Jornal O Globo
De um vídeo de poucos segundos a uma carreira política construída sobre curtidas, compartilhamentos e controvérsias: em um momento em que a popularidade nas redes sociais frequentemente se confunde com influência real, o romance "O Wikiota", do escritor Ademir Luiz, propõe uma reflexão sobre os mecanismos que transformam pessoas comuns em fenômenos de massa e sobre a rapidez com que a internet pode destruir aquilo que ajudou a criar. Saiba mais: Isabella Santoni aborda status e aparências em nova peça Confira: Hugo Haddad revela o que descobriu ao interpretar um dos nomes menos lembrados da Copa de 1970 A obra acompanha Mike Jardim, um adolescente que vê sua vida mudar após a viralização de um vídeo no YouTube. O episódio, inicialmente banal, o impulsiona para uma trajetória marcada pela fama digital, pela construção de uma comunidade de seguidores e pela constante exposição pública. À medida que ganha visibilidade, o personagem se torna símbolo de uma geração moldada por algoritmos, disputas narrativas e validação online. Mais do que contar a ascensão de um influenciador, o livro explora questões cada vez mais presentes na vida contemporânea: a transformação da identidade em produto, a busca por reconhecimento nas plataformas digitais e a dificuldade de distinguir realidade, performance e informação em um ambiente dominado pela velocidade. Na narrativa, Mike transita por diferentes espaços de poder e visibilidade. De defensor de uma causa aparentemente improvável — o direito de adolescentes dirigirem — a participante de reality shows e, posteriormente, deputado federal, sua trajetória é construída a partir da lógica que rege grande parte da cultura digital: a atenção como principal moeda de valor. A figura do protagonista dialoga, em certa medida, com arquétipos já conhecidos da literatura. Ademir Luiz apresenta Mike como uma espécie de releitura contemporânea do "idiota" de Dostoiévski, deslocado para um universo em que a verdade parece cada vez mais condicionada ao alcance de uma publicação e à força de uma narrativa compartilhada milhares de vezes. Ao longo da história, a internet surge não apenas como cenário, mas como personagem central. É ela que impulsiona carreiras, alimenta polarizações, reescreve reputações e transforma acontecimentos cotidianos em eventos de grande repercussão. Nesse contexto, o romance utiliza humor, ironia e crítica social para observar uma sociedade cada vez mais mediada pelas telas. Escrito por Ademir Luiz, narrativa transita entre o analógico das fibras de papel e o digital das redes sociais Divulgação Professor universitário, historiador, quadrinista e ensaísta, Ademir Luiz é autor de obras como "Apologia ao Fim", vencedora do Prêmio Cora Coralina, e "Fogo de Junho", que recebeu o Prêmio Hugo de Carvalho Ramos. Em "O Wikiota", o escritor volta seu olhar para um dos fenômenos mais característicos do século XXI: a forma como a internet redefine fama, poder e pertencimento. Em um cenário em que influenciadores se tornam celebridades, celebridades se tornam marcas e opiniões circulam com velocidade recorde, o romance levanta uma pergunta que ultrapassa a ficção: quem controla a narrativa quando todos estão conectados o tempo todo?
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