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Bets, Cassinos Online e o Vício em Jogos: Uma Crise Silenciosa de Saúde Mental em Expansão | Collector
Bets, Cassinos Online e o Vício em Jogos: Uma Crise Silenciosa de Saúde Mental em Expansão
Jornal O Globo

Bets, Cassinos Online e o Vício em Jogos: Uma Crise Silenciosa de Saúde Mental em Expansão

O crescimento acelerado das plataformas de apostas esportivas e cassinos online vem transformando profundamente a relação das pessoas com o jogo. O que antes estava restrito a lotéricas, bingos e casas de apostas físicas passou a ocupar espaço permanente nos smartphones, disponível a qualquer hora do dia. Em meio à popularização das chamadas "bets", especialistas em saúde mental alertam para um problema que cresce em ritmo preocupante: o aumento dos casos de dependência em jogos de azar. Segundo a psicóloga e neuropsicóloga Luciana Fortes de Cerqueira, os impactos desse fenômeno vão muito além das perdas financeiras. "Estamos observando consequências significativas na saúde emocional, nos relacionamentos familiares, na autoestima e na qualidade de vida das pessoas. Em muitos casos, trata-se de um problema de saúde pública", afirma. Quando o jogo deixa de ser diversão A ludopatia, também conhecida como Transtorno do Jogo ou Jogo Patológico, é caracterizada pela incapacidade persistente de controlar o comportamento de apostar, mesmo diante de prejuízos evidentes. A condição é reconhecida internacionalmente como um transtorno relacionado a comportamentos aditivos e possui características semelhantes às observadas em outras dependências. "O indivíduo frequentemente acredita que consegue parar quando quiser, mas, com o passar do tempo, as recaídas se tornam frequentes e o jogo passa a ocupar espaço central em sua rotina e em seus pensamentos", explica Luciana. O cérebro sob o efeito das apostas A explicação para esse comportamento está, em grande parte, no funcionamento do cérebro humano. Quando uma pessoa aposta e obtém uma recompensa, ou simplesmente acredita que está próxima de ganhar, ocorre a ativação do sistema cerebral de recompensa, composto por regiões ligadas à motivação, aprendizagem e tomada de decisões. Nesse processo, há uma intensa liberação de dopamina, neurotransmissor associado à expectativa de recompensa. Diferentemente do que muitos imaginam, a dopamina não está ligada apenas à sensação de prazer, mas principalmente ao desejo de repetir comportamentos que o cérebro interpreta como potencialmente vantajosos. Esse mecanismo ajuda a explicar por que muitas pessoas continuam apostando mesmo após sucessivas perdas. A armadilha da recompensa imprevisível Um dos fatores mais poderosos por trás da dependência em apostas é o chamado reforço intermitente. Ao contrário de uma recompensa previsível, os ganhos acontecem de forma aleatória. Essa imprevisibilidade mantém o cérebro constantemente estimulado pela expectativa de uma próxima vitória. Outro elemento importante é o chamado "quase ganho". Situações em que o jogador acredita ter chegado muito perto da vitória podem ativar áreas cerebrais semelhantes às observadas quando o prêmio é efetivamente conquistado. Expressões como "faltou pouco" ou "agora vai" reforçam a permanência no comportamento e alimentam o ciclo de apostas. A ilusão de controle Entre os jogadores frequentes, também é comum a chamada ilusão de controle. Trata-se da crença de que conhecimentos específicos, experiência ou estratégias pessoais seriam suficientes para prever resultados essencialmente aleatórios. Nas apostas esportivas, isso costuma aparecer quando o apostador acredita que seu conhecimento sobre estatísticas ou desempenho de equipes elimina os riscos envolvidos. Na prática, porém, o acaso continua sendo um componente determinante em qualquer modalidade de aposta. Plataformas projetadas para manter o usuário conectado Especialistas alertam que os ambientes digitais de apostas não são construídos de forma neutra. Diversos recursos utilizados pelas plataformas exploram mecanismos psicológicos conhecidos para aumentar o tempo de permanência dos usuários. Entre eles estão: * Contagens regressivas e promoções por tempo limitado; * Bônus aleatórios e recompensas inesperadas; * Sons e animações que simulam grandes conquistas; * Programas de fidelização e níveis de progressão; * Processos simplificados