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Novo número 1 da Rota tem parentes em empresas de segurança e tecnologia
Jornal O Globo

Novo número 1 da Rota tem parentes em empresas de segurança e tecnologia

O tenente-coronel Antônio Emanuel Andrade e Silva foi anunciado na manhã desta quarta-feira (3) como o novo comandante da Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), a tropa de elite da Polícia Militar de São Paulo. Silva estava como subcomandante do batalhão, e foi escolhido para substituir Vergílio Corrêa Mariano, que recentemente foi promovido a coronel e assumiu o Comando de Policiamento Ostensivo e Preventivo na Área Central de São Paulo (O CPA/M1). O GLOBO apurou que o próprio Silva, também recém-promovido de major a tentente-coronel, tinha dúvidas sobre sua nomeação. Isso porque ele e alguns familiares têm empresas na área da segurança privada, o que poderia configurar conflito de interesses. Levantamento da reportagem realizado com base na Junta Comercial do Estado de São Paulo mostra que parentes e pessoas próximas ao tenente-coronel Silva figuram como sócios ou administradores de empresas que atuam em áreas como consultoria, terceirização de serviços, segurança eletrônica e prestação de serviços empresariais. Uma delas é a TPCS Consultoria e Treinamentos Ltda., da qual o próprio oficial e sua esposa, Talita Pedroso Correia e Silva, aparecem como sócios. Embora a companhia tenha como atividade principal o desenvolvimento profissional e a realização de treinamentos, sem atuação formal no setor de segurança, seu endereço coincide com um local identificado por uma placa como sede do chamado "Grupo Bravo TE". A reportagem identificou uma série de empresas ligadas a familiares e pessoas do círculo próximo do oficial que compartilham a marca "Bravo". Entre elas está a Bravo TE Multiservices, que tem como sócio Fabiano Fernandes da Silva Sá, primo de Silva. Já a Bravo Segurança Eletrônica e Tecnologia está registrada em nome de Getúlio Fernandes da Silva, tio do oficial. Getúlio também aparece como sócio da AF Segurança Eletrônica e Comércio, além de outras três empresas do ramo alimentício — duas sediadas no Rio de Janeiro e uma em São Paulo. Outra companhia com nome semelhante é a Bravo TE - 2 Serviços Especializados. Registrada em um endereço localizado em uma travessa no Rio de Janeiro, ela tem como sócia Alice Maria Dias, uma antiga vizinha do casal Silva e Talita. No mesmo endereço no Rio de Janeiro também funciona a Safe Multiserviços, igualmente registrada em nome de Alice. A concentração de empresas vinculadas a familiares e pessoas próximas ao oficial não representa, por si só, qualquer irregularidade. Mas, de acordo com o Artigo 204 do Código Penal Militar, caso seja constatado um potencial conflito de interesses, a questão pode ser considerada uma violação dos deveres funcionais, podendo resultar em sanções disciplinares e até mesmo na demissão ou expulsão da corporação. A reportagem tanta contato com o oficial e com a Secretaria de Segurança Pública (SSP). Proximidade com ex-comandante-geral Outro ponto questionado por oficiais da PM ouvidos pelo GLOBO é a proximidade de Silva com o ex-comandante-geral da corporação, o coronel José Augusto Coutinho. Os dois viajariam juntos em família e frequentariam sambas e churrascos aos finais de semana. Coutinho, que foi afastado do cargo em maio, é citado em um inquérito da Corregedoria da Polícia Militar que apura a atuação de policiais militares na escolta de uma empresa de ônibus ligada ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Segundo depoimento à Corregedoria obtido pelo GLOBO, Coutinho, à época comandante da Rota, tentou convencer um policial suspeito de prestar serviço de segurança para a Transwolff, empresa de ônibus investigada por elo com a facção na capital paulista, a permanecer no batalhão. De acordo com a investigação da Corregedoria, sete PMs aderiram de forma “consciente e voluntária” ao esquema e contribuíram para a “continuidade operacional das atividades empresariais utilizadas para a lavagem de capitais”. Ainda de acordo com a Corregedoria, além de escoltar os diretores da empresa investigada por elo com o PCC, os policiais eram pagos com notas frias. Um depoimento sigiloso do promotor de Justiça Lincoln Gakiya à Corregedoria detalhou o funcionamento de um núcleo de vazamento da Rota. Segundo o promotor do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), os vazamentos que beneficiaram a facção foram informados ao ex-comandante-geral Coutinho. De acordo com Gakiya, principal nome do combate ao PCC no país, ele informou pessoalmente a Coutinho sobre um vazamento na Rota que teria contribuído para a fuga do na época número 1 da facção paulista na rua, Marcos Roberto de Almeida, conhecido como Tuta. Na mesma ocasião, contou sobre uma gravação ilegal, feita por PMs da Rota, de uma reunião dos agentes com o promotor, vendida posteriormente a Tuta. Coutinho nega as acusações.

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