Jornal O Globo
Não se deixe enganar pelo tamanho ou pelas dificuldades no manejo: o velho contrabaixo acústico é, sim, instrumento de mulher. E muitas talentosas musicistas estão aí para provar este ponto. Robbie Williams: 'Sempre tive meus adultos cuidando de tudo. E nunca questionei muito' Zeca, Alcione e Aragão: Na hora do ensaio, é trio, piada e samba A começar pela australiana de origem malaia Linda May Han Oh, 41 anos — jazzista emérita, ganhadora de um Grammy, que já tocou com o guitarrista Pat Metheny, participou do Tiny Desk da NPR e que agora se apresenta no Rio das Ostras Jazz & Blues Festival: esta quinta-feira (às 16h, no Palco Boca da Barra) e sábado (às 20h, no Palco Cidade do Jazz). Revezando-se instrumento acústico e no elétrico, a também cantora lidera nos shows um quarteto formado por Fabian Almazan (piano), Greg Ward (saxofone) e Mark Whitfield Jr. (bateria). Fã de brasileiros como as cantoras Rosa Passos (“uma das minhas musicistas favoritas na Terra”) e Luciana Souza (com quem já tocou), além de Djavan, Milton Nascimento, Toninho Horta e Hamilton de Holanda, Linda começou a tocar baixo elétrico na adolescência, inspirada pelos músicos do rock alternativo dos anos 1990, de bandas como Rage Against The Machine e Primus. Mas também se arriscava no jazz, em uma banda do seu colégio, em Perth. — Aí eu escutei (o jazzista) Ray Brown no baixo acústico e vi que tinha que tocar aquilo! — conta ela, que demorou até a começar a também cantar. — Eu ficava irritada com o fato de as pessoas sempre presumirem que, por ser mulher, eu tinha que cantora. Eu simplesmente pensava: “Não, eu sou só baixista!”. A australiana conta ter convivido desde cedo com a percepção geral de que o contrabaixo é um instrumento masculino, de que as mulheres não conseguiriam produzir nele a mesma quantidade de som que um homem produz. — As pessoas achavam que estavam me elogiando, dizendo que eu tocava como um homem, que meu som era masculino... Tudo bem, a maioria das mulheres geralmente é um pouco menor, mas na verdade, tudo depende dos dedos. O contrabaixo é um instrumento muito físico, mas você não precisa ser homem para tocá-lo bem e conseguir um som forte e bonito — diz ela, que serviu de modelo de baixista para a animação “Soul”, ganhadora do Oscar em 2021. — Além do mais, tem essa ideia da força como algo masculino... bem, depois de ter dado à luz, eu diria que a força definitivamente pode vir de uma perspectiva feminina. Atração do Festival Salvador Jazz, que aconteceu semana passada, a contrabaixista mineira Camila Rocha, 31, lidera um quarteto de jazz e MPB e tem um EP lançado, “Rama” (2023). Ela se iniciou na música ainda criança, estudando piano erudito. E aí, aos 14 anos, o pai violonista sugeriu que ela estudasse contrabaixo elétrico para se juntar à sua banda. Camila achou uma boa ideia e, com dois meses de aula, já estava tocando com ele. Aos 17, foi estudar música na Universidade do Estado de Minas Gerais, onde descobriu o baixo acústico. E os estigmas do instrumento. — É muito interessante, um desses estigmas aparece logo no primeiro momento em que a gente tá carregando o contrabaixo, parece que o mundo inteiro para, achando que precisa ajudar a gente! E aí eu argumentava: “Não, eu não quero ajuda, isso aqui é um instrumento que tem um jeito certo de se pegar!” — diverte-se Camila. — O contrabaixo exige muito do corpo mesmo, mas isso é uma coisa que vale para todo mundo. A gente vai adaptando e encontrando um instrumento que funciona melhor para cada um. A contrabaixista mineira Camila Rocha Divulgação/Luca Mezzacappa Camila se recorda de que, no começo da caminhada, ainda se sentia “meio sozinha” no cenário. Mas, aos poucos, viu uma geração mais nova de mulheres contrabaixistas, hoje “com 25, 26 anos”, chegando em Belo Horizonte. Mas o fato é que, no Brasil inteiro, elas têm aparecido. Em Salvador, a revelação é a baiana Talita Felício, de 26 anos, que se iniciou na música ainda pequena em um projeto social em sua comunidade — ela queria o violino, mas só havia vaga para estudar contrabaixo. — Não gostei de primeira, não. Mas, passados os meses, fui gostando do instrumento. E aí o professor me mostrou um vídeo da (contrabaixista e estrela americana do jazz) Esperanza Spalding, em que ela tocava e cantava — conta Talita. — Quando comecei a tocar, foi num ambiente de orquestra, não era nem era música popular, não era nada voltada para o jazz. Mas depois daquele vídeo, fiquei assim: “meu Deus, que maravilhosa!” E ela vinha também com aquele cabelo black... me vi naquele lugar. Initial plugin text Durante a pandemia, sozinha em casa, Talita Felício começou com despretensiosos exercícios de canto, acompanhando-se com o instrumento. Uma bela voz emergiu, que ela explorou em vídeos nas redes. — Tinha poucos brasileiros fazendo isso com baixo — aponta ela, que se prepara para lançar a sua primeira gravação solo, a de uma composição sua, “Palavras de beleza”. — A galera gosta de colocar uma mulher tocando baixo nos shows. O ambiente musical, não só o do contrabaixo, ainda é muito masculino, e são muitos corres, carregando o baixo acústico pela cidade... mas vamos fluindo!
Go to News Site