Jornal O Globo
A Paramount Skydance está preparada, se necessário, para vender parte de seus ativos de canais infantis de TV para incentivar a obtenção da aprovação da União Europeia à sua oferta de US$ 110 bilhões pela Warner Bros. Embora a Paramount espere evitar qualquer venda de ativos, a empresa está aberta a sacrificar canais infantis, caso a UE levante preocupações sobre sobreposições que ameacem a concorrência, segundo fontes do setor, que falaram sob condição de anonimato à Bloomberg. Essas pessoas acrescentaram que a companhia ainda não decidiu se, ou quando, apresentará formalmente propostas de solução aos reguladores. O prazo inicial do bloco para aprovar ou abrir uma investigação aprofundada da megafusão termina em 7 de julho. Pressão em Bruxelas A análise da Comissão Europeia, sediada em Bruxelas, é um dos últimos obstáculos que o presidente executivo da Paramount, David Ellison, precisa superar. Ele venceu a disputa contra a Netflix após mais de cinco meses de ofertas, visitas a Washington, reuniões com acionistas e com o presidente Donald Trump, além do apoio pessoal de seu pai, o bilionário Larry Ellison. Se aprovada pelos reguladores globais, a transação dará à família Ellison o controle de um dos impérios de mídia mais poderosos do mundo. A aquisição reuniria dois estúdios de Hollywood responsáveis por filmes icônicos, de Casablanca e Harry Potter a Missão: Impossível; duas grandes redes de notícias, CNN e CBS; a plataforma de streaming HBO Max; e dezenas de canais por assinatura. Também colocaria sob o mesmo grupo a Nickelodeon, da Paramount, e o Cartoon Network, da Warner Bros, duas das marcas de televisão infantil mais conhecidas da Europa — um mercado em que cerca de metade dos canais infantis pertence a empresas americanas. — É certamente provável que a Comissão examine as sobreposições entre Paramount e Warner Bros no fornecimento atacadista de canais infantis de televisão na região — disse Jennifer Rie, analista da Bloomberg Intelligence. — As preocupações surgiriam se a participação de mercado combinada superasse 40% em algum país. Cinemas também pressionam O conteúdo infantil não é o único possível ponto de atenção na investigação europeia. Redes de cinema têm pedido compromissos sobre as chamadas janelas de exclusividade, período após o lançamento de um filme em que ele pode ser exibido apenas nos cinemas, antes de chegar aos serviços de streaming. No Brasil, como adiantou a coluna Capital, de Rennan Setti, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) negou o pedido das associações que reúnem o setor brasileiro de salas de cinema para atuar como “terceiras interessadas”, papel que permite a empresas e associações afetadas por uma operação ajudar a autarquia a identificar eventuais riscos concorrenciais gerados pela transação. Segundo outras pessoas familiarizadas com o processo, autoridades da Comissão Europeia procuraram recentemente cinemas para ouvir suas avaliações sobre o possível impacto da fusão em seus negócios. As fontes também solicitaram anonimato, já que o processo não é público. O pedido se baseia em argumentos de que a megafusão pode trazer prejuízos ao setor porque concentrará cerca de 30% do fornecimento de filmes em um único grupo. No entanto, o Cade alegou que as preocupações levantadas foram muito genéricas e não vieram acompanhadas de evidências concretas, o que não contribuiria para a investigação. As regras de fusões da União Europeia dão aos compradores uma janela curta para tentar resolver eventuais preocupações concorrenciais ainda na fase inicial da análise, conhecida como fase 1. Neste caso, eventuais medias teriam de ser apresentadas no início de julho, para as autoridades terem tempo de testá-las durante um breve período de prorrogação. Depois disso, a Comissão pode aprovar a operação ou abrir uma investigação mais aprofundada, a chamada fase 2, o que atrasaria a decisão em cerca de três meses — embora os prazos possam ser prorrogados. Reguladores europeus normalmente exigem medidas corretivas durante análises aprofundadas, mas também podem conceder aprovação sem restrições caso as preocupações iniciais se mostrem infundadas. Em resposta à Bloomberg, a Paramount não comentou detalhes da investigação europeia e reiterou que “tem dialogado com todos os órgãos reguladores e autoridades de aplicação da lei de forma construtiva e transparente, e continuará a fazê-lo”. A Comissão Europeia não comentou além de confirmar o prazo para sua decisão. Calendário da operação Executivos da Paramount miram a conclusão da compra no terceiro trimestre deste ano. Uma análise regulatória mais rápida poderia abrir caminho para o fechamento da operação antes disso. Em outra frente na Europa, a autoridade antitruste — área que trata da defesa da concorrência — do Reino Unido, a Competition and Markets Authority, deve abrir uma investigação inicial. O órgão vem sendo pressionado por grupos de interesse público, sindicatos e entidades da indústria cinematográfica a adotar uma postura rigorosa. Nos Estados Unidos, reguladores antitruste parecem inclinados a aprovar a aquisição, segundo informou o site americano de notícias Semafor no fim do mês passado. Ainda assim, um grupo de estados liderado pelo procurador-geral da Califórnia, Rob Bonta, também investiga o negócio e pode entrar com uma ação para tentar barrá-lo ainda este mês. Bilhões do Oriente Médio Embora a atenção esteja concentrada na análise tradicional de fusões da União Europeia, a compra pela Paramount também terá de passar pelo recém-adotado Regulamento de Subsídios Estrangeiros do bloco. A lei busca impedir que empresas financiadas por estados soberanos — como países ricos em petróleo do Golfo e a China — distorçam a concorrência no mercado europeu. Três fundos do Oriente Médio concordaram em aportar cerca de US$ 24 bilhões em capital para ajudar a financiar a proposta da Paramount. O grupo inclui o Fundo de Investimento Público da Arábia Saudita, a Autoridade de Investimento do Catar e a menos conhecida L’Imad Holding Co.,plataforma soberana de investimentos do governo de Abu Dhabi. Esses fundos soberanos receberiam novas ações Classe B da Paramount, sem direito a voto. Isso significa que teriam influência limitada na governança da companhia combinada — um ponto que pode favorecer o negócio na análise regulatória. Os fundos envolvidos na operação são ligados a países ricos do Golfo, que há anos investem grandes volumes de dinheiro em gestoras internacionais. A Apollo Global Management, uma das empresas que ajudam a financiar a proposta da Paramount, é um exemplo desse tipo de relação. A gestora americana já mantém laços antigos com a Mubadala, fundo de Abu Dhabi, e também recebeu investimentos de um braço do Fundo de Investimento Público da Arábia Saudita (PIF, sigla em inglês). Fontes do setor afirmam que a notificação formal da Paramount à União Europeia, no âmbito das regras sobre subsídios estrangeiros, é iminente, mas que não são previstos riscos relevantes. Caso a Comissão adote uma avaliação diferente, poderá abrir uma investigação completa, e a Paramount talvez tenha de apresentar remédios para afastar eventuais preocupações. O financiamento vindo do Oriente Médio também gerou apreensão nos Estados Unidos. Um grupo de senadores democratas pediu à Comissão Federal de Comunicações que faça “uma análise rigorosa e aprofundada do investimento estrangeiro na Paramount”, segundo carta enviada ao presidente da agência, Brendan Carr.
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