Jornal O Globo
Este texto foi enviado na newsletter semanal O Crítico Antigourmet, em que Ian Oliver faz resenhas da gastronomia de São Paulo. Quer receber o conteúdo um dia antes da publicação on-line? Clique aqui para se inscrever. 1. Poucas coisas em gastronomia são mais inimigas da qualidade do que a escala de produção. O que não significa que “artesanal” seja sinônimo de boa qualidade. 2. Feijão, farinha de milho e pimenta dizem muito mais sobre cozinha brasileira do que formiga e jambu. 3. Comida boa sempre pressupõe técnica. Mas excesso de técnica muitas vezes serve para esconder comida ruim. 4. Quem é elegante não diz que é elegante. Quem é luxuoso não diz que é luxuoso. Quem tem omotenashi não diz que tem omotenashi. 5. Nem todo restaurante precisa encantar, mas nenhum restaurante é lugar apenas para matar a fome; para isso existem queijo, pão e geladeira na madrugada. O Crítico Antigourmet: Leia os textos já publicados 6. O restaurante medíocre é pior que o restaurante horrível: o horrível vira história; o medíocre cai no esquecimento. O horrível gera texto; o medíocre não gera nem frase. 7. Cardápio que fala em “memória afetiva” geralmente quer cobrar o que sua avó nunca cobrou para fazer o que ela fazia (sem contar com assessoria de imprensa). 8. O verdadeiro luxo não é caviar, cristal ou reserva impossível; é sair de um restaurante sem sentir que alguém tentou enganar você. 9. Cardápio enxuto, na pranchetinha, com pratos descritos em três ingredientes, comida para compartilhar e carta de vinhos naturais é um modelo moderninho que, de tão irrefletidamente copiado, já está se desgastando. 10. Restaurante que precisa explicar por dez minutos por que o prato é bom geralmente está tentando compensar os dez segundos em que você percebe que ele não é. 11. Feijoada é um prato pesado e desequilibrado, mas é bom. 12. Brigadeiro é um doce pesado e desequilibrado, e é ruim. Evvai: o luxo que tenta sorrir (e falha) 13. Trufas que não são frescas, de inverno e recém-colhidas serão, inevitavelmente, superprecificadas e superestimadas. 14. Burrata é o travesseiro ortopédico da gastronomia: branca, mole, cara e recomendada por pessoas que perderam a esperança na retidão. 15. Catupiry é a resposta gastronômica para quem nunca fez pergunta alguma. 16. Toda cidade tem um restaurante cuja reputação é sustentada exclusivamente por pessoas que não voltaram lá nos últimos cinco anos. 100 melhores pizzas de SP: confira o ranking completo e entenda porque o paulistano não sabe brincar de listar 17. Sua cidade só terá alcançado um desenvolvimento gastronômico razoável se tiver superado o risoto com filé. 18. Restaurante que se apresenta como “experiência” geralmente está avisando, com antecedência, que a comida sozinha talvez não dê conta do preço. 19. O “ingrediente local” não melhora automaticamente um prato. Ninguém come patriotismo. 20. Comer bem exige menos patriotismo do que honestidade. A culinária de uma pátria ou região não melhora porque você nasceu nela.
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