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Os resultados do NHS-Galleri foram apresentados no encontro anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco) Adobe Stock Um exame de sangue capaz de rastrear mais de uma dezena de tumores ao mesmo tempo foi testado em mais de 142 mil pessoas no Reino Unido para responder a uma pergunta específica: detectar câncer pelo sangue reduz o número de casos descobertos em estágio avançado? A resposta foi não. Mas, ao tentar provar isso, o estudo acabou revelando outra coisa —e talvez mais valiosa: a tecnologia pode ser capaz de encontrar tumores ainda no início. Os resultados do ensaio, batizado de NHS-Galleri, foram apresentados no encontro anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco), em Chicago, que se encerrou nesta terça-feira (2). Tecnicamente, o estudo é negativo: o objetivo que ele se propôs a comprovar não se confirmou. Mas os números mostraram algo que os pesquisadores não esperavam encontrar com tanta clareza: mais cânceres foram detectados em estágio inicial e menos pacientes receberam o diagnóstico quando a doença já havia se espalhado pelo corpo. Agora no g1 O que animou os médicos Para entender por que os achados secundários animaram os médicos, vale ter em mente uma lógica que se aplica à maioria dos tumores: quanto mais cedo a doença é encontrada, maiores as chances de cura. Tumores em estágio inicial (1 e 2) costumam estar restritos a um órgão e respondem melhor ao tratamento; nos estágios avançados (3 e 4), já se espalharam pelo corpo e são mais difíceis de controlar. Um bom exame de rastreamento, portanto, deveria puxar os diagnósticos para o lado inicial dessa escala —e foi o que aconteceu no grupo que fez o teste de sangue. Dois movimentos caminharam juntos. De um lado, os diagnósticos em fase inicial subiram 16% —o que, ao contrário do que parece, é uma boa notícia: significa mais tumores flagrados cedo, inclusive de tipos que quase sempre são descobertos tarde demais, como os de ovário, esôfago, pâncreas e fígado. De outro, os diagnósticos em estágio 4, o mais grave, caíram 14%. Mais casos pegos no início e menos casos pegos no fim: o teste deslocou a descoberta da doença para um momento mais favorável. Esse efeito ficou mais forte a cada ano. A redução nos casos avançados foi de 9% no primeiro ano de exame, 22% no segundo e 26% no terceiro. A explicação está no próprio funcionamento do rastreamento: na primeira rodada, o teste precisou vasculhar todos os cânceres que já existiam, silenciosos, naquela população enorme —incluindo alguns que já estavam adiantados. A partir do segundo ano, passou a captar sobretudo tumores que tinham surgido havia pouco tempo, mais fáceis de interromper antes que avançassem. Para os pesquisadores, é um indício de que um programa anual e contínuo tenderia a se aproximar desses números melhores dos anos seguintes. Houve ainda dois ganhos. Somado aos exames de rotina, o teste de sangue quadruplicou o número de cânceres detectados por rastreamento —ou seja, encontrou muitos casos que mamografia, colonoscopia e os demais exames, sozinhos, não teriam flagrado. E reduziu em cerca de 25% os cânceres descobertos apenas em situações de emergência, quando o tumor já provoca sintomas graves, como uma insuficiência respiratória por câncer de pulmão ou um sangramento por câncer de intestino. Para o oncologista do Einstein Hospital Israelita Fernando Moura, há um detalhe técnico que resume o paradoxo. "Se a pergunta fosse se o exame aumenta a detecção de cânceres precoces, em vez de se reduz os casos avançados, este estudo seria considerado positivo, e não negativo." Ou seja: a pesquisa foi avaliada justamente pela pergunta em que o teste tropeçou —e não por aquela em que se saiu bem. O que significa um estudo ‘negativo’ No vocabulário científico, um estudo é considerado negativo quando não confirma a hipótese principal que se propôs a testar —o objetivo primário, definido antes de a pesquisa começar. Não significa que a tecnologia falhou nem que é inútil: significa que, naquela pergunta específica, os números não sustentaram o que se esperava. A distinção importa porque toda pesquisa acompanha também objetivos secundários, perguntas paralelas de menor peso estatístico. Quando o objetivo primário não se confirma, esses achados não valem como prova definitiva, mas servem de pista: apontam hipóteses que precisam ser testadas em novos estudos. Foi o que o NHS-Galleri produziu. Há ainda um motivo para o rótulo de negativo não esvaziar o trabalho. Este é o primeiro e único ensaio clínico randomizado —o desenho de pesquisa considerado mais confiável, em que os participantes são sorteados ao acaso entre os grupos— a testar um exame de sangue desse tipo somado ao rastreamento de rotina em um sistema público de