Jornal O Globo
No sexto dia de julgamento de Jairo Souza Santos Júnior, o ex-vereador Jairinho, e de Monique Medeiros, réus pela morte do menino Henry Borel, em 2021, a segunda testemunha a ser ouvida seria a babá que cuidava da criança na época. Arrolada pela defesa de Monique, Thayná de Oliveira Ferreira chegou ao fórum por volta das 21h ao 2° Tribunal do Júri, no Centro do Rio. Uma hora e meia depois, porém, sua advogada, Juliana Nascimento, informou que ela não prestaria mais depoimento nesta noite. O adiamento ocorreu após o primeiro depoimento, do engenheiro mecânico Bryan Medeiros da Costa e Silva, irmão de Monique, ter durado mais de oito horas, com início às 15h15 e encerramento após as 23h. De acordo com a defesa de Thayná, a profissional pretende se retratar por ter mentido sobre o caso em depoimento à polícia. Ela apresentou diferentes versões sobre o caso e, por isso, responde a um processo testemunho. Em meio ao interrogatório de Bryan, às 21h54, a sessão chegou a ser interrompida após a juíza Elizabeth Machado Louro, que preside o julgamento, passar mal. Mas foi retomada seis minutos mais tarde, após a magistrada receber atendimento médico. — Estamos à disposição do tribunal desde quarta-feira. Hoje, pediram para Thayná vir, porém a primeira testemunha está sendo ouvida desde as 15h. A juíza não se sentiu bem. Dispensou a Thayná, que será a primeira ser ouvida amanhã — disse a advogada Juliana Nascimento. — Thayná vai se retratar. Ela foi coagida por Monique a mentir. Três versões Ao longo do processo, Thayná apresentou ao menos três versões sobre o episódio. No primeiro depoimento que prestou, em 24 de março de 2021, a babá negou ter presenciado qualquer anormalidade na família e garantiu que eles viviam em harmonia. Na ocasião, ela contou costumar dar banho em Henry, definido por ela como uma criança “boa” e “perfeita”, e garantiu nunca ter visto qualquer marca de violência em seu corpo. Em novo depoimento, em 12 de abril, Thayna disse que, por medo, havia mentido . Na ocasião, Monique e Jairinho já estavam presos temporariamente e os peritos já haviam recuperado mensagens que mostraram ela avisando em tempo real a Monique as agressões de Jairinho contra Henry. Ela afirmou que, "por ter visto o que Jairinho tinha feito contra uma criança, ficou com medo que algo também pudesse acontecer com ela própria". Ela afirmou, ainda, que a avó materna do menino, a professora Rosângela Medeiros da Costa e Silva, tinha conhecimento das agressões sofridas por Henry. A funcionária disse ter presenciado agressões de Jairinho contra Henry em três momentos , inclusive a narrada a patroa por WhatsApp, em 12 de fevereiro. Nas mensagens, ela dizia que o vereador havia se trancado no quarto com Henry, e logo depois o menino relatou que recebeu "bandas" e "chutes" . A criança estava mancando e apresentava hematomas nos braços e nas pernas. A análise das mensagens trocadas por Thayna revelam que aquelas não foram as primeiras situações de violência à qual Henry fora submetido e ainda que as agressões seriam "bem mais graves do que foi narrado por ela em sede policial". Nas conversas, ela chega a afirmar ao pai e ao namorado que, tamanho o desespero de Henry ao ver Jairinho, fez com que a criança chegasse a rasgar sua blusa (“Ele gritava horrores”, escreveu). Ela ainda contou ter ganho R$ 100 do ex-vereador para "ficar quieta". No dia 6 de outubro de 2021, ao prestar depoimento como a sétima testemunha de acusação na primeira audiência de instrução do julgamento do caso, Thayna negou que tivesse tido conhecimento de agressões contra o menino. Ela disse não se lembrar das mensagens de seu celular e relatou ter sido direcionada por Monique a dizer que ela, Jairinho e Henry tinham "uma família linda, de (comercial de) margarina". Irmão defende "inocência" de Monique Bryan Medeiros da Costa e Silva contou sobre a reação da ré ao saber da morte de Henry. De acordo com Bryan, Monique teria ficado "fora de si" e expressado interesse em tirar a própria vida, "para ficar perto de Henry", ao que o pai dela teria respondido: "Não tire sua vida. Se você fizer isso, não vai encontrar Henry", relatou Bryan. Mais adiante, durante o interrogatório, a defesa de Jairinho fez uma série de questionamentos a Bryan, incluindo perguntas sobre contradições nos laudos do Instituto Médico Legal, na tentativa de sugerir que Leniel Borel, pai da criança, teria manipulado os peritos que produziram os documento, tese sustentada pela defesa de Jairinho desde o início do processo. Durante a oitiva, Bryan corroborou a tese de que Jairo foi o autor das agressões que levaram à morte de Bryan. A defesa de Jairinho, então, argumentou que o mesmo inquérito policial que Bryan usa como base para imputar Jairinho também indicia Monique. E perguntou: "Então, o senhor concorda com o inquérito em relação ao Jairo, mas não em relação à Monique". Ao que Bryan respondeu: — O que o senhor está tentando sugerir é que o inquérito policial é o único elemento para que eu possa concluir dessa forma, mas não é. Nas mensagens interceptadas de Thayná, ela, ao falar com o noivo, por exemplo, é categórica ao falar das sessões de agressão a que Monique e Henry eram submetidos. O advogado Zanone Manoel de Oliveira Júnior, da equipe de Jairinho, disse