Jornal O Globo
Apenas um dia depois de um menino de 11 anos ser mordido por um tubarão na Praia de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes (PE), uma mulher de 19 anos também foi atacada por um animal da espécie na praia de Boa Viagem, na Zona Sul do Recife, nesta segunda-feira. Com esse caso, o número de registros de incidentes com tubarões no estado subiu para 84, conforme indicam os dados do Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit). Leia mais: Bombeiros recolhem corpo no mar de Ilhabela; vítima pode ser homem que caiu de moto aquática São Paulo: Homem é detido após quebrar vidros de trem do Metrô de São Paulo A vítima perdeu um dos membros inferiores devido a mordida. Em nota, o Corpo de Bombeiros disse ter sido acionado na tarde desta segunda-feira para atender a ocorrência. A jovem foi retirada da água e recebeu atendimento pré-hospitalar ainda no local. Ela posteriormente foi levada para o Hospital Alfa, onde foi estabilizada e depois levada para o Hospital da Restauração. Esse foi o segundo ataque no estado no intervalo de 24 horas. O primeiro aconteceu na praia vizinha de Jaboatão dos Guararapes. A vítima foi identificada como um menino de 11 anos. Segundo o Cemit, há indícios de que o animal envolvido tenha sido um tubarão-cabeça-chata. O ataque aconteceu por volta das 13h40. O menino sofreu ferimentos na coxa e na mão esquerdas e foi retirado da água por banhistas, que acionaram o Corpo de Bombeiros. Após o atendimento inicial, ele foi encaminhado ao Hospital da Restauração, no Recife, onde seguia sob cuidados de uma equipe multiprofissional. O estado de saúde não havia sido informado até a última atualização do caso. Área concentra maior risco de ocorrências Dos 83 incidentes registrados em Pernambuco, 69 ocorreram no Grande Recife e 14 em Fernando de Noronha. De acordo com o Cemit, o primeiro caso documentado pelo órgão também aconteceu na Praia de Piedade. Embora o estado tenha cerca de 187 quilômetros de litoral, a faixa considerada de maior risco está concentrada em aproximadamente 33 quilômetros entre a Reserva do Paiva, no Cabo de Santo Agostinho, e a Praia do Farol, em Olinda. O trecho onde ocorreu o ataque está inserido na área abrangida pelo decreto estadual nº 21.402, de 1999, que alerta para o risco de incidentes com tubarões. Há ainda uma faixa de 2,2 quilômetros entre a Igrejinha de Piedade e o Hospital da Aeronáutica onde o banho de mar é proibido. O último incidente registrado em Piedade havia ocorrido em março de 2023. Na ocasião, um adolescente de 14 anos perdeu uma das pernas após ser atacado no local. No dia seguinte, uma adolescente de 15 anos teve o braço esquerdo amputado após entrar no mar na mesma área. Em janeiro deste ano, o governo de Pernambuco lançou um edital para retomar o monitoramento de tubarões em toda a costa continental do estado, atividade que estava interrompida desde 2015. Atualmente, o acompanhamento ocorre apenas em Fernando de Noronha, sob responsabilidade da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). O projeto prevê investimento superior a R$ 1 milhão ao longo de dois anos e tem como objetivo ampliar o monitoramento e a produção de dados sobre a presença desses animais no litoral pernambucano. A expectativa do governo estadual é que a atividade volte a ser executada em toda a costa continental, reforçando o acompanhamento de uma das áreas do país historicamente associadas a incidentes com tubarões. Qual a origem dos casos? O oceanógrafo Marcelo Szpilman, diretor do AquaRio, explica que o aumento nas ocorrências remonta aos anos 90 e são uma consequência da inauguração do porto de Suape anos antes. As obras afetaram a vida marinha local ao destruir manguezais, diminuindo o acesso dos tubarões a alimento, e dificultar acessos aos rios usados pelas fêmeas da espécie cabeça-chata para parir filhotes. A população de tubarões migrou, então, para a área do Grande Recife, onde os incidentes como os desta semana acontecem. — Em 1992 aconteceu um pico de 14 ataques. Você tem um animal naturalmente mais agressivo que busca alimento em uma área de água turva onde há pessoas — diz Szpilman. O oceanógrafo afirma que as piores mordidas, em geral, são feitas pelas fêmeas cabeça-chata quando estão se preparando para parir e se aproximam da areia. Nesse momento, os animais estão mais estressados. As ocorrências mais comuns, no entanto, tendem a ser menos graves e — Em Boa Viagem, há um canal submarino que passa muito rente à praia. É exatamente na beirada dele que se tem a melhor formação de onda. Você tem o surfista e o tubarão buscando o peixe, que pode dar a mordida investigatória. Ele percebe que não é o que queria e vai embora — diz o oceanógrafo. Na avaliação de Szpilman, é importante que banhistas sigam a orientação das placas e evitem entrar na água nessas regiões. Ele explica que os ataques costumam ocorrer com turistas, indicativo que as iniciativas de consientização da população funcionaram. — Repare que, nos dois casos de ataques (recentes), ambos sao jovens. E os jovens tendem a acreditar que nada acontece com eles. Respeitar as placas e áreas de risco e seguir as orientações de segurança são atitudes fundamentais para evitar acidentes. Mas os jovens acham que com eles não acontece
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