Jornal O Globo
Quando se conheceram, no camarim de um show, Maria Beraldo disse a Zélia Duncan que assistira sete vezes, em 2011, a “Totatiando”, o espetáculo da cantora baseado na obra de Luiz Tatit. Começou ali, em 2024, uma amizade que se desdobrou em “Agudo grave”, primeiro álbum autoral de Zélia em cinco anos, feito com produção de Maria. — Talvez (o álbum) não surgisse agora. Tem muito a ver com a presença dela na minha vida musical, de chegar me desafiando. A Maria é muito interessante como artista, conhece muito de música para alguém que acabou de fazer 38 anos. Há um sotaque de choro no meio daqueles sons que ela inventa. É brasileiro e experimental ao mesmo tempo — exalta Zélia, aos 61 anos de idade e 45 de carreira. Martin Scorsese na capa: O novo álbum do Charli XCX 'Muita confusão': Caetano diz que há excesso de racialização e sexualização no debate político O encontro se deu aos poucos. Maria convidou Zélia para um dueto em “Matagal”, faixa do álbum “Colinho” (2024). Depois, Zélia retribuiu com um convite para Maria participar de três números num show do Blue Note de São Paulo. Um trabalho completamente realizado a dois foi recriar, a convite do Sesc paulista, o disco “Antonio Carlos Jobim em Minas ao vivo”. Zélia, então, resolveu chamar a nova amiga para produzir um álbum seu. Mandou, segundo diz, uma mensagem “convincente”. — Imagina, eu estava convencida há 30 anos! — diverte-se Maria. — A mensagem era quase um release dela. Acho que ela queria experimentar meu universo e encontrar nosso universo comum. Saindo do armário A produtora, clarinetista e também cantora destaca o que a impressionou em “Totatiando”: — Eu estava saindo do armário, com minha primeira namorada. E Zélia, além de ser uma artista incrível, abriu muitos caminhos para a minha geração neste sentido, porque nunca escondeu isso do público. Maria confirma o que Zélia ressalta: recebeu completa liberdade para trabalhar. Seus arranjos não são nada convencionais. Ela fazia vários takes até ficar satisfeita e ainda criava efeitos na pós-produção, dobrando vozes e instrumentos. — A Maria me trouxe o inesperado — resume Zélia. — É claro que não sou boba. Ponho redes bacanas de segurança. Se ninguém gostasse do disco, seria uma espécie de tombo. Mas eu cairia gostoso, porque fiz exatamente o que eu queria. Ela diz não fumar maconha por não gostar, mas que tem ficado levemente fora de si graças às invenções da produtora: — Acho que a Maria ventou no meu disco. Parece que joga um vento, me tira, me leva. Eu me sinto totalmente doidona ouvindo certas coisas. Cicatriz de câncer e metafórica As duas compuseram e gravaram juntas (acompanhadas do violão de João Camarero) “Voz”, que termina com o verso “E as cicatrizes todas cantam por mim”. — Todo tipo de cicatriz, inclusive a que eu tenho no pescoço. Tive um câncer de tireoide em 2017. Então, algumas coisas são literais, outras são metafóricas — explica Zélia. Das 11 faixas, dez têm letra dela. Todas são, de alguma forma, autobiográficas, a começar por “Agudo grave”, parceria com Lucina. O início já diz muito: “Sinto agudo e canto grave”. Ainda joga com outros opostos, como sal/doce, cedo/tarde. “Maravilha disforme”, com melodia e participação de Lenine, aprofunda o jogo. A letra inteira é dessa forma, como nos versos “O sólido que escorre/ O dia que não corre/ O eterno que termina”. — “Maravilha” conversa imensamente com “Agudo grave” — assume Zélia. — Mas nunca faço um álbum assim: “vou falar sobre paradoxos”. Vou compondo ao longo do tempo, juntando e querendo que aquele disco tenha uma cara. Românticas Há três que ela classifica como românticas: “Importante” (parceria com Alberto Continentino), “Calmo” (com Zeca Baleiro) e “Resolvidinho” (com Juliano Holanda). Zélia diz que a destinatária é a companheira com quem vive há 11 anos em São Paulo, a designer Flavia Pedras Soares. — Desde que conheci Flavia, as minhas músicas, em geral, vão para ela. Têm a ver com esse amor que se ajeita. Eu nunca tinha vivido isso — afirma. — “Calmo” tem tudo a ver com maturidade, fala em “Amor Caymmi”. Mas a última parte me liberta de tanta maturidade: “Pele da minha língua/ Onde seu nome vibra/ E o beijo se prepara”. Estou madura, mas não estou morta. Canção totalmente contemporânea é “E aí, IA?” (outra parceria com Constantino), em que ela desafia a inteligência artificial defendendo uma “humanidade radical”. — O problema não é a IA, são as pessoas. Querem atalho para tudo. Querem ser artistas sem terem feito o caminho para chegar. E os streamings botando música de IA? É uma pouca vergonha. Um diretor de gravadora uma vez me disse aquela frase: “Artista bom é artista morto”. Agora artista bom é o que nem nasceu — ataca Zélia, ressalvando que não quer “parecer uma pessoa fora do tempo”. — IA é incrível para muitas coisas, mas fico pensando nas crianças. No futuro, talvez não saibam que alguém pegou um violão e fez uma música; que o cara sentou e fez um desenho no papel com um lápis. ‘Aceito o impossível’ O álbum — que também tem parcerias com Pedro Luís e Ná Ozzetti — termina com “Que tal o impossível?”, de Itamar Assumpção. É a 25ª música do compositor paulista que ela grava. — Acho que essa letra, com toda brincadeira que parece ter, está falando da gente, do ser humano — aponta. — Todo dia tem que acordar e dar sentido para a vida. Quando aceito o impossível, eu lanço um álbum novo, gastando um dinheiro que não vai me voltar. É totalmente “Que tal o impossível?”. Muito ativa no Instagram, com mais de 770 mil seguidores, Zélia acredita que haja pessoas que a conheçam mais falando do que cantando. — Ninguém é obrigado a falar, mas, em certos momentos, o silêncio está gritando. Há momentos da vida pública, planetária, em que, se você tem um pedacinho de espaço e não fala nada, isso já diz muito sobre você — acredita ela, que deve participar da campanha pela reeleição do presidente Lula. — Se, de alguma maneira, for relevante a minha presença, eu vou estar. “Agudo grave” é o 21º álbum de sua trajetória, iniciada aos 16 anos, ainda como Zélia Cristina. — Minha melhor versão como artista para fazer um disco é hoje, porque estou totalmente independente. Sou eu com a minha música e as pessoas que escolho. Ralei muito para poder ter esse direito — comemora.
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