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“A liberdade da mulher madura é muito atraente”: Stephanie Cavalli sobre os novos 50 | Collector
“A liberdade da mulher madura é muito atraente”: Stephanie Cavalli sobre os novos 50
Vogue Brasil

“A liberdade da mulher madura é muito atraente”: Stephanie Cavalli sobre os novos 50

Onze horas da manhã em ponto (dez horas no horário local de Nova York), a modelo italiana Stephanie Cavalli aparece no vídeo para nossa entrevista. Com um óculos de grau de armação maxi, lindo, cabelos grisalhos soltos e praticamente sem maquiagem, ela logo me diz que fala e entende um pouco de português, já que uma das matérias que escolheu na faculdade foi literatura portuguesa, com ênfase em Machado de Assis. “Que autor incrível, fiquei apaixonada”, disse. “Apaixonadas estamos nós”, respondi, “mulheres maduras, pelo buzz que você está promovendo no universo da moda e da cultura.” Com um sorriso genuíno, ela diz que não esperava tanta repercussão com sua presença nas passarelas, mas que se sente feliz por estar representando tanta gente. “É sobre reconhecimento. Sobre mulheres maduras olharem para outras mulheres maduras conquistando espaço.” Aos 50 anos, Stephanie Cavalli se tornou um dos rostos mais comentados da moda internacional — e não apenas por ter sido escolhida pessoalmente por Matthieu Blazy para abrir dois desfiles da Chanel em sequência (coleção Métiers d’Art 2026, em janeiro, e Cruise 26/27, em março). Sua imagem atravessando a passarela com os cabelos grisalhos, beleza real e uma elegância segura, acabou passado a mensagem de que a moda finalmente começa a enxergar a mulher madura não como exceção, mas como parte integrante e atuante da sociedade. Nos últimos meses, Stephanie virou assunto em dezenas de reportagens internacionais. E o mais interessante é que não planejou, nem imaginou, nada isso. Nascida em Óstia, na costa italiana perto de Roma, ela começou a modelar aos 22 anos, trabalhando inicialmente na Itália antes de se mudar para os Estados Unidos em 2002. Sua carreira seguiu pelo mercado comercial (campanhas de beleza, cabelo, catálogos e publicidade) até que, perto dos 40, começou a sentir o “fator” idade em uma indústria centrada na juventude. “Eu percebi que meu estilo já não era o que os clientes procuravam: eu parecia velha para representar uma certa idade, e jovem para representar outra”, lembra. Stephanie Cavalli em sua loja La Garçonne Reprodução Instagram Parou de modelar. Abriu uma pequena boutique vintage chamada La Garçonne, no interior do estado de Nova York, onde vive cercada pela floresta ao lado do marido italiano tatuador, dos dois filhos e de temporadas com o enteado, que mora na Itália. E foi ali, longe da lógica frenética da moda, que o inesperado aconteceu: sua volta ao casting de desfiles importantes acabou se tornando um símbolo poderoso desse novo momento cultural em que mulheres maduras finalmente começam a ser vistas como aspiracionais, especialmente em um mercado de luxo sustentado justamente por consumidoras acima dos 45 anos. “Hoje eu olho no espelho, vejo minhas marcas, um pouco de flacidez e, honestamente? Prefiro isso do que quando eu era jovem e precisava da aprovação de todos”, me disse Stephanie. “Agora eu só quero a minha aprovação.” A seguir, os principais trechos da nossa conversa. VOGUE: Você imaginava voltar para a moda justamente aos 50 anos e se tornar símbolo desse novo momento da mulher madura? Stephanie Cavalli: Nunca. Quando parei de modelar, achei sinceramente que tinha acabado. Eu estava cansada daquela sensação constante de julgamento. Cansada de tentar parecer mais jovem, cansada da manutenção do cabelo, cansada de sentir que nunca era suficiente. Então, simplesmente parei. Comecei a olhar mais para mim mesma e menos para o que esperavam de mim. Foi muito libertador. Eu até fiz tatuagem nessa época (risos). E então aconteceu algo curioso: quando deixei meu cabelo grisalho crescer naturalmente, comecei a ser chamada para trabalhos. Foi como se, pela primeira vez, eu estivesse sendo vista de