Jornal O Globo
O governo iraniano anunciou nesta segunda-feira a suspensão das conversas com os EUA em torno de um acordo para encerrar a guerra lançada pelo presidente Donald Trump em fevereiro, citando a intensificação dos ataques de Israel no Líbano e também na Faixa de Gaza, onde em tese vigora um cessar-fogo desde o ano passado. Em suas redes sociais, Trump disse ter pedido que israelenses e também o Hezbollah — sem especificar como foi o contato com o grupo — que parassem com os enfrentamentos, mas a proposta tem poucas chances de prosperar. Oportunidade perdida: Como a guerra entre EUA, Israel e Irã enterrou a melhor chance de desarmar o Hezbollah no Líbano Guga Chacra: O castelo cruzado e a ampliação da ocupação israelense no Líbano Na rede social X (proibida no Irã), o chanceler iraniano, Abbas Araghchi, declarou que a trégua firmada com Washington em abril “é inequivocamente um cessar-fogo em todas as frentes, incluindo no Líbano”, e que a violação em uma das frentes vale para todas. Mohammad Bagher-Ghalibaf, presidente do Parlamento e negociador-chefe do Irã, declarou que a ofensiva no Líbano, assim como o bloqueio americano aos portos, “era uma clara evidência do descumprimento americano”. A agência Tasnim, ligada à Guarda Revolucionária, expressou ainda o descontentamento com a intensificação dos ataques na Faixa de Gaza — desde o anúncio, em outubro de 2025, de um cessar-fogo, 922 pessoas morreram, segundo as autoridades locais. Na semana passada, o premier de Israel, Benjamin Netanyahu, ordenou que seus militares ocupassem 70% do enclave, em uma violação dos termos da trégua. O Hamas, grupo que controla parte de Gaza, é aliado do Irã. Garoto palestino sentado em escombros de prédio atingido por ataque israelense na Faixa de Gaza Omar AL-QATTAA / AFP No Truth Social, Trump pareceu ignorar as ameaças dizendo que as conversas com “continuam em ritmo acelerado”. No começo do dia, havia dito à rede NBC que o silêncio seria positivo. — Acho que falamos demais, para dizer a verdade. Acho que ficar em silêncio seria muito bom, e isso poderia durar muito tempo — afirmou Trump, acrescentando que os iranianos são “melhores negociadores do que combatentes”. — Isso não significa que vamos sair por aí lançando bombas por toda parte. Apenas vamos ficar em silêncio. Vamos manter o bloqueio. Acho que posso esperar o tempo que eles quiserem. Impasse armado: EUA e Irã trocam novos ataques em meio a entraves em negociações por acordo de paz As intenções iranianas confirmam algo que parece nítido desde a resposta com mísseis ao bombardeio israelense de seu consulado-geral em Damasco, em abril de 2024: Para Teerã, os conflitos na região — Gaza, Líbano, Iêmen e, agora, em seu próprio país — estão interligados, e um acordo duradouro e eficaz deve incluir todos. Neste contexto, o Líbano é o ponto mais sensível. Israel e o grupo Hezbollah (aliado de Teerã) ignoram um cessar-fogo em vigor desde abril, e as forças israelenses ocupam hoje cerca de um quinto do território libanês, expulsando moradores e destruindo vilas, cidades e patrimônios históricos. No domingo, os israelenses invadiram um castelo de 900 anos a cerca de 12 km de sua fronteira, e hastearam uma bandeira ali. O governo de Netanyahu não esconde o plano para criar uma zona tampão no país vizinho, citando questões de segurança. Em resposta, o Hezbollah tem recorrido aos foguetes, mísseis e a uma arma barata, com alto poder destrutivo e que consegue evitar os sistemas de defesa: drones comandados através de um fino cabo de fibra ótica, responsáveis por ações contra tropas e áreas urbanas. Além de explosivos, os veículos transmitem imagens em tempo real, que são usadas como propaganda pelo grupo político-militar. Efeitos amplos: Libaneses estão resignados a enfrentar uma guerra longa, mesmo se acordo entre EUA e Irã for anunciado Nesta segunda-feira, Netanyahu e o ministro da