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Meningite, pneumonia, coqueluche: hospitais dos EUA observam ressurgimento de doenças à medida que vacinação diminui
Jornal O Globo

Meningite, pneumonia, coqueluche: hospitais dos EUA observam ressurgimento de doenças à medida que vacinação diminui

Médicos em todos os Estados Unidos dizem estar vendo mais casos de doenças graves, às vezes fatais, que as vacinas mantiveram sob controle por muito tempo, incluindo coqueluche e infecções bacterianas que podem causar pneumonia ou meningite. A preocupação entre os médicos surge na sequência de um ressurgimento do sarampo em todo o país, alimentado pela desconfiança nas vacinas que aumentou durante a pandemia de covid-19 e que foi amplificada pelo Secretário de Saúde Robert F. Kennedy Jr. e pelo Presidente Donald Trump. Especialistas em saúde pública há muito consideram o sarampo um presságio: por ser tão excepcionalmente contagioso, pode ser a primeira doença a apresentar um pico quando as taxas de vacinação diminuem amplamente, e um sinal de que outras virão. Para algumas dessas doenças, os dados mostram aumentos claros e substanciais nos últimos anos; para outras, os aumentos são pequenos, ou existem indicações anedóticas de médicos em campo de aumentos que as estatísticas públicas não confirmam atualmente. Embora a maioria das crianças se recupere, essas doenças não são benignas. Muitas crianças passam por longos períodos de internação hospitalar. Algumas infecções podem ser fatais. Meghan Hofto, pediatra da Universidade do Alabama em Birmingham, é uma das médicas que afirma estar atendendo com mais frequência doenças que antes eram raras. Este ano, ela e seus colegas trataram mais crianças do que o habitual com diarreia persistente. Uma criança com uma virose estomacal comum poderia precisar de um ou dois dias de hidratação intravenosa, mas esses pacientes estavam sendo hospitalizados por três ou quatro dias. O culpado: o rotavírus, que antes causava dezenas de milhares de hospitalizações por ano nos Estados Unidos, mas foi praticamente erradicado pelas vacinas introduzidas há 20 anos. Essas vacinas eram tão eficazes que Hofto se lembra de ter tratado apenas quatro ou cinco crianças com rotavírus na última década. Agora, já havia tratado quase o mesmo número de pacientes este ano, e nenhum deles estava vacinado. A médica pediatra Jessica Kirk, que atende em Fairhope, Alabama, tratou recentemente uma criança pequena não vacinada que foi hospitalizada com pneumonia causada por duas infecções simultâneas: Haemophilus influenzae e Streptococcus pneumoniae. As vacinas infantis de rotina podem proteger contra S. pneumoniae e uma forma comum de H. influenzae, mas a vacinação contra ambas as doenças tem diminuído nos últimos anos. A criança que Kirk tratou de ambas as infecções precisou de antibióticos e oxigênio para se recuperar da doença. Algumas dessas condições podem levar a complicações graves. Infecções por H. influenzae e S. pneumoniae podem causar sepse, meningite e pneumonia. Hofto disse que tratou bebês de 4 a 6 semanas de idade com coqueluche, ou pertussis, que pareciam bem em alguns momentos, mas paravam de respirar após uma crise de tosse. — É difícil saber quando eles podem ir para casa com segurança — afirma. Muitas crianças com coqueluche não têm pais antivacina. Elas são simplesmente muito jovens para terem sido vacinadas ainda, e a doença tem circulado mais nos últimos anos, à medida que as taxas gerais de vacinação diminuíram. Houve mais de 28.000 casos relatados no ano passado, em comparação com cerca de 7.000 em 2023. Andrew Nixon, porta-voz do Departamento de Saúde e Serviços Humanos, afirmou em um comunicado enviado por e-mail: "Rejeitamos a premissa de que fornecer aos americanos informações transparentes sobre os benefícios e riscos de produtos médicos prejudica a saúde pública." Mesmo quando o pior não acontece, médicos de