para depósitos e mais complexos para saques. Essas estratégias estimulam a permanência do usuário e aumentam o engajamento com a plataforma. O impacto invisível na saúde mental Uma das características mais preocupantes da ludopatia é sua capacidade de permanecer oculta por longos períodos. Muitas pessoas mantêm suas atividades profissionais e sociais enquanto acumulam dívidas e prejuízos financeiros significativos. Quando o problema finalmente se torna evidente, frequentemente já existem consequências importantes para a vida pessoal e familiar. Entre os impactos mais comuns estão: * Ansiedade; * Depressão; * Insônia; * Irritabilidade; * Comprometimento da tomada de decisões; * Perda de controle financeiro; * Isolamento social. Segundo especialistas, o estresse contínuo provocado pelas perdas e pela tentativa constante de recuperação do dinheiro apostado pode comprometer significativamente funções cognitivas essenciais para o autocontrole. O risco de suicídio preocupa especialistas Entre as consequências mais graves associadas ao transtorno do jogo está o aumento do risco de comportamento suicida. O acúmulo de dívidas, a sensação de fracasso, a vergonha e o rompimento de vínculos familiares podem gerar intenso sofrimento psicológico. Por isso, profissionais da saúde mental defendem que a avaliação de pacientes com problemas relacionados a apostas inclua a investigação de sintomas depressivos, desesperança e pensamentos suicidas. Famílias também adoecem A dependência em jogos raramente afeta apenas quem aposta. Conflitos conjugais, perda de confiança, endividamento familiar e desgaste emocional costumam fazer parte da rotina de famílias que convivem com o problema. "Muitas vezes, os familiares vivem um ciclo de promessas de mudança, recaídas e novas frustrações, o que gera enorme sofrimento emocional para todos os envolvidos", observa Luciana. Jovens estão entre os mais vulneráveis A exposição constante de adolescentes e jovens adultos às propagandas de apostas é outro ponto de preocupação. Especialistas destacam que o córtex pré-frontal, região cerebral responsável pelo controle dos impulsos e pela avaliação de consequências, continua em desenvolvimento até aproximadamente os 25 anos. Isso torna os jovens mais suscetíveis à busca por recompensas imediatas e mais vulneráveis aos mecanismos de reforço utilizados pelas plataformas digitais. O papel dos influenciadores digitais Com milhões de seguidores, influenciadores digitais exercem forte impacto sobre o comportamento de seus públicos. Em muitos casos, apostas são apresentadas como uma forma simples de ganhar dinheiro ou alcançar independência financeira. Para especialistas, é fundamental que a divulgação desse tipo de conteúdo seja realizada com transparência e responsabilidade, incluindo alertas claros sobre os riscos envolvidos. Existe tratamento Apesar da gravidade do problema, a ludopatia possui tratamento e apresenta boas perspectivas de recuperação quando identificada precocemente. A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é considerada uma das abordagens mais eficazes para o tratamento do transtorno. O acompanhamento geralmente envolve: * Identificação de pensamentos distorcidos; * Controle dos impulsos; * Manejo da ansiedade; * Prevenção de recaídas; * Reorganização financeira; * Reconstrução de hábitos saudáveis. Em alguns casos, o suporte psiquiátrico também pode ser necessário. Além disso, grupos de apoio como os Jogadores Anônimos e os serviços oferecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) desempenham papel importante no processo de recuperação. Um desafio de saúde pública Para especialistas, compreender o vício em apostas apenas como falta de disciplina ou fraqueza moral é um equívoco. O fenômeno envolve fatores neurobiológicos, psicológicos, sociais e econômicos complexos, potencializados por tecnologias desenvolvidas para capturar atenção e maximizar o engajamento dos usuários. Diante desse cenário, cresce o consenso de que educação em saúde mental, regulamentação responsável, prevenção e acesso ao tratamento serão fundamentais para enfrentar uma crise que já afeta milhares de brasileiros. Mais do que uma questão financeira, o avanço das apostas online revela um desafio urgente para a saúde pública e para a sociedade como um todo.

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