saúde. “E fez isso em escala enorme, com mais de 142 mil pessoas. Mesmo sem atingir a meta, entregou dados inéditos sobre o que a tecnologia consegue, e o que ainda não consegue, fazer. Apesar de o estudo ter sido considerado negativo, entendemos que a tecnologia é bastante robusta", afirma Moura. Por que o estudo foi considerado negativo O desenho da pesquisa ajuda a entender o "fracasso". Os participantes, todos entre 50 e 77 anos e sem sinais de câncer, foram divididos em dois grupos. Um seguiu apenas os exames de rotina recomendados —mamografia, colonoscopia, tomografia de tórax para fumantes, Papanicolau e exames de próstata. O outro fez, além desses, o exame de sangue uma vez por ano, durante três anos. A pergunta central era se o segundo grupo teria menos diagnósticos de câncer em estágios avançados, 3 e 4. Não teve: a diferença entre os dois grupos não alcançou significado estatístico. Por esse critério —e apenas por ele—, o estudo é negativo. Como o exame enxerga o câncer no sangue A biópsia líquida já é usada na rotina oncológica para identificar mutações de um tumor conhecido e para detectar resíduos da doença após uma cirurgia. O exame testado no Reino Unido cumpre uma função diferente: rastrear câncer em pessoas sem sintomas. A lógica é a seguinte. À medida que um tumor cresce, parte de suas células morre e se rompe, liberando fragmentos de material genético na corrente sanguínea. Esses fragmentos tumorais são distintos do DNA das células saudáveis, e o teste os identifica por meio de padrões de metilação, marcas químicas presentes no DNA. O resultado sai de forma binária, positivo ou negativo. Quando dá positivo, o exame ainda estima em que órgão o tumor nasceu, acerto que ocorreu em 92,5% dos casos confirmados. Onde estão os limites O entusiasmo, porém, vem cercado de ressalvas. O teste tem altíssima especificidade —99,55%, o que significa pouquíssimos alarmes falsos entre pessoas saudáveis. Mas, entre os resultados positivos, apenas cerca de metade se confirmou como câncer de fato (o chamado valor preditivo positivo foi de 52%). Um resultado positivo, portanto, não é diagnóstico, e exige investigação adicional. Há ainda um limite de sensibilidade: o exame detecta com mais facilidade tumores avançados do que iniciais, e deixa escapar boa parte dos cânceres em fase precoce. E essa investigação nem sempre encontra o tumor. Moura descreve o cenário que mais o preocupa: um paciente recebe resultado positivo para câncer de pâncreas, faz ressonância, endoscopia, tomografia —e nada aparece, porque o exame de imagem ainda não detecta uma alteração em nível molecular. O risco oposto também existe. Um resultado negativo, alerta o médico, pode levar a pessoa a abandonar os exames de rotina, na crença equivocada de estar protegida. Por isso, na avaliação dele, o teste não pode ser tratado como um exame de colesterol pedido por conta própria. "A jornada do exame precisa ser muito bem acompanhada por profissionais." Com orientação antes, sobre o que o resultado pode revelar, e depois, sobre os próximos passos. Já à venda nos EUA, sem aval de agências Mesmo sem comprovação para uso populacional, o exame já é comercializado nos Estados Unidos. Segundo Moura, o teste custa US$ 949 (cerca de R$ 4,8 mil no câmbio atual) e pode ser solicitado por médicos, embora não tenha sido aprovado pela Food and Drug Administration (FDA), a agência reguladora americana, nem por qualquer outro órgão semelhante no mundo. No Brasil, o custo é uma barreira adicional, sobretudo para o sistema público. E, por enquanto, o resultado negativo não dá respaldo científico para incorporar o exame ao rastreamento de rotina, como hoje se faz com mamografia ou Papanicolau. Falta, principalmente, tempo: os participantes foram acompanhados por apenas três anos, e ainda não se sabe se a antecipação dos diagnósticos vai se traduzir em mais vidas salvas. Promessa, ainda não rotina O resultado negativo impede, por enquanto, que o exame seja incorporado a programas populacionais de rastreamento. Mas os dados sugerem que a ideia de procurar câncer pelo sangue talvez esteja mais próxima da prática clínica do que parecia há alguns anos. Para Moura, o NHS-Galleri representa menos um ponto de chegada do que um primeiro teste em escala real de uma tecnologia que ainda está aprendendo a encontrar seu lugar na medicina. Hoje, mamografias, colonoscopias e outros exames seguem sendo a base do rastreamento. No futuro, porém, eles poderão ganhar um novo aliado: um exame de sangue capaz de procurar sinais de diversos tumores ao mesmo tempo. "Estamos diante de uma promessa de médio prazo, senão de curto prazo, bastante interessante para rastrear câncer pelo sangue, em apoio a tudo o que já fazemos hoje", afirma.
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