verdade. Não tentando ser outra pessoa. Hoje percebo que existe uma conexão muito forte entre mulheres maduras e essa representação. Nós queremos nos ver. Queremos nos sentir vistas, ouvidas, desejadas e representadas. Stephanie Cavalli Getty Images Você acha que essa valorização da maturidade na moda veio para ficar? Eu espero que sim. Mas a moda é cíclica, então sou cautelosa. Tudo vai e volta. Ainda assim, sinto que existe algo diferente agora. Existe um interesse real pelas mulheres maduras. E faz sentido: somos nós que consumimos beleza, moda e luxo. Mas não é apenas sobre consumo. É sobre reconhecimento. Sobre mulheres maduras olharem para outras mulheres maduras conquistando espaço e pensarem: “talvez minha vida não tenha acabado”. Isso é muito poderoso. Existe uma frase sua muito forte: “a vida é agora”. Em que momento você percebeu isso? Acho que veio com a maturidade. Crescemos ouvindo que a juventude é o auge da vida. Que tudo importante acontece antes. E eu realmente acreditava nisso. Mas hoje me sinto muito melhor do que quando era jovem. Minha mente está mais clara. Eu sei o que me pertence. Não quero mais perder energia tentando caber em lugares que não fazem sentido para mim. Quando somos jovens, temos tempo, energia e possibilidades infinitas, claro. Isso é maravilhoso. Mas existe uma paz agora que não é comparável. É uma surpresa linda perceber que a vida não acabou. Na verdade, que ainda há tanta coisa pela frente. Você fala muito sobre liberdade estética. Como é sua relação hoje com beleza e envelhecimento? Eu gosto de cuidar da pele, gosto dela bonita, luminosa. Tenho meus cremes, tento me alimentar bem, tomo colágeno. Mas procedimentos injetáveis não são algo que eu queira para mim. E não julgo quem faz. É algo muito pessoal. Mas eu me conheço. Tenho medo de entrar nessa lógica de dependência. Prefiro aceitar as mudanças do meu rosto do que viver tentando controlar algo que é inevitável. Quando eu tinha 15 anos, comecei a usar maquiagem e depois parei por um tempo porque não queria me acostumar a enxergar apenas aquela versão produzida de mim mesma. Acho importante continuar reconhecendo meu rosto real. Hoje uso quase nada: um batom vermelho às vezes, um iluminador… e pronto. Stephanie Cavalli Reprodução Instagram Você está na perimenopausa. Como tem vivido essa fase? Os suores noturnos são a pior parte (risos). Às vezes acordo completamente suada e não consigo dormir. Também aparecem algumas dores estranhas sem explicação. Mas, honestamente, estou lidando bem. Tento não dramatizar. Estou consciente das mudanças, mas não quero transformar isso no centro da minha vida. Se piorar, procuro ajuda. Por enquanto, sinto que estou conseguindo atravessar essa fase sem grandes problemas. Você acredita que mulheres maduras estão sendo vistas de forma diferente também no campo da sexualidade? Sim. Eu e minhas amigas falamos muito sobre isso. Existe algo acontecendo. Muitas mulheres na faixa dos 50 estão percebendo o interesse de homens mais jovens, por exemplo. E nossa teoria é simples: mulheres maduras têm uma tranquilidade, uma autoconsciência diferentes. Não estão mais tentando provar tantas coisas. Muitas já têm independência financeira, não estão procurando casamento ou filhos, e isso cria outro tipo de dinâmica. Existe uma liberdade muito atraente nisso. As mulheres estão começando a perceber que não estão “acabadas”. Ainda estamos aqui. E talvez melhores do que antes. O que você diria para mulheres que sofrem tentando lutar contra o envelhecimento? Que essa é uma batalha impossível de vencer. A juventude vai embora. Isso é inevitável. Então, se lutarmos apenas para mantê-la, vamos perder. Precisamos investir energia naquilo que podemos construir: nossa identidade, nossa presença, nossa verdade. Quando você se transforma em quem realmente é, existe algo muito bonito que aparece. Está nos olhos, na maneira de falar, na energia. E isso também é desejo. Acho que deveríamos cultivar mais nossa verdadeira beleza e menos a ideia de perfeição.

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