emergência estão tendo que submeter algumas crianças não vacinadas com febre alta a exames mais invasivos, incluindo punções lombares, para descartar infecções potencialmente fatais das quais as crianças vacinadas estão protegidas. Infecções como Haemophilus influenzae e Streptococcus pneumoniae podem ser difíceis de reconhecer porque podem se assemelhar a doenças menos graves antes de rapidamente levarem a complicações. E como a vacinação quase universal as preveniu por tanto tempo, muitos médicos têm pouca experiência em diagnosticá-las. Em alguns casos, a alternativa aos testes invasivos é iniciar o tratamento de crianças não vacinadas com antibióticos mais fortes do que os que os médicos normalmente usariam, o que pode ter mais efeitos colaterais, de acordo com Robin Harrison e Taylor Rosenbaum, pediatras de Miami. Vários médicos também relataram ter observado um número crescente de adultos que se recusam a tomar a vacina antitetânica, e de pais que a recusam para seus filhos, após ferimentos como mordidas de cachorro ou lacerações causadas por objetos sujos. Aproximadamente 1 em cada 10 pessoas infectadas com tétano morre; um esquema completo de vacinação é muito eficaz na prevenção da infecção. Sonali Meyer, médica de emergência em Minnesota, disse que tratou um paciente no ano passado que se recusou a tomar uma vacina antitetânica depois de cortar a mão. — As grandes farmacêuticas não precisam do meu dinheiro — ela se lembrou da paciente lhe dizendo. Meyer conta que outra paciente recusou a vacina antitetânica dizendo: — Eu sei que vocês ganham mais quanto mais vacinas aplicam, mas não, obrigada. A cada ano que passa, dizem os médicos, a hesitação em relação às vacinas parece se expandir para novas fronteiras. Dois anestesiologistas relembram que, a partir de 2022 ou 2023, ocasionalmente atendiam pacientes que se recusavam a consentir com transfusões de sangue antes da cirurgia por não quererem sangue de doadores vacinados. Além disso, um número crescente de pais se recusa a permitir que seus recém-nascidos recebam injeções de vitamina K, que ajudam a prevenir sangramentos. Até recentemente, segundo neonatologistas, essas injeções eram aceitas até mesmo por muitas famílias que rejeitavam vacinas. Cinco médicos relataram ter visto hemorragias cerebrais ou abdominais em bebês cujos pais recusaram a vitamina K, incluindo um que morreu e outro que ficou parcialmente paralisado. A avalanche de doenças evitáveis ​​e outros riscos à saúde pode ser avassaladora, disseram os médicos. O mesmo acontece com a dificuldade de lidar com a desinformação médica que alguns pacientes repetem. — É como se você fosse um barquinho minúsculo enfrentando uma onda gigante. E você pode acabar convencendo uma família aqui e ali — indica Erin Charles, pediatra hospitalista regional do Seattle Children's Hospital. Muitos pais continuam a recusar vacinas mesmo depois de seus filhos terem sido hospitalizados com doenças evitáveis ​​por vacinação, disseram os médicos. Kirk afirmou que nunca havia ouvido um pai ou mãe nessa situação dizer que havia mudado de ideia e que vacinaria seu filho seguindo o calendário padrão. Hofto relata que às vezes conseguia persuadir as famílias, mas frequentemente não. Algumas pessoas podem encarar a doença como uma experiência isolada, especialmente se a criança acabar se recuperando, segundo a pediatra. Os médicos afirmam temer que, com a queda nas taxas de vacinação, as doenças que atualmente surgem esporadicamente se tornem mais comuns. Rosenbaum conta que vinha avisando os médicos residentes que estavam treinando sob sua supervisão que eles poderiam ter que aprender juntos a tratar doenças que ela nunca havia encontrado durante seu próprio treinamento por causa das vacinas. — Para muitas dessas doenças, provavelmente haverá um aumento lento. Até que se torne muito rápido — diz.

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