que não há registro sobre as agressões em nenhuma delegacia. E Bryan argumentou que Monique poderia não ter total consciência da situação de violência que estava vivendo: — Ela não fazia acompanhamento psicológico. E, na época, não tinha condições de identificar que aquela situação era de agressão e que estava vivendo um relacionamento tóxico. Por fim, Bryan foi interrogado pelo promotor do Ministério Público Fábio Vieira, que reforçou que o que pesa contra Monique é que ela "sabendo de toda a situação, preferiu fingir que não sabia de nada e entregar seu sobrinho como oferenda", disse o promotor. Fábio Vieira relembrou que, ao ser alertada por Leniel Borel, pai de Henry, de que o menino reclamou de um "abraço apertado" de Jairinho, Monique disse que a criança "sonhou com a situação", numa tentativa de "proteger Jairo". O promotor citou ainda outras situações, como a ocasião em que Monique estava no salão e recebeu uma ligação da babá Thayna dizendo que Jairo estava trancado com Henry no quarto, com música alta, e, em seguida, a criança saiu mancando e chorando. — Não tenho conhecimento de que ela tentou minimizar as situações de agressão — respondeu Bryan. — Ela jamais permitiria que ele sofresse agressão; ela jamais seria conivente com a tortura e a morte do filho dela. Infelizmente, foi criada uma campanha difamatória contra ela, com ataques deliberados de pessoas que não a conhecem. Outras testemunhas que seriam ouvidas nesta noite são Rosângela Medeiros da Silva e Costa, mãe de Monique, e Ana Paula Medeiros Pacheco, prima da ré. Mas a defesa de Monique optou por dispensá-las. Cronologia do julgamento Até esta manhã, 13 das 27 testemunhas previstas já haviam sido ouvidas pelos jurados. Entre elas estão testemunhas de acusação, do juízo e peritos considerados centrais para a reconstrução da morte de Henry Borel. Na segunda-feira, o julgamento foi iniciado após tentativa da defesa de Jairinho de adiar o julgamento, apontando um dos motivos o infarto do advogado Fabiano Tadeu Lopes, o principal responsável pela estratégia jurídica do réu. Na terça, prestou depoimento as primeiras testemunhas de acusação, o delegado Edson Henrique Damasceno, titular da 16ª DP (Barra da Tijuca) quando Henry morreu, em março de 2021, e da delegada Ana Carolina Lemos Medeiros de Caldas, ambos responsáveis pelas investigações do caso. No mesmo dia, Fabiano Lopes anunciou que voltaria à banca de defesa de Jairinho. O terceiro dia, na quarta-feira, foi marcado por embates entre acusação e defesa e depoimentos que detalharam os últimos momentos de vida de Henry Borel. Ao longo da tarde e da noite, os jurados ouviram o psiquiatra Rafael Bernardon e a médica Maria Cristina Souza Azevedo, responsável pelo atendimento do menino no Hospital Barra D’Or na noite da morte. Durante a sessão, a defesa questionou a atuação de testemunhas da acusação e a condução do julgamento, enquanto a médica relatou a reação de Monique após a confirmação do óbito e as tentativas de reanimação de Henry. Já a quinta-feira teve o retorno do advogado que infartou, Fabiano Tadeu Lopes, e depoimentos com relatos de supostas agressões atribuídas ao ex-vereador, contradições em depoimentos de testemunhas e novos momentos de tensão no plenário. Uma das testemunhas ouvidas foi Kaylane Pereira, filha de uma ex-namorada de Jairinho. Hoje maior de idade, ela relatou episódios de agressões que afirma ter sofrido quando era criança. A sexta-feira se destacou pelo fortalecimento da linha de acusação sobre a morte de Henry Borel. Ao longo da sessão, o perito criminal Luiz Carlos Leal Prestes e o médico-legista Luiz Airton Saavedra descartaram a hipótese de acidente doméstico, rejeitaram a tese de que as lesões poderiam ter sido causadas por manobras de reanimação e apontaram sinais compatíveis com agressões sofridas pela criança. Os especialistas também reforçaram a conclusão de que Henry já estava morto quando chegou ao Hospital Barra D’Or. O dia ainda foi marcado pela saída dos dois réus do plenário por alegados problemas de saúde e pelo depoimento de Leniel Borel, pai do menino. Até o momento, já foram ouvidos o delegado Edson Henrique Damasceno; a delegada Ana Carolina Lemos Medeiros de Caldas; o psiquiatra Rafael Bernardon Ribeiro; a médica Maria Cristina de Souza Azevedo; Kaylane de Oliveira Duarte Pereira; Natasha de Oliveira Machado; Débora Mello Saraiva; a empregada Leila Rosângela de Souza Mattos; a cabeleireira Tereza Cristina dos Santos; a manicure Paloma dos Santos Meireles; o perito Luiz Carlos Leal Prestes; o médico-legista Luiz Airton Saavedra de Paiva; Leniel Borel de Almeida Júnior; o irmão de Monique, o engenheiro mecânico Bryan Medeiros da Costa e Silva; e a babá Thayná de Oliveira Ferreira. A morte Henry Borel morreu em 8 de março de 2021, aos 4 anos, após dar entrada no Hospital Barra D’Or, na Barra da Tijuca, com múltiplas lesões internas e em parada cardiorrespiratória. Jairinho e Monique respondem por homicídio triplamente qualificado, tortura, coação no curso do processo, fraude processual e falsidade ideológica. Segundo a denúncia do Ministério Público, o menino foi submetido a agressões dentro do apartamento onde morava com a mãe e o então padrasto, na Zona Oeste do Rio.
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