Jornal O Globo
Fora da Copa do Mundo por causa de uma lesão grave no joelho direito, que o tirou de ação em março, Rodrygo ainda é o artilheiro do atual ciclo da seleção brasileira, com oito gols em 22 jogos. Agora, tem se acostumado a ser apenas torcedor. Algo que remete ao vínculo de infância com a “amarelinha”, quando sonhava defender o Brasil. Em entrevista exclusiva ao EXTRA, o atacante do Real Madrid, de 25 anos, elogia a despedida da equipe no Maracanã antes do embarque para os EUA, relembra momentos marcantes com a seleção e destaca o apoio recebido do técnico Carlo Ancelotti, a quem define como uma “pessoa especial” e um líder admirado pelos jogadores. Você vestiu a camisa 10 e se tornou artilheiro deste ciclo da seleção. Qual é sua relação com a “amarelinha”? Seleção brasileira é sinônimo de orgulho. Antes de tudo, sinto orgulho por ser brasileiro e sempre torcer por uma seleção que representa a nossa cultura como algo bonito, vencedor, mágico, alegre, unido, batalhador. E sinto um orgulho difícil de traduzir em palavras por vestir a camisa da seleção como jogador. É um orgulho que vem do garoto de Osasco (SP) que vestia a camisa falsa da seleção e sonhava ser jogador profissional. E um sonho, quando é vivido na realidade, acaba sendo compartilhado com todos que fazem parte da nossa vida e que gostam da gente: família, amigos, equipe de trabalho, fãs e companheiros. Essa despedida no Maracanã tem como objetivo aproximar ainda mais a seleção do povo. Gostou da ideia? O Maracanã é o estádio que representa o nosso futebol no mundo e uma das casas da seleção. A ideia foi perfeita porque todo o grupo, a comissão técnica e o estafe da seleção vão viajar recebendo um grande abraço da torcida, dentro do Maracanã e nas ruas, no caminho até o estádio, quando dá para sentir esse clima e a energia do povo. Que memórias tem de jogos pelo Brasil no país? Meu primeiro jogo da seleção no estádio foi como torcedor, naquele 3 a 0 contra o Paraguai na Arena Corinthians (gols de Neymar, Coutinho e Marcelo, em 28 de março de 2017, pelas Eliminatórias da Copa de 2018). Antes, a gente não tinha condições de ir. Fui com meu pai e vi que o clima é especial, uma energia diferente, com todas as torcidas dos clubes torcendo juntas pelo mesmo time. É a hora em que todos nós temos as mesmas cores. Quando passei a ter a honra de vestir a “amarelinha”, pude receber o carinho da torcida, o que me fez voltar no tempo e lembrar do que eu sentia quando assistia pela TV. A gente quer ver a seleção campeã sempre, mas percebi que a relação de amor do povo não depende só dos títulos. As pessoas querem ser parte, receber um aceno, uma foto, um abraço. Querem ver o ônibus passando e mostrar que estão juntas. O Brasil todo quer a seleção na sua cidade. Sempre tive uma recepção muito linda em Belém, Brasília, Cuiabá, São Paulo, Curitiba, Rio... não importa a região. E isso tudo me leva até a primeira convocação, quando eu corria pela casa com uma camisa falsa do Brasil e o moicano do Neymar, gritando: “Eu vou jogar pela seleção brasileira”. Esse sentimento continua sendo o mesmo. Em 2023, quando a seleção era questionada após a Copa, você defendeu o Brasil no Maracanã, diante da Argentina, tanto na disputa do jogo quanto nas discussões e confusões que aconteceram. Foi um momento marcante? Vestir a camisa da seleção é sempre marcante. No Maracanã? Ainda mais. Contra a Argentina? Ainda mais. E estou ali para defender o time e o meu país com todas as minhas forças. Antes e depois dos jogos, os adversários voltam a ser colegas de profissão, amigos. Já com a bola rolando, cada um faz o seu, e eu vou sempre colocar tudo o que tiver para defender a seleção. O resultado, não podemos prever, mas a dedicação e a postura nós temos que garantir, entregando tudo ali no campo. E como torcedor, que vai acompanhar a Copa de fora em função da lesão, de que forma se comporta? Fica tenso, corneta na TV, chuta em falso? Sou um torcedor como qualquer brasileiro. Fico nervoso, concentrado no jogo, vendo os lances, querendo que o Brasil faça os gols. E, quando sai gol, vem aquela mistura de felicidade com alívio porque sei que o país inteiro espera que a seleção vença e seja a melhor do mundo. No intervalo e depois do jogo, até penso no que aconteceu com a visão de jogador, mas ali na hora é torcer e passar coisas boas para o time. Como tem se sentido nesse processo de recuperação? Como faz para manter a cabeça boa? Quando aconteceu a lesão e soube o resultado do exame, é claro que veio uma tristeza enorme. Eu estava presente no ciclo todo e, perto da Copa, acabei passando por isso. Mas logo veio uma força enorme de dentro do meu coração, uma certeza de que a vida segue e de que vou me recuperar e continuar indo atrás dos meus sonhos. Minha fé me fortaleceu. Aí tem a importância da presença incondicional da família, das tantas e tantas mensagens de apoio, das conversas com pessoas importantes na minha vida, da postura incrível do Real Madrid, das ligações do pessoal da CBF, da seleção e dos jogadores, companheiros de time ou não. Hoje tenho certeza de que voltarei mais forte, me dedicando como sempre fiz para conseguir meus objetivos. Você continua no grupo de zap da seleção? Tem contato com os jogadores nas resenhas virtuais? O que poderia falar desse grupo como um todo e do Ancelotti? Tenho contato com vários jogadores. A gente se fala, comenta algumas coisas, troca ideia de futebol e outros temas. Recebi muitas mensagens e ligações de apoio, preocupação e otimismo. Sobre o Ancelotti treinador nem temos o que acrescentar, né? Todo mundo conhece a história vitoriosa dele e fiquei feliz demais quando assumiu a seleção. O que eu faço questão de falar sempre é do Ancelotti ser humano, do cara que me ajudou a enfrentar desafios enormes e me apoiou nos momentos mais difíceis. É uma pessoa especial. Sabe liderar no ambiente às vezes difícil do futebol, e nós, jogadores, somos privilegiados em tê-lo como treinador.
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