempo de cozinhar. Em dois meses, perdeu quase cinco quilos. Segundo a médica Lisa Oldson, especialista em medicina da obesidade da Escola de Medicina Feinberg, da Universidade Northwestern, o esforço mental necessário para decidir o que comer costuma ser o aspecto mais difícil de manter uma alimentação saudável. Na própria prática clínica, Oldson utiliza inteligência artificial. Ela orienta pacientes sobre como usar chatbots para melhorar a alimentação e também usa o ChatGPT para estimar o conteúdo nutricional das refeições registradas pelos pacientes, como níveis de proteína e fibras. Andrew Weir, de 50 anos, professor de jardim de infância em Arvada, no Colorado, usa o ChatGPT para monitorar a quantidade de sódio e potássio consumida no controle da pressão arterial. Segundo ele, a ferramenta o ajudou a fazer mudanças como reduzir o consumo de salgadinhos, sanduíches industrializados e nuggets de frango, além de aumentar a ingestão de brócolis, espinafre e bananas. Essas alterações contribuíram para diminuir sua pressão arterial. Weir também pede ao ChatGPT que o lembre toda sexta-feira de que pode haver donuts na sala dos funcionários e que talvez seja melhor não exagerar. Segundo ele, isso o ajudou a consumir menos doces. Proteínas: médico responde dúvidas dos leitores do Vida Boa, novo projeto do GLOBO Usar chatbots como parceiros de responsabilidade pode ser um uso muito positivo da tecnologia, afirma Wesley McWhorter, nutricionista em Houston. No entanto, ele alerta para sinais de que os lembretes estejam se tornando rígidos demais ou provocando ansiedade, pois isso pode causar mais prejuízos do que benefícios. Os riscos: orientações imprecisas e, às vezes, prejudiciais Os chatbots são práticos e rápidos, mas ocasionalmente oferecem conselhos extremamente ruins, afirma Nick Tiller, pesquisador especializado em desinformação na área da saúde do Instituto Lundquist, em Torrance, Califórnia. Alex Rawdin, de 39 anos, consultor financeiro da Filadélfia, pediu recentemente ao chatbot Tomo ajuda para emagrecer. Após várias semanas seguindo a dieta cetogênica — rica em gordura e pobre em carboidratos — recomendada pela ferramenta, lembrou-se de que seu médico havia orientado limitar o consumo de proteína animal devido a cálculos renais. Quando informou isso ao chatbot, recebeu a recomendação de interromper a dieta. Rawdin afirmou que gostaria que a ferramenta tivesse perguntado sobre seu histórico médico antes de sugerir o plano alimentar. — Acabei meio que ridicularizando o chatbot — contou. — Depois percebi que estava falando com uma máquina. O Tomo não respondeu ao pedido de comentário feito pelo New York Times. Os chatbots não são treinados para avaliar o histórico de saúde nem para exercer julgamento clínico da forma como profissionais de saúde fazem, explica Dawn Clifford, nutricionista e professora de Ciências da Saúde da Universidade do Norte do Arizona. Em um estudo publicado em março, pesquisadores da Turquia pediram a cinco chatbots populares que elaborassem planos alimentares de três dias para adolescentes fictícios de 15 anos com sobrepeso ou obesidade que desejavam emagrecer. Em média, os cardápios gerados continham cerca de 700 calorias diárias a menos do que os elaborados por uma nutricionista da equipe de pesquisa. Os autores concluíram que, se seguidas por longo prazo, essas orientações poderiam aumentar o risco de desnutrição e transtornos alimentares entre adolescentes. Shelley Wood, nutricionista especializada em gastroenterologia em San Jose, Califórnia, afirma que frequentemente atende pacientes que seguem dietas desnecessariamente restritivas com base em sugestões de chatbots. Ela relatou o caso de um paciente que, após diversas conversas com o ChatGPT, passou meses consumindo apenas mamão, espinafre, frango e ovos para aliviar sintomas como inchaço e dores estomacais. Segundo Wood, o paciente perdeu uma quantidade preocupante de peso e desenvolveu fadiga e queda de cabelo. Comportamento: O que a psicologia diz sobre as pessoas que sempre escutam as mesmas músicas Seguir orientações nutricionais de um chatbot pode ser algo inofensivo ou até mesmo catastrófico, afirma Tiller. Em um estudo publicado em abril, ele e seus colegas apresentaram diversas perguntas relacionadas à saúde a cinco chatbots. Entre as 50 respostas ligadas à nutrição, 72% foram classificadas como ineficazes ou potencialmente prejudiciais caso fossem seguidas. Como os modelos de inteligência artificial evoluem rapidamente, é provável que os chatbots forneçam respostas mais adequadas hoje do que na época da pesquisa, realizada em fevereiro de 2025, disse Tiller. Ainda assim, ele considera improvável que todos os problemas tenham sido resolvidos. Segundo o pesquisador, os chatbots são tão bons quanto os dados com os quais foram treinados. Essas bases incluem livros, sites, estudos científicos, publicações em redes sociais e discussões no Reddit, algumas delas contraditórias ou imprecisas. — Basta uma pequena quantidade de desinformação para confundir um chatbot — afirmou. Ainda assim, eles costumam responder com confiança e autoridade, mesmo quando as respostas são questionáveis. Raramente admitem que não têm uma boa resposta, o que dificulta perceber quando o conselho está errado. Drew Pusateri, porta-voz da OpenAI, empresa responsável pelo ChatGPT, afirmou por e-mail que os chatbots não foram desenvolvidos para substituir atendimento médico. Uso com cautela Apesar dos riscos, muitos leitores demonstraram gratidão pelas orientações recebidas dos chatbots. Alguns disseram que as ferramentas oferecem algo que médicos e outros profissionais de saúde nem sempre conseguem proporcionar: apoio imediato, a qualquer hora do dia, sem necessidade de consulta ou pagamento. Não há dúvida de que os chatbots podem ser úteis, afirma McWhorter. Mas, se a pessoa estiver recorrendo a eles para diagnosticar ou controlar doenças, ou para receber orientações sobre suplementos e mudanças alimentares significativas, o ideal é verificar as informações com um médico. Surto de ebola: Diretor da OMS visita capital da República Democrática do Congo antes de viajar à cidade epicentro da epidemia Se possível, acrescenta ele, vale marcar uma consulta com um nutricionista. Esses profissionais recebem muito mais treinamento em nutrição do que a maioria dos médicos e costumam oferecer consultas mais longas. Clifford recomenda ainda pedir aos chatbots que forneçam referências e verificar se elas vêm de fontes confiáveis, como instituições acadêmicas, periódicos revisados por pares ou organizações de saúde, como a American Heart Association ou a Academy of Nutrition and Dietetics. Ela também sugere testar o mesmo pedido em diferentes chatbots. Respostas divergentes podem indicar que pelo menos uma delas está incorreta. A principal conclusão, segundo Tiller, é que os chatbots devem ser usados com cautela. Eles não são “oráculos oniscientes”.
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