Defesa, Israel Katz, ordenaram bombardeios contra Dahyieh, o distrito ao sul de Beirute que serve como base ao Hezbollah. No comunicado, citam "repetidas e contínuas violações do cessar-fogo no Líbano pela organização terrorista Hezbollah e seus ataques contra nossos civis e cidades", e dizem que "se não houver calma no norte (de Israel), não haverá calma em Beirute". Na semana passada, Bezalel Smotrich, ministro das Finanças, defendeu que “para cada drone que ferir um de nossos soldados, destruam cem edifícios” na capital libanesa. Em uma tentativa de conter a crise, Trump foi às redes sociais dizer que conversou com Netanyahu, que “não haverá tropas a caminho de Beirute”, e surpreendeu ao declarar que teve “uma conversa muito boa com o Hezbollah, e eles concordaram que todos os disparos cessarão”. O grupo figura na lista de organizações terroristas (FTO) do Departamento de Estado desde os anos 1990, e ele não revelou se o diálogo foi direto ou através de intermediários. Ao final da mensagem no Truth Social, Trump prometeu que “Israel não os atacará e que eles (Hezbollah) não atacarão Israel”. Nas primeiras declarações, o Hezbollah afirmou estar de acordo, mas o lado israelense sinalizou que “não há um cessar-fogo”, anunciando que suas tropas "continuarão operando conforme planejado no sul do Líbano". Maiores bombardeios desde 1982: ONU alerta para impacto 'devastador' da ofensiva israelense sobre crianças e adolescentes no Líbano, que segue sob ataques Desde o início das negociações com o Irã, Trump tenta separar as frentes de combate, em boa parte para não frustrar ainda mais um aliado — Netanyahu — que não demonstra interesse em recuar no Líbano ou em reduzir a pegada militar em Gaza. Teerã insiste em uma solução conjunta, sem a mesma pressa do republicano por uma trégua duradoura: nesta segunda-feira, além de suspender as conversas, o regime ameaçou expandir a guerra para outro gargalo econômico, o Estreito de Bab el-Mandeb, na entrada do Mar Vermelho. — A maldade dos sionistas no Líbano e em Gaza, sob a sombra do apoio vergonhoso dos Estados Unidos, determinará a determinação do Eixo de Resistência em ampliar o apoio em ambas as frentes, tomar medidas para ativar outras frentes e igualar a situação do tráfego no Estreito de Bab el-Mandeb com o Estreito de Ormuz — afirmou Esmail Ghaani, chefe das Forças Quds, o braço da Guarda Revolucionária para ações no exterior, citado pela Tasnim. Estreitos de Ormuz e Bab el-Mandeb Editoria de Arte Citado por Ghaani, o Estreito de Bab el-Mandeb foi cenário de ataques das milícias houthis, aliadas do Irã no Iêmen, em ações associadas à guerra na Faixa de Gaza. Por ali passam cerca de 12% do comércio mundial por via marítima, e interrupções, por mais curtas que sejam, causam impactos em escala global: segundo estimativas, incidentes entre 2023 e 2025 custaram cerca de US$ 20 bilhões. Segundo uma análise da rede CNN, publicada nesta segunda-feira, o Irã recuperou o acesso a parte de sua rede subterrânea de bases de mísseis, levantando questões sobre a eficácia dos bombardeios americanos e israelenses. Os dados apontam que as entradas de 50 das 69 instalações atingidas foram reabertas, assim como estradas bloqueadas — em Isfahã, ao menos 18 crateras foram identificadas perto de entradas de bases, e quase todas foram recuperadas. Para especialistas, o país teria centenas de mísseis intactos, prontos para uso caso a guerra recomece. — Eles se prepararam para esse tipo de guerra durante duas décadas. Estão extremamente preparados — ressalta Timur Kadyshev, pesquisador do Instituto para Pesquisa da Paz e Política de Segurança da Universidade de Hamburgo, à CNN. — É necessário empregar armas extremamente sofisticadas e caras para causar esse tipo de dano. Já a recuperação exige tecnologia muito mais simples. São basicamente tratores e escavadeiras.
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