Jornal O Globo
Um relatório da ONG Greenpeace, divulgado nesta segunda-feira, denuncia que a Permissão de Lavra Garimpeira (PLGs) — um instrumento legal que atesta a procedência do ouro — vem sendo utilizada para “lavar” minério extraído ilegalmente na Amazônia. A organização alerta que a prática aproveita de “falhas graves” na fiscalização da Agência Nacional de Mineração (ANM) e da dispensa de pesquisa mineral prévia para o sucesso da ação. Segundo o Greenpeace, o sistema fraudulento vem permitindo a expansão da prática criminosa no bioma “há anos”, inclusive sobre Terras Indígenas (TIs) e Unidades de Conservação (UC). 'A gente tem que expulsar': Cacique prepara grupo para conter avanço de 200 garimpeiros em reserva na Amazônia Entenda: Mudanças recentes na legislação enfraquecem contenção do país aos efeitos do 'Super El Niño', alertam ambientalistas Os dados presentes no relatório “Lavagem de ouro na Amazônia: anatomia de uma fraude”, que serão apresentados na Semana do Clima do Rio de Janeiro, revelam um esquema que coloca em risco a floresta, na visão da ONG. O documento afirma que, entre 2018 e março de 2026, 98 PLGs com irregularidades permitiram a comercialização de 25,3 toneladas de ouro. Em valores atualizados, o comércio deste material renderia R$ 18,4 bilhões. O cálculo foi realizado com valores atualizado do ouro 24 quilates, o ouro puro, na primeira quinzena de maio deste ano, equivalente a R$ 728,17 por quilo. O relatório pondera que a pesquisa foi publicada em um contexto de “crise e instabilidade política geradas por guerras que têm elevado o preço do ouro no mercado internacional”. — O avanço do garimpo na Amazônia, em especial sobre Terras Indígenas e Unidades de Conservação, deve ser analisado dentro de um contexto amplo: é preciso conectar instabilidade geopolítica com constante valorização do ouro nos mercados internacionais, mas também com o fato dessa atividade encontrar no Brasil um ambiente institucional particularmente permissivo, em que fragilidades regulatórias e de fiscalização permitem que o ouro ilegal seja incorporado à economia global com aparência de legalidade — alerta o coordenador da frente de Povos Indígenas do Greenpeace Brasil, Danicley de Aguiar. Garimpos 'fantasmas' e 'industriais' A investigação do Greenpeace ocorreu por meio da análise de dados históricos da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM) e da base de processos minerários da Agência Nacional de Mineração, bem como de imagens de satélite e de sobrevoos de validação. Ao todo, a ONG analisou 187 processos minerários registrados entre 2018 e março de 2026, onde foram identificadas as 98 PLGs com irregularidades. Os casos listados são agrupados em dois grupos pelo Greenpeace: Garimpos fantasmas: áreas que declaram toneladas de produção de ouro, mas imagens de satélite e sobrevoos mostram que a floresta está intacta, ou com pouca atividade garimpeira, demonstrando que o ouro declarado pela PLG não veio daquela área; Garimpos em escala industrial: arranjos em que múltiplas PLGs, concedidas na mesma área, são exploradas de modo a sugerir uma única operação. Isso permite escapar do licenciamento ambiental mais rigoroso e das regras aplicáveis à mineração industrial, além de facilitar a lavagem de ouro. Um dos casos destacados pela ONG diz respeito a uma PLG em Itaituba, no Pará, que, com apenas 1,08 hectares, registrou a comercialização de 776,68 kg de ouro entre 2018 e 2020. Segundo o relatório, imagens de satélite e de sobrevoo do Greenpeace Brasil, no entanto, “mostraram a área completamente preservada, sem qualquer sinal de atividade garimpeira, o que demonstra que o ouro declarado não foi retirado desta área”. Os pesquisadores também destacam que o índice de produtividade calculado, de 719,15 kg por hectare, é considerado extremo segundo os critérios do próprio estudo. 'Capturada pela ilegalidade' O Greenpeace avalia que a PLG, instituída em 1989 visando regulamentar e controlar a atividade garimpeira, “acabou capturada por esquemas ilícitos de lavagem de ouro na Amazônia”. Isso se dá, segundo o relatório, porque o “próprio titular da PLG quem declara quanto ouro extraiu no local, e todo a quantidade pode ser aceito como real”. “Não há nenhum parâmetro técnico confiável para avaliar o potencial produtivo real das áreas concedidas por PLGs, o que dificulta a rastreabilidade do metal e abre espaço para que o ouro extraído de Terras Indígenas e de outras áreas protegidas seja registrado como se tivesse origem legal”, pontua o Greenpeace. O estudo aponta também que, apesar da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), em 2025, que derrubou a chamada “presunção de boa-fé” no comércio de ouro, os “mecanismos de lavagem continuam operando”. “Até então, as distribuidoras autorizadas pelo Banco Central a comprar ouro podiam aceitar como verdadeiras as informações fornecidas pelos vendedores, sem necessidade de verificação rigorosa da origem do metal”, ressalta o relatório, que defende ser insuficiente o avanço promovido pela Corte “diante das lacunas que ainda persistem no sistema de rastreabilidade do ouro”. A ONG recomenda, então, que as autoridades adotem: A exigência de pesquisa mineral prévia antes da concessão de PLGs; A identificação e cancelamento imediato de PLGs que tenham efetuado o recolhimento da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM), mas não apresentem evidências claras de exploração.
